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Notas de uma maternidade acadêmica (ou de uma pesquisadora acadêmica que também é mãe)

Por Letícia Simões:

1. Estou na reta final, finalíssima da escrita da tese de doutorado, orientada pela prof. Dra. Nísia Martins do Rosário. Esse semestre, em um dos encontros que tivemos do nosso grupo de pesquisa, ao invés de partilhar um dos capítulos escritos, apresentei como extensão da minha investigação, o mais recente longa-metragem por mim realizado – além de doutoranda, sou também, cineasta.

“A Vida Secreta de Meus Três Homens” (2025) é um documentário fabular, documentário de criação ou fábula histórica, como os críticos o têm chamado, no qual parti de uma pesquisa histórica em torno das performances masculinas da violência no Nordeste do século XX para pensar possíveis estratégias de saída dessa mesma violência através da linguagem ou da criação.

2. Esse filme é dedicado à minha filha.

3. A minha filha tem exatamente a mesma idade da minha pesquisa acadêmica. Eu estava grávida quando escrevi meu projeto de pesquisa à universidade e ela nasceu em fevereiro de 2021, semanas antes das aulas online começarem.

4. Nesse encontro realizado no Núcleo de Pesquisas Corporalidades, um colega me perguntou qual relação eu estabelecia entre a pesquisa acadêmica e prática cinematográfica; ou em que medida uma havia influenciado a outra, no caso específico do longa-metragem apresentado à discussão. Foi uma pergunta tectônica, dessas que estremecem as bases do (meu) território – justamente porque, pela primeira vez em quatro anos, me deparei com o (talvez óbvio?) fato de que essas duas instâncias – a pesquisa acadêmica e a maternidade – transformaram radicalmente a minha forma de habitar a linguagem cinematográfica.

5. No prefácio à edição brasileira do livro de bell hooks, “Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra” (2019), originalmente publicado em 1989, a primeira experiência de hooks em uma escrita acadêmica que abarcasse a dimensão da sua experiência em uma tentativa de historicizar a sua relação com a teoria feminista, a professora e pesquisadora em história cultural Mariléa de Almeida escreve que o livro articula “simultaneamente corpo (a voz), prática (a coragem) e ética (compromisso com a dignidade humana)” (hooks, 2019, p. 9), sendo “o primeiro livro de bell hooks em que, no âmbito acadêmico, ela radicaliza a máxima feminista de que o pessoal é político” (hooks, 2019, p. 10). A escrita da minha pesquisa, desenvolvida nesses quatro anos, é apoiada justamente numa aposta em dispositivos de escrita aparentemente não acadêmicos: diálogos imaginados, cartas, escrita endereçada ao leitor, escancarando a subjetividade de quem escreve. Por óbvia consequência, o estudo acabou se encaminhando por um caminho concomitante à máxima feminista. O pessoal pode ser, também, teórico.

Pequenos grupos de pessoas engajando-se juntos numa discussão feminista, numa luta dialética, criam um espaço onde o “pessoal é político” como ponto de partida da educação para a consciência crítica – e, como tal, pode ser estendido a uma politização do eu focada em compreender as maneiras pelas quais sexo, raça e classe, juntos, determinam nosso destino individual e nossa experiência coletiva.

hooks, 2019, p. 66-67

6. Uma tese viria antes ou depois de uma gravidez? Quando antes, certamente dispor de tempo para os estudos e para a escrita, é um trunfo. Quando depois, talvez a biologia cobre algum preço. A minha gravidez não foi planejada e, dessa forma, a pergunta somente se impôs quando já não havia mais o que fazer. Para algumas colegas, contudo, é um dilema diário. Algumas concluíram o Mestrado, engravidaram, alguns anos passaram e têm medo de criar um projeto de pesquisa doutoral por não saber se haverá tempo, se a academia conseguirá recebê-las, ou até, se a visão de mundo completamente modificada pelas lentes da maternidade conseguirá se conciliar à realidade do cotidiano dentro da Universidade.

7. Ao longo destes quatro anos de pesquisa e de maternidade, minha tese terminou por se debruçar, também, sobre a dimensão da própria pesquisa/escrita acadêmica alterada pela dimensão da maternidade. Ou seja, na tese, passei a forjar espaços de escuta para uma sensibilidade de pesquisa. O que alguns nomearam de fabulação histórica em outras áreas do conhecimento, na comunicação, entendi ser uma tecnologia de sobrevivência e persistência através da linguagem. Furos e dribles, liderados, na maior parte das vezes, por mulheres. Escancarava-se a porta da teoria feminista.

8. O que é, o que deseja e como se comporta o feminismo? Desde o surgimento da palavra enquanto um conceito de método crítico dentro dos Estudos Culturais, logo associado a uma postura ativa de mulheres na sociedade civil, a articulação feminista se caracteriza por “redes político-comunicativas”, como caracteriza a professora Ana Carolina Escosteguy: “esses campos também se articulam discursivamente através de linguagens, sentidos, visões de mundo pelo menos parcialmente compartilhadas” (Escosteguy, 2020, p. 18). E nessa interação entre a criação de um mundo através da linguagem, do enfrentamento da historicização prévia deste mundo, dos códigos performatizados e da participação mais ou menos ativa nos ditames da comunidade, uma nova forma de sistematização do conhecimento começa a ser proposta.

