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Estou respirando

Sinto o ar passando pelas minhas narinas, o vento sopra na rua

Estou respirando

Vejo os mais velhos e as mais velhas nas praças

Estou respirando

Os mais novos e as mais novas brincam na grama, se preocupando unicamente com a possibilidade da chuva

Estou respirando

Carros passam no vai e vem frenético do cotidiano de uma cidade fria

Estou respirando

Ouço um carro se aproximar de mim

Minha respiração acelera

Ligam-se as sirenes, a voz me trata de forma ríspida

Minha respiração acelera

Todo o medo que me acompanhou na vida, vem parar no nó da minha garganta

Minha respiração acelera

Sinto o toque, nada afável das mãos brancas no  meu corpo

Minha respiração acelera

Lembro de minha mãe me ensinando a não me mover

Minha respiração acelera

Gestos violentos pegam minha carne e jogam ao chão

Minha respiração acelera

Lembro que é esse o lugar que querem me ver e ver meu povo

Minha respiração diminui

Um joelho aperta meu pescoço, como as correntes que apertavam meus antepassados

Minha respiração diminui

O nó da forca a que os meus eram expostos pra lembrar nosso lugar começa a apertar

Minha respiração diminui

“Estou tonto e meu estômago dói”

Minha respiração diminui

“Eu não consigo respirar!”

Minha respiração para.

Mais um homem preto volta ao Orun, cheio de ódio, sem paz.

(Otih – Sem título, 2020)

(Poema retirado da Dissertação de Mestrado intitulada: De Adodi a Guardiães do Espírito: o sankofar das relações afetivas e sexuais entre africanos homens em diáspora. De autoria de Tiago Rodrigues da Costa – Otih)

Imagem disponível em: https://br.pinterest.com/pin/84583299242586032/

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Nepar Psicologia

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