Por Janine Targino*
Acompanhamos nas últimas décadas o avanço de diversos grupos filiados a denominações evangélicas que passaram a ocupar importantes postos na política institucional brasileira, especialmente após a Constituinte de 1988. Concomitantemente, o interesse de pesquisadores das Ciências Sociais sobre a participação dos evangélicos na política gerou – e ainda tem gerado – uma série de interpretações e análises extremamente importantes para compreendermos este fenômeno (FRESTON, 1993; PIERUCCI, 1996). Assim sendo, com base nos apontamentos de alguns destes pesquisadores e na observação atenta da autora, tentarei desfazer alguns dos mal-entendidos surgidos de avaliações rasas que dificultam a melhor apreensão acerca do que vem ocorrendo na esfera política brasileira em função do protagonismo que o conservadorismo e a chamada “bancada evangélica” assumiram recentemente.
Certamente, o maior dos equívocos com o qual frequentemente nos deparamos sobre a atuação dos evangélicos na política é a tendência de considerarmos este grupo como algo homogêneo sem grandes diferenças internas. Por isso, em primeiro lugar, qualquer análise sobre o cenário político atual, ou mesmo sobre a composição religiosa no Brasil, precisa partir do entendimento de que os evangélicos, enquanto uma unidade uniforme, não existem (MAFRA, 2001). Cristãos progressistas, pentecostais, neopentecostais, evangélicos de missão… Estes são apenas alguns dos subgrupos em que a grande categoria “evangélicos” se divide. Ou seja, quando adotamos os “evangélicos” enquanto uma categoria analítica, o que realmente encontramos é um amplo conjunto de denominações que apresentam várias nuances no que diz respeito ao engajamento com determinadas práticas religiosas, ao comprometimento com visões de mundo mais ou menos conservadoras e à tolerância/intolerância com outras matrizes religiosas.
E, se nem todo universo evangélico está alinhado com uma perspectiva conservadora, obviamente podemos encontrar neste bojo grupos e lideranças que registram afinidade com a pauta progressista (ALENCAR, 2020). Em outras palavras, se por um lado temos nomes como os dos ministros do atual governo – e pastores evangélicos – André Mendonça, Milton Ribeiro e Damares Alves, por outro temos lideranças como Henrique Vieira, cientista social, teólogo e pastor da Igreja Batista do Caminho, filiado ao PSOL e que chegou a ser cotado para ser candidato à prefeitura do Rio de Janeiro nas eleições de 2020, Ariovaldo Ramos, pastor da Igreja Comunidade Cristã Reformada e amplamente conhecido por defender pautas de esquerda e ter manifestado apoio ao governo socialista de Hugo Chavez, na Venezuela, e Lusmarina Campos, teóloga e pastora luterana reconhecida pelo engajamento na luta pelos direitos das mulheres. Ainda nesta seara, vemos, inclusive, tomar corpo uma mobilização recente em prol da formação de uma bancada evangélica de esquerda com a intenção de estabelecer oposição a neopentecostais e conservadores com representação na política atual. A pauta norteadora desta nova empreitada política traz algumas questões bastante polêmicas na atualidade, tais como a defesa do Estado laico e o direito ao aborto[1]. Isso nos leva a compreensão de que há, sim, uma tradição democrática evangélica[2] que é preservada por nomes de destaque no contexto político contemporâneo e que precisa ser reconhecida.
Contudo, ainda que tenhamos este significativo contingente evangélico que pende para a esquerda, determinada parcela desta vertente religiosa permanece compondo uma base forte de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (OLIVEIRA, 2020). Mas, ainda assim, é errado dizermos que este grupo foi, de fato, o grande responsável pela vitória de Bolsonaro nas urnas. Isso porque, em números absolutos, os católicos votaram mais que os evangélicos no atual presidente da república, ainda que em termos proporcionais os evangélicos majoritariamente tenham apoiado a candidatura de Bolsonaro, diferentemente de outros grupos religiosos que se mostraram divididos ao manifestar apoio aos candidatos à presidência[3].
