Malu Saturno Conceição, Yuri Camejo:
Temos por objetivo evidenciar a potência contida no cotidiano em elaborar narrativas históricas, quando estas estão profundamente vinculadas às demandas do presente na reelaboração de um passado. Conseguimos elaborar essa perspectiva, ao expor ao longo do presente artigo o projeto do Museu da Passagem, elaborado em conjunto com o Joaquim Felizardo (Museu de Porto Alegre), tendo em vista o constante sucateamento que o transporte público vem sofrendo em nossa cidade.
PALAVRAS-CHAVE: história pública; transporte; espaço urbano; ônibus; terminais.
Introdução
A história pública, como área da historiografia contemporânea, entende-se como o processo de externalização dos objetos de estudo da história, fazendo com que o conhecimento produzido na academia atinja maiores públicos, sem que este esteja restrito à história como disciplina. Elaborando reflexões críticas em torno do passado e seus usos no presente junto ao público. Este processo faz com que a disciplina respire, passe a entender as demandas desse presente e, com o público, possa se reelaborar, repensar seus objetos, suas fontes e suas metodologias, isso implica que “nós não somos a única autoridade, os únicos intérpretes, os únicos autores-historiadores. Em vez disso, o processo de interpretação e de construção de significados é, por definição, compartilhado”. (FRISCH, p. 62).
Com esse pressuposto em mente, pensar uma exposição em âmbito de história pública deveria atender, ao menos, três requisitos: pensar o objeto a ser exposto de uma maneira acessível, isto é, uma linguagem que dialoga com os mais diversos tipos de pessoas, de fácil compreensão e que independente do tempo dispensado nela, seja capaz de instigar uma criticidade quanto ao que está exposto.
Pensar o local onde a exposição será apresentada, para cumprir com o seu papel, ela deveria estar em um lugar de acesso irrestrito, podendo assim dispor de um maior alcance, tendo como interlocutor qualquer um que dessa forma desejasse.
E por último, evidenciar o passado na sua relação com o presente, entendendo as demandas políticas de um resgate histórico daquele objeto para pensar as possibilidades que se abrem para pensar novos processos tanto políticos quanto próprios da historiografia.
Esses parâmetros, têm por finalidade aproximar as pesquisas feitas dentro dos muros da universidade com o público da história projetando novas formas do fazer historiográfico, invocando nas pessoas esse sentido de sujeito pertencente da mesma, bem como projetá-las também como produtoras de um sentido histórico.
O objeto
Tendo isso em mente, fazia sentido elaborar o projeto pensando na história em âmbito local, conectando as memória e vivências dos Porto-alegrenses com a história da cidade, se desvinculando ao máximo da história projetada por meios oficiais que, na busca de se ligar a história nacional ou até mesmo regional, acaba por omitir a riqueza contida experiências do cotidiano em prol da construção de um discurso grandioso, das grandes figuras e dos grandes acontecimentos. Em consonância com Andréa Côrte (2021):
Ao tomarmos a história local como temática norteadora, e o local compreendido especialmente como o espaço urbano, consideramos importante ter como horizonte essa concepção de pluralidade, em que se movimentam histórias e memórias em diferentes temporalidades. Um espaço em que a dinâmica das relações de poder predominantes propicia disputas de memórias, disputas de versões de história, como também promove práticas socioculturais que implicam em valorização/desvalorização de determinados grupos sociais, de seus modos de viver e estar no espaço urbano. Sob esta perspectiva, o esforço de tornar pública certa visão da história local se desdobra no necessário estabelecimento de diálogos, implícitos ou explícitos, com diferentes sujeitos, individuais ou institucionais desta localidade, podendo ser aberta ao debate público. (p. 91)
Nesse sentido, provocados pelo processo de privatização de serviços essenciais, a excludente gentrificação dos espaços urbanos e a constante retirada de direitos que a atual gestão do governo Melo tem promovido ao longo dos últimos 4 anos — sabendo que estes ataques são reproduzidos independente da conjuntura política, mas que se aprofundaram nesse recente período — entendemos a cidade como ambiente de disputas. Assim buscamos construir uma exposição que envolvesse o cotidiano das pessoas e invocasse as experiências que a classe produziu (e produz) na busca pelo direito de transformar a cidade ao seu favor, “A liberdade da cidade é, portanto, muito mais que um direito de acesso àquilo que já existe: é o direito de mudá-la, mas conforme o desejo de nossos corações” (Harvey, p. 28).