No caso do Brasil, como Margareth Rago aponta, “(…) não há nem clarezas nem certezas em relação a uma teoria feminista do conhecimento. Não apenas a questão é pouco debatida, como em geral o próprio debate nos vem pronto, traduzido pelas publicações de autores do Hemisfério Norte” (Rago, 2019, p. 372). Dadas as devidas proporções da distância histórica, pontuando que, ao redor dos últimos dez anos, o Brasil vive um processo de revisão bibliográfica, estimulado muitas vezes pela problemática em torno do “lugar de fala”, conceito popularizado pelo livro “O que é o lugar de fala?” (2017), de Djamila Ribeiro, o fato é que a grande parte das referências em torno da discussão sobre existir ou não um pensamento feminista, ou de que forma ele se comporta (e ainda, suas linhas de discussão) ainda se reporta às teóricas anglo-saxãs e europeias. Mas como podemos pensar uma produção de conhecimento diversa daquela que nos foi sempre dada como única via científica: racional, imparcial, fundamentada numa observação quantificada e organizada por um indivíduo que parte da identificação de um problema para alcançar uma verdade?

A discussão sobre o feminismo é marcada pela valorização da experiência em detrimento da imparcialidade do sujeito unida a uma investigação sobre o processo de construção da identidade de determinados atores da sociedade. Por isso, o estudo da linguagem e a revisão histórica se tornam metodologias fundamentais na prática feminista, como é o caso da escrita desta tese.

Quando partimos, por exemplo, do pensamento sobre o que significa “epistemologia” – a forma como procedemos à análise do saber, como construímos nosso conhecimento, como decodificamos cientificamente a realidade e suas operações estruturais – começamos a compreender a defesa por uma epistemologia feminista. Afinal, “as mulheres trazem uma experiência histórica e cultural diferenciada da dos homens, uma experiência que várias já classificaram como das margens, da construção miúda, da gestão do detalhe, que se expressa na busca de uma nova linguagem ou na produção de um contradiscurso” (Rago, 2019, p. 373).

9. Seria o meu filme um drible cinematográfico sobre crescer, sendo uma mulher, em uma sociedade tão patriarcalmente injusta como a nordestina, a brasileira? No filme, uma mulher sem nome aparente – a Narradora – convoca três fantasmas de sua dimensão familiar para abordá-los, confrontá-los e escutá-los em torno do registro da violência. Um avô que teria feito parte do movimento do cangaço quando criança, um pai que teria trabalhado como agente civil para o Sistema Nacional de Informações da ditadura militar, um padrinho que tirou a própria vida após perder o companheiro em um ataque homofóbico e que deixou, como uma espécie de herança, centenas de fotografias domésticas de familiares e de amigos para essa futura afilhada. As respostas oferecidas pelo filme estão em dimensões como a poesia, a pesquisa histórica, o gesto de fabulação. A ficção; uma ficção que começa numa história de si, mas que se nega ao fechamento desse ato em si próprio.



10. Porque falar de si virou produto, e talvez nunca tenha sido tão rentável narrar a própria vida. Vivemos um tempo em que a escrita de si e a fabulação parecem ter atingido um ponto de saturação, uma exaustão estética e política. Gestos que antes pareciam subversivos – emergir a dimensão do íntimo – tornaram-se promessa de engajamento, através de uma moeda simbólica. Mas é entre esses dois extremos, o da descoberta inaugural e o do esgotamento capitalístico, que me situo. Enquanto prática feminista, sigo acreditando ferozmente na potência da experiência subjetiva como metodologia para a (minha) pesquisa acadêmica e prática cinematográfica.

11. Assim como a maternidade é uma coreografia insalubre entre observar o outro, apresentar-lhe o mundo a partir de si e criar algo na fricção entre esses dois gestos, talvez eu tenha compreendido que essa experiência provocou em mim uma alteração profunda na forma como digiro o outro, nessa experiência radical de alteridade, a ponto de tornar impossível, nos estudos da Comunicação, ignorar essa dimensão.

12. “A Vida Secreta de Meus Três Homens” (2025), está percorrendo o circuito de festivais internacionais e deve chegar aos cinemas brasileiros no primeiro semestre de 2026. A minha tese será defendida ainda no segundo semestre desse ano. A minha filha fará cinco anos em fevereiro do ano que vem.


Imagens

Crédito: Fotogramas de “A Vida Secreta de Meus Três Homens” (2025).


Referências

ESCOSTEGUY, Ana Carolina Damboriarena. Estudos culturais feministas: a importância de afirmar uma nomeação. LÍBERO, n. 46, p. 10-25, 2020. Disponível em: https://seer.casperlibero.edu.br/index.php/libero/article/view/1207.

HOOKS, bell. Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. São Paulo: Elefante, 2019.

RAGO, Margareth. Epistemologia feminista, gênero e história. IN: HOLLANDA, Heloísa Buarque de. (org.) Pensamento feminista brasileiro – Formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019, p. 371-387.

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