O avanço da agenda conservadora tem sido bastante associado ao voto evangélico e a presença maciça de integrantes deste grupo na política institucional. No entanto, é leviano atribuir o crescimento do conservadorismo apenas à ação dos evangélicos, ainda que eles sejam uma parte muito importante deste fenômeno (ALMEIDA, 2017). Para além do fato de que podemos encontrar posicionamentos conservadores nas mais diversas religiões, precisamos incluir no debate outros fatores que nos ajudam a montar um panorama mais completo sobre o nosso contexto político atual. Talvez o mais importante deles seja o que Christina Vital chama de “retórica da perda”[4], amplamente difundida nos últimos tempos e presente não só no espectro evangélico, mas também na sociedade mais abrangente. De acordo com os apontamentos da autora, este conjunto discursivo mobiliza de maneira muito eficiente um sentimento de medo relacionado ao “ataque” que determinadas instituições sociais supostamente estariam sofrendo nos tempos recentes, o que criaria a necessidade de empregar esforços no sentido de recuperar algo que foi “perdido” ou que estamos em vias de perder, caso não adotemos uma postura mais rígida diante das circunstâncias impostas. Assim, sente-se medo de que a concepção de “família tradicional cristã” (formada, basicamente por um homem, uma mulher e filhos) desapareça diante das lutas por visibilidade e direitos dos grupos LGBTQI+ ou que a legalização do aborto sirva como instrumento para dizimar um número imensurável de vidas, por exemplo. Ainda, podemos dizer que este sentimento de medo foi igualmente projetado em outras direções, sendo corresponsável pera criação do que podemos chamar de “antipetismo”, postura política e ideológica que se transformou numa ojeriza a todo conjunto político identificado como esquerda. Por isso, precisamos não só desfazer o mal-entendido onde os evangélicos são tidos como os provocadores do resultado das últimas eleições presidenciais, como também não podemos assumir como correta a afirmativa de que o avanço do conservadorismo se trata de um fenômeno fomentado apenas por este grupo religioso.
Outra questão importantíssima. Líderes e políticos evangélicos nem sempre representam um retrato fiel do que pensam ou fazem todos os demais integrantes desta vertente religiosa. Na verdade, tem sido cada vez mais frequente encontrarmos dissonâncias entre aqueles e os séquitos de denominações evangélicas, já que nem tudo que é dito em nome do segmento evangélico é completamente aceito e absorvido por este coletivo. Isso nos leva a conclusão de que, embora carreguem como identificação o rótulo de “evangélicos”, nem sempre estes líderes e políticos estão realmente alinhados com as perspectivas e convicções do cidadão comum que professa esta fé. Da mesma forma, o impacto de seus posicionamentos públicos sobre o segmento evangélico nem sempre gera a mobilização que esperam, especialmente porque sabemos que os fiéis – não só evangélicos, mas também de outras religiões – exercem agência e podem escolher as condutas e posturas as quais deseja aderir.
Prova disso é a forma como os discursos contrários à quarentena e às demais formas de prevenção ao novo Corona vírus, veiculados pelo presidente Jair Bolsonaro e por líderes responsáveis por denominações com séquitos numerosos, como Valdomiro Santiago[5], Silas Malafaia[6] e Edir Macedo[7][8], foram recebidos entre as demais lideranças do escopo evangélico. À contramão da crítica ao isolamento social e a defesa da reabertura dos templos, vários pastores vieram a público manifestar sua discordância em relação ao presidente e aos líderes supracitados, além de apresentarem estratégias alternativas para que os fiéis continuassem experienciando sua fé “remotamente”, tais como a prática de cultos online, ao mesmo tempo em que promoveram a realização de eventos e debates virtuais para tratar da importância dos cuidados necessários diante da pandemia[9]. Igualmente merece destaque o fato de que lideranças evangélicas identificadas com uma perspectiva progressista tenham tornado público seu apoio à ciência[10], indo mais uma vez em direção contrária à postura de repúdio manifestada tanto pelo presidente quanto por alguns nomes emblemáticos do universo evangélico.
