GRAFIA DRAG, ANO V: UMA CIÊNCIA DESMONTADA
Professora Maldita (Douglas Ostruca)

Surgimos com o objetivo de construir uma rede coletiva de saberes provindos das práticas de montação. Oxigenar a ciência promovendo trocas com nossos saberes populares cultivados nos processos de criação e nas relações entre artistas.
Em cinco anos de existência, a Grafia Drag construiu um território coletivo de produção e circulação de saberes nascidos das práticas de montação. Neste ensaio comemorativo, a professora Maldita revisita a trajetória do projeto, suas publicações e iniciativas de preservação da memória drag e transformista, identificando quatro vertentes que atravessam sua produção: memórias da montação, políticas da cena, poéticas e estéticas drag e dissidências drag. Entre experiências artísticas, pesquisas acadêmicas e disputas por reconhecimento, o texto afirma a potência de uma Ciência Drag construída pelas próprias artistas, a partir de suas práticas, corpos, memórias e perspectivas.

“DRAG IS FUN!”: NOT ANYMORE
Encontro-me em um lugar muito peculiar da carreira. Já ouviu falar do que acontece quando você trabalha com o que ama? Pois é. Eu amei Drag. Hoje é diferente.
Depois de onze anos fazendo Drag, Persephone escreve a partir de um momento de cansaço e transformação. Entre a prática artística e a pesquisa em Artes Cênicas, a autora levanta questionamos sobre a cena drag contemporânea passando pela repetição das mesmas fórmulas, pelas rivalidades, pelo individualismo e pela transformação da Arte Drag em uma commodity para exportação. Ao mesmo tempo em que se pergunta sobre o poder da arte e sobre a própria crença na capacidade da arte de transformar o mundo. Persephone procura caminhos para imaginar outras possibilidades de criação.

MI REFLEJO ME DIJO SU NOMBRE: CARTOGRAFÍA DE DIEZ AÑOS CON GABRIEL DRAG KING
Nancy Cornejo Cázares (Gabriel Drag King)
En un relato que recorre diez años, Nancy Cornejo Cázares revisita el nacimiento y la transformación de Gabriel Drag King, desde el primer maquillaje frente al espejo, en 2016, hasta su incorporación a la investigación académica. Entre performance, masculinidades, memoria y la escena drag mexicana, la artista reflexiona sobre las transformaciones provocadas por la práctica drag y sobre cómo Gabriel pasó de ser un personaje a convertirse en una forma de habitar el cuerpo, ocupar espacios y producir conocimiento a partir de la propia experiencia.

TODAS AS DRAGS SÃO IGUAIS, MAS ALGUMAS SÃO MAIS IGUAIS QUE AS OUTRAS
Pietro Lamarca (Gabriela Coiradas)
A partir de uma provocação inspirada em George Orwell, Pietro Lamarca reflete sobre as desigualdades de reconhecimento dentro da cena drag. Entre fama, redes sociais, contratos e bastidores, o ensaio questiona os critérios que determinam quem recebe visibilidade, oportunidades e tratamento privilegiado. Ao defender a potência das trocas entre artistas, o texto propõe pensar uma cena drag menos hierarquizada e mais coletiva, onde diferentes expressões possam compartilhar espaços, experiências e possibilidades de trabalho.

GURL, CAN YOU READ? LIKE, LITERALLY?
Neste ensaio, Mia The Witch aproxima sua experiência como artista drag de sua trajetória na pesquisa científica para discutir a cena drag de Porto Alegre. A partir de estudos acadêmicos e de sua própria pesquisa de campo, o texto questiona a predominância da feminilidade como norma estética e profissional na cena local. Drag queens, drag kings e drag monstras aparecem como diferentes possibilidades de criação e expressão, revelando a pluralidade da arte drag. Mais do que defender uma tipologia específica, Mia propõe tensionar as condições que determinam quais artistas encontram espaço no mercado e quais permanecem à margem. O ensaio é também uma defesa da produção de conhecimento sobre a cultura drag e de uma cena mais diversa, aberta e plural.

JOÃO CARLOS CASTANHA: CINEMA E CRIAÇÃO NO TRANSFORMISMO
Profª Maldita (Douglas Ostruca)
Nesta entrevista, João Carlos Castanha revisita mais de quatro décadas de trajetória dedicadas ao teatro e ao transformismo, reconstruindo memórias fundamentais da cena LGBTQIA+ de Porto Alegre. Ao narrar o surgimento da personagem Maria Helena Castanha, a criação da Companhia de Teatro Ridículo e sua passagem por boates, palcos e produções cinematográficas, o artista revela como humor, cinema, grotesco e observação do cotidiano moldam seu processo criativo. Mais do que um relato biográfico, a conversa registra transformações históricas das cenas transformistas brasileiras e evidencia a potência da arte como espaço de invenção, memória e resistência.