Dessa forma, ainda pensando naqueles parâmetros para uma exposição de história pública, a questão do transporte pública foi posta em evidência, pois esta sintetiza as disputas de acesso à cidade que acontecem no presente, interseccionando a mais diversas problemáticas que se desenrolam no seio de Porto Alegre e da região metropolitana. Bem como guarda profunda relação com o desenvolvimento da extensão urbana, que ao longo do século XX foi escanteando a população mais pauperizada para as periferias do perímetro da cidade. Assim, podemos explorar como o sentimento de pertença aos bairros se desenvolveu, a partir de uma perspectiva diferenciada.
Desenvolvimento
Assim foi concebido o que nomeamos carinhosamente como Museu da Passagem.
A história da mobilidade urbana em Porto Alegre tem início com os mascates:
“Comerciantes ambulantes que abasteciam no mercado e depois perambulavam pelos nascentes arraiais, levando todo tipo de mercadoria. No retorno das comunidades, traziam as pessoas que tinham necessidade de se deslocar até o centro urbano.” (SILVA e MACHADO, p. 25)
A centralidade da pesquisa foi resgatar e entender o desenvolvimento do transporte público em Porto Alegre, vendo como a criação de novas vias e terminais está atrelada ao desenvolvimento das extensões da cidade e, com enfoque no desenrolar desse processo a partir de 1873, quando foram introduzidos os trilhos de ferro ao longo da cidade, e neles instalados bondes puxados a burro até o final da década de 70, quando o serviço de bondes já estava inoperante e passa a ser substituído inteiramente pelos ônibus. O motivo desse recorte se dá em primeira razão, pois é apenas a partir disso que temos registros fotográficos desses meios de transporte, entendendo a necessidade de recursos visuais para que fossem realizados os pretendidos diálogos com o público. O segundo motivo dessa escolha tem em vista justamente o sentimento de pertença que mencionamos anteriormente, uma vez que muitos dos transeuntes chegaram a experienciar essas outras formas de se locomover na cidade, que não apenas o ônibus e mesmo que não tenham experienciado, reanimar essas vivências, por meio da exposição, cumpre com esse propósito. Contribui, nesse sentido, pensar a memória como um processo coletivo, assim “acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou, mas que, no imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas, é quase impossível que ela consiga saber se participou ou não” (POLLAK, 1992, p. 2). Pretendendo instigar esses processos de memória e identificação, os textos que compõem a exposição hão de se utilizar, da série de livros publicados pela prefeitura municipal, Memória dos Bairros, rico em elementos, este projeto teve como intenção colher relatos de história oral de antigos moradores dos bairros que hoje constituem a cidade, rememorando as suas vidas em sua relação com a cidade. É perceptível nessas histórias a profunda relação entre transporte público e a identidade social dos moradores, como mostra o exemplar relato de Salvador Rangel, presidente da Associação de Moradores do Bairro Petrópolis:
“Então vamos começar pelos bondes: o serviço de transporte coletivo urbano, na época, era quase que exclusivamente de bonde, porque os ônibus tinham pouquíssimas linhas. Tinha o bonde que vinha até a João Abott e o fim da linha era na Protásio, esquina Carazinho. Tem uma história muito interessante […] Então era muito comum o motorneiro, no fim da linha, descer do bonde e ir tomar um cafezinho ali no bar da esquina que, ainda hoje, é uma farmácia. Os adolescentes[…] ‘roubavam’- como se dizia né? – o bonde, e o dirigiam até a João Abott, depois voltavam e o motorneiro ficava aflito, do lado de fora, esperando o retorno do bonde (…) Só para comparar, o bonde atendia a comunidade como hoje fazem as linhas de ônibus, mas tinha uma rota definida em cima dos trilhos, ele vinha até o fim da linha, que era uma esquina da Protásio Alves com Carazinho e toda a comunidade- ou a sua maior parte – utilizava-se dele. Então, o serviço de bonde era muito importante, principalmente na hora do início do trabalho…” (2002, p. 31)
Inicialmente pensamos em expor o projeto nos terminais de ônibus, cumprindo visando atingir mais pessoas. Estar disposto em via pública se fazia mais coerente, ainda mais por dialogar com o objeto da exposição. Nesse sentido a pesquisa e posteriormente a exposição poderia se estender a outros meios onde se estabelece esse tipo de relação de pertencimento e identidade a lugares cuja estamos apenas de passagem se faz presente, lugares como nas paradas da Trensurb, na Rodoviária, no Catamarã, bem como nos terminais da região metropolitana. Lugares estes onde a problemática de acesso à cidade muitas vezes se intensifica e gera, por vezes, outras inúmeras problemáticas, devido ao distanciamento do centro da capital. Infelizmente, devido ao pouco tempo que tivemos para nos aprofundar na pesquisa das fontes e elaborar a exposição a partir dessa, tivemos de nos restringir a criação de um site que expusesse a pesquisa, com as imagens dos respectivos terminais na atualidade e como são hoje em dia, seguidos de breves textos, elaborando melhor essas relações, o’que por um lado da abertura para desenvolver melhor o histórico dos locais e aprofundar a crítica, ao planejamento urbano excludente que vivemos, mas, por outro lado, acaba por limitar o alcance da exposição.