Por fim, precisamos observar com cuidado a qual público é direcionado o discurso conservador propalado por determinados líderes políticos e religiosos. Em diversas situações podemos perceber que as falas destes atores sociais buscam ultrapassar as fronteiras da religião, já que visam conquistar adesão não apenas entre evangélicos, mas também entre aqueles que, em alguma medida, se identificam com esta retórica. Este foi o caso do tão polêmico “jejum pelo Brasil”, convocado por Bolsonaro no Domingo de Ramos[11] com a intenção de que os brasileiros se unissem em um ato religioso contra o novo Corona vírus. Esta, que foi chamada por líderes evangélicos apoiadores do presidente de “a maior campanha de jejum e oração na história do Brasil”[12], foi organizada no sentido de conquistar engajamento entre toda população, e não apenas em um seguimento religioso específico. Isto é, mesmo que as lideranças religiosas que propagandearam esta iniciativa fossem grandes ícones dentro do mundo evangélico, o que percebemos foi um esforço retórico para que todos os cristãos – e até os não cristãos, já que o jejum e a oração são práticas presentes em diversas religiões – aderissem a este evento. Desta forma, urge a necessidade de compreendermos quais os reais alvos dos discursos destas lideranças religiosas e políticas. O que pode parecer, numa rápida olhada, 9uma ação voltada para dentro do movimento evangélico, pode ter, na verdade, intenções de atingir um cenário bem mais abrangente.
*Doutora em Ciências Sociais. Professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Sociologia Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). E-mail: janine.targino.silva@gmail.com
[1] https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/09/09/contra-neopentecostais-1-bancada-evangelica-de-esquerda-se-lanca-em-2020.htm
[2] Tal como Almeida (2017) nos indica, o conservadorismo não é necessariamente contrário às normas democráticas. Mas, ocorre no debate público a sobreposição na identificação de conservadores, fascistas e fundamentalistas.
[3] http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/592934-apoio-evangelico-a-bolsonaro-e-marcado-por-uma-grande-volatilidade-entrevista-especial-com-christina-vital-da-cunha
[4] http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/592934-apoio-evangelico-a-bolsonaro-e-marcado-por-uma-grande-volatilidade-entrevista-especial-com-christina-vital-da-cunha
[5] Líder da Igreja Mundial do Poder de Deus.
[6] Líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.
[7] Líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
[8] https://www.cartacapital.com.br/opiniao/edir-malafaia-e-valdomiro-os-cristofascistas-que-menosprezam-o-coronavirus/
[9] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52313890
[10] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/05/organizacoes-evangelicas-repudiam-bolsonaro-e-manifestam-apoio-a-ciencia.shtml
[11] O Domingo de Ramos trata-se de uma celebração cristã realizada no domingo anterior à Pascoa na qual se faz referência à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, após 40 dias de jejum no deserto.
[12]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/04/04/interna_politica,842421/bolsonaro-convoca-populacao-a-participar-de-campanha-de-jejum.shtml
Referências bibliográficas
ALENCAR, Gustavo de. Grupos protestantes e engajamento social: uma análise dos discursos e ações de coletivos evangélicos progressistas. Relig. soc., Rio de Janeiro, v. 39, n. 3, p. 173-196, Dec. 2019.
ALMEIDA, Ronaldo de. A onda quebrada – evangélicos e conservadorismo. Cad. Pagu, Campinas, n. 50, 2017.
FRESTON, Paul. Protestantes e Política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment. 1993. Tese de Doutorado – UNICAMP, Campinas, 1993.
MAFRA, Clara. Os Evangélicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
OLIVEIRA, Fábio. Governo Bolsonaro e o apoio religioso como bandeira política. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano XIII, n. 37, Maio/Agosto de 2020.
PIERUCCI, Antônio Flávio. Representantes de Deus em Brasília: a bancada evangélica na Constituinte. A realidade social das religiões no Brasil: religião, sociedade e política. São Paulo: Hucitec, 1996. p. 163–191.