A MAGIA QUE TRANSBORDA DE MIM
Mystika Ai
Em A magia que transborda de mim, Mystika Ai apresenta um poema que entrelaça arte drag, dança, ancestralidade e criação artística para refletir sobre os caminhos da autodescoberta. A partir da aceitação da própria fragilidade, e autore constrói uma escrita marcada por imagens simbólicas e sensíveis, nas quais a vulnerabilidade se transforma em potência criativa. O poema convida à leitura de uma experiência íntima em que corpo, memória e expressão artística se encontram como formas de existir e reinventar o mundo.

ESTUDOS PARA ECO: UMA AUTOFABULAÇÃO DRAG EM SETE ENSAIOS
Eco Zazu (Allan Cordeiro Cardoso)
Neste ensaio autobiográfico, Eco Zazu revisita o percurso de criação de sua persona drag por meio de sete ensaios fotográficos produzidos entre 2020 e 2021. Partindo de memórias da infância, da descoberta da própria identidade e da construção de um corpo artístico, a autora compartilha os bastidores da maquiagem, do figurino, da fotografia e da performance, revelando como cada experimento se tornou uma etapa de investigação estética e autoconhecimento. Entre referências da arte, da mitologia e da cultura drag, o texto reflete sobre gênero, fabulação, criação e os processos que transformam a prática artística em uma forma de existir e habitar o mundo.

UMA BREVE REFLEXÃO ACERCA DO PROCESSO CONSTRUTIVO DA PERFORMANCE “A BICHA É BICHO”
Henrique Alves Amaral a.k.a Monalisa de Bandana
Este documento é o registro de um percurso. Há aqui, o que foi desenvolvido por mim, Monalisa de Bandana, durante a disciplina Práticas Performativas I, ministrada pelo artista multimídia e professor Mário Ramiro. Ao final do curso pudemos expor nossas obras no “Laboratório do Semestre do Departamento de Artes Plásticas”, que aconteceu no Espaço das Artes da Universidade de São Paulo (EDA-USP) de trinta de junho até quatro de agosto de 2025. Na abertura do Laboratório, em trinta de junho, apresentei ao mundo a performance “A BICHA É BICHO”. Ademais, hei de refletir acerca deste processo criativo, percorrendo teorias e esboços artísticos que estiveram presentes no processo de criação dessa obra. Sem mais delongas, vejamos a proposta da performance para entender do que estamos falando e iniciarmos a discussão.

UMA DRAG QUEEN VITRUVIANA
Profª Maldita (Douglas Ostruca)
Ao nos deparar com uma compilação de imagens do elenco de artistas selecionadas para a 18ª temporada de RuPauls Drag Race (RPDR), percebemos uma redundância estética expressa no estilo das maquiagens. Mudam as cores, a intensidade das linhas, a composição dos olhos, mas o formato dos contornos e da iluminação se repetem. Olhos e bocas grandes, narizes afinados, zigomáticos ressaltados, recorrências também percebidas nos tutorias de montação drag publicados no YouTube investigados na pesquisa de mestrado e no meu próprio processo de montação como drag queen. Essa predominância não é apenas uma tendência, os procedimentos concretos de aplicação dos produtos sobre o rosto dão a ver lógicas abstratas que sustentam um determinado formato de rosto, sendo essas regras de composição implícitas que nos interessa aqui mapear.

ENTREVISTA COM LINDA POWER
Por: Ash Rose
A arte transformista e as cenas drag nacionais e internacionais estão em constante mudança. Novas referências, gerações, técnicas e subculturas ganham espaço todos os dias com o impulso das mídias sociais. Ser um artista que segue em evidência é um trabalho constante para ficar atento às novidades da cultura pop e se reinventar, e disso a transformista Linda Power pode falar como ninguém. São 31 anos trabalhando com a arte drag em suas diversas formas de expressão e nos mostrando todas as possibilidades e vertentes que essa arte nos trás. Linda nos ensina que nunca é tarde para tentar coisas novas e ainda se manter fiel a si mesmo. São três décadas de brilho, carnaval, elã e trabalho duro, tudo coberto de glitter e bem preso com grampos e cola para consolidar uma carreira única e cheia de surpresas.

O GOSTO DE REBECCA MCDONALD PELAS “INTERNACIONAIS”
Neste ensaio, a trajetória de Rebecca McDonald é reconstruída a partir de entrevistas, memórias e documentos históricos da cena LGBTQIA+ porto-alegrense. Reconhecida como uma das artistas transformistas mais marcantes entre as décadas de 1980 e 2000, Rebecca atravessou palcos, boates e espetáculos com performances inspiradas em divas internacionais como Madonna, Liza Minnelli e Grace Jones. Ao investigar suas referências artísticas, práticas de montação e presença cênica, o texto também reflete sobre memória queer, cultura drag pré-internet e os modos de circulação da arte transformista no sul do Brasil.

TÔ DE DRAG: o coletivo é revolucionário
Anubis Blackwood narra a trajetória do coletivo drag Tô de Drag, criado em Jundiaí como espaço de apoio, formação e resistência artística LGBTQIAPN+. A partir de experiências compartilhadas entre artistas drag do interior paulista, o texto discute comunidade, autoconhecimento, profissionalização da arte drag e a potência política da organização coletiva diante da precarização e do conservadorismo.

O DESPERTAR “TARDIO” DA ARTE: a libertação drag após os 30
Pietro Lamarca (Gabriela Coiradas)
No texto “O despertar ‘tardio’ da arte: a libertação drag após os 30”, a Pietro Lamarca (Gabriela Coiradas) aborda o etarismo, tensionando a ideia de que existe uma idade limite para iniciar trajetórias artísticas. A partir de sua experiência com a arte drag king, a artista discute como a maturidade pode potencializar o processo criativo, ampliando o autoconhecimento e a liberdade de expressão, ao mesmo tempo em que questiona padrões sociais que restringem a criação artística a determinadas fases da vida.

DESMONTAR PARA SE MONTAR
No poema “Desmontar para se montar”, Mystika Ai percorre um processo íntimo de crise, exaustão e estranhamento com a própria imagem, revelando as tensões entre identidade, corpo e percepção de si. Ao longo do poema, a desmontagem surge como um gesto necessário de ruptura, que abre espaço para uma reconstrução sensível através da maquiagem, do encontro com outras pessoas e da prática artística. Entre vozes internas de cobrança e momentos de acolhimento coletivo, a arte drag aparece como ferramenta de recomposição, onde montar-se deixa de ser apenas aparência e passa a ser um ato de cuidado, pertencimento e reinvenção.

PORTO ALEGRE ME DÓI, NÃO DIGA A NINGUÉM: Hegemonias drag e falta de apoio às diversidades artísticas na cidade
No ensaio “Porto Alegre me dói, não diga a ninguém”, Mia The Witch analisa a cena drag da capital gaúcha, refletindo sobre a predominância de padrões estéticos hegemônicos e a escassez de espaços que acolham outras vertentes da arte drag. A partir de exemplos de concursos tradicionais e do impacto do fechamento da Workroom Bar, o texto discute os desafios enfrentados por artistas que tensionam normas de beleza, gênero e performance, defendendo uma cena mais diversa e aberta às estéticas diversas da arte drag.

DELÍRIOS, DEMÔNIOS E DRAG
Mais uma vez, eu encontro meu coração partido em tantos pedaços que alguns nem consigo mais enxergar no meio do caos. Parte de mim queria estar debaixo de mil cobertas, no escuro, sem ver ninguém e sem ninguém me vendo. Outra parte fica feliz por isso estar acontecendo justo hoje, em um dia que preciso mostrar a minha cara com mil quilos de maquiagem, em cima de um palco, com um sorriso no rosto e com a missão de trazer para o público a alegria que nem parece que ainda tenho dentro de mim.

DRAGFICAR O OLHAR: RESENHA DE A COISA DRAG (SANDRO KA, 2024)
A resenha analisa o livro A coisa drag (2024), de Sandro Ka, destacando a drag como uma lente estética, política e epistemológica para pensar a arte contemporânea. A partir do conceito de “dragficação”, o autor propõe compreender diferentes obras e linguagens artísticas como atravessadas por excesso, ambiguidade e instabilidade, afirmando a drag como um modo de criar, ler e existir no mundo.

RUBÃO, RUBY: QUANDO O CORPO CLAMA POR INFINITAS POSSIBILIDADES
Entrevista por Ayla Cinema.
Quando a conheci, Rubia Romani já era uma atriz renomada da cena teatral da cidade de Curitiba. Vi sua carreira florescer de diversas outras formas no seu encontro com a arte Drag King e com o Burlesco, nas quais construiu as personas Rubão e Ruby respectivamente. Tais figuras arrebatam cabarés, galerias e teatros mundo a fora. Performances como Cavalo, em que Ruby, nos convida a vê-la como um cavalo, e ao longo da performance o próprio cavalo vira um animal a parte de seu corpo, até ela montar propriamente no cavalo, embalada pela música Cavalo da diva Liana Padilha.

IMAGENS DA DEGENERAÇÃO EM WATERS
persephone ephemera pepper (a.k.a. jeanne martins speckart)
Quando me recordo de quando John Waters entrou na minha vida, me transporto para os meus dezesseis ou dezessete anos, quando minha melhor amiga da escola, na melhor de suas intenções “mariapurpurínicas”, dividiu comigo a referência bombástica que havia conhecido através do seu namorado da época: um sujeito punk com quase o dobro das nossas idades. Sam me disse que era de suma necessidade que eu conhecesse o trabalho da Drag Queen chamada Divine, assistindo a Pink Flamingos (1972).

DRAG MONSTRAS E O USO DA ESTÉTICA HUMANA
Certa vez, estávamos eu e outra amiga drag monstra em uma socialzinha com outras drags. Fazia muito calor em Porto Alegre naquela noite […] A conversa estava animadíssima naquela madrugada, até que uma das drags presentes na roda, após eu e minha outra amiga nos afirmarmos enquanto monstras, tecer o seguinte comentário: “Eu não acho que vocês são monstras, ser drag monstra é outra coisa”. Incrédula com tamanha petulância, eu indaguei o que, na concepção dela, era ser uma drag monstra, portanto. Foi quando me respondeu que, a partir de seu entendimento limitado, uma drag monstra deveria apresentar uma estética monstruosa que nada se assemelhasse à estética humana. Eu dei um sorriso malicioso e deixei a conversa fluir para outro assunto. Porém, essa conversa frequentemente reverbera na minha mente.

JUNNO JU NO ACADEMIA DE DRAGS: A REPRESENTATIVIDADE DAS COMEDY QUEENS
Me chamo Junno Ju, tenho 22 anos, sou atriz, criadora e comediante. Fui selecionada entre as oito participantes do “Academia de Drags 4”, reality show que há mais de uma década revela grandes nomes do cenário drag nacional, como Rita Von Hunty, Gisella Popovick e Slovakia. Nesta nova temporada, o programa ganha ainda mais destaque com o apoio do canal UOL, que transmite os episódios gratuitamente pelos canais @splash_uol e @academiadedrags no YouTube.

GRAFIA DRAG, ANO IV: SABERES DISSIDENTES, GONGAÇÕES CRÍTICAS E AUDIOVISUALIDADES DRAG
Professora Maldita (Douglas Ostruca)
Em outubro de 2025, o Grafia Drag completa 4 anos com publicação quinzenal de textos sobre as cenas drag e transformistas. São 91 textos produzidos por artistas e pesquisadories, abrangendo temas que vão desde processos de criação até os contextos históricos e políticos nos quais a arte drag e transformista se insere. Neste último ano, foram compartilhados 22 materiais, os quais dão continuidade às linhas escriturais desenvolvidas nos anos anteriores – os processos e memórias coletivas da montação, a gongação crítica e a divulgação científica dos saberes drag desenvolvidos em pesquisas acadêmicas. O destaque vai para os drag kings e as drag monstras que ocuparam o Grafia Drag, dando visibilidade para seus processos criativos e trajetórias dissidentes dentro das próprias cenas drag. Entre os tópicos abordados neste ciclo estão: as trajetórias de kings e monstras, a experimentação estética e de gênero, as críticas aos padrões hegemônicos de beleza e feminilidade, os saberes adquiridos pela prática e pesquisa drag, e a relação entre arte drag e audiovisualidades.

AU REVOIR SHIRLEI: TRANSFORMISTAS E TRAVESTIS NO FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO
Outro mês de agosto se passou e mais uma edição do Festival de Cinema de Gramado aconteceu. Mas este texto é sobre o agosto de 1991, quando transformistas e travestis desfilaram pelo tapete vermelho do tradicional evento da Serra Gaúcha. Naquele ano, um filme chamou atenção da crítica, do público e da imprensa, tanto pela história narrada quanto pelo elenco que a encenou. Concorreu na 19ª edição do festival, na categoria de “Filmes de curta-metragem 35mm”, o Au Revoir Shirlei (1991), dirigido e roteirizado por Gilberto Perin e produzido por Alice Urbim, que também assina o roteiro.

A PRIMEIRA NOITE DE UM KING
O tempo passou. Mudei-me para São Paulo e criei uma amizade com