Imagem 1: Captura de tela de exemplo do site.
Fontes utilizadas
Tendo definido o formato em que a exposição se apresentaria, buscamos dar corpo à nossa pesquisa, optando pelo uso de acervos fotográficos que ilustrassem a história dos terminais. A instituição que mais dava respaldo aos objetivos traçados pelo projeto foi o Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, que hoje dispõe de um acervo fotográfico
“Formado por cerca de 9.000 imagens de Porto Alegre dos séculos XIX e XX. Possui registros dos mais diferentes aspectos da cidade ao longo do tempo e conta com fotografias de profissionais renomados como Virgílio Calegari, Lunara, Barbeiros & Irmãos, Sioma Breitman e Irmãos Ferrari.” (APERS)
Junto da museóloga Luciana de Brito, uma das responsáveis por estes documentos, conhecemos este rico acervo resguardado pela instituição. Lá fizemos uma breve curadoria, em duas visitas ao museu, buscando no banco de imagens. Utilizando as palavras-chave relacionadas ao tema, não foi difícil encontrar imagens do início do século XX, indo dos bondes puxados a burro até a frota de ônibus mais antigos. Também pudemos conhecer os antigos terminais e, conversando com a Luciana, pudemos conhecer um pouco melhor a história dessas linhas, como a população conhecia esses lugares, instigando na museóloga justamente o que nos propusemos, um trabalho de memória.
Imagem 2: Estação Carlos Gomes (ônibus), sem data.
Imagem 3: Av. Borges de Medeiros com a rua João Alfredo, década de 70 (hoje, av. Loureiro da Silva e o viaduto açorianos) (sem data).
Conclusão
Segundo a Luciana, em breve o Museu também irá receber parte do acervo documental, que atualmente está sob a guarda do Centro de Memória Carris. Após a venda da empresa, nos sentimos provocados a problematizar a temática do transporte público na Porto Alegre atual. Desta forma, se insere mais uma demanda colocada pelo presente, de resgate desse passado, em diálogo com a atual precarização da frota de ônibus e o processo de privatizações e sucateamentos que vem acontecendo na cidade. Ao invocar essas temáticas, se abre uma série de possibilidades, tornando ainda mais necessária a elaboração de um projeto que envolva esse acervo e o leve a público, além de levar à tona esse sentimento de sujeito pertencente à sua própria narrativa, capaz de alterar a sua realidade.
Assim, com o desenvolvimento prévio dessa ideia, existe então a perspectiva de retorno ao museu, para maiores aprofundamentos da pesquisa, para desenvolvermos juntos um projeto que leve a um maior público reflexões quanto ao acesso à cidade que, além de um direito básico de todo cidadão, é uma forma de contribuir para a construção da identidade do local e da história da população para sua própria sociedade.
REFERÊNCIAS
*Imagem: Estação Carlos Gomes (ônibus), sem data.
FRISCH, Michael. “A história pública não é uma via de mão única, ou De A Shared Authority à cozinha digital, e vice-versa”. In: MAUAD, Ana Maria; ALMEIDA, Juniele Rabêlo de; SANTHIAGO, Ricardo (Org.). História Pública no Brasil: sentidos e itinerários.
CORTE, Andréa Telo da Côrte; BARROS, Joana da Silva; LIMA, Lívia Morais Garcia; HADLER, Maria Silvia Duarte; ROVAI, Marta Gouveia de Oliveira; KOBELINSKI, Michel. “Como fazer a história local se tornar pública, e para quem?”. In: ALMEIDA, Juniele Rabêlo de; RODRIGUES, Rogério Rosa (Org.). História Pública em movimento. São Paulo: Letra e Voz, 2021.
Memória Carris: Crônica de uma história partilhada com porto alegre. Org. Cinara Santos da Silva e João Timotheo Esmerio Machado. Porto Alegre, Carris; Prefeitura Municipal, 1999.
POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200-212, 1992.
CONCEIÇÃO, Malu Saturno; CAMEJO, Yuri. Museu da Passagem. Periódico Por Uma Ideia, 2024. Disponível em: https://www.ufrgs.br/periodicopui/museu-da-passagem/. Acesso em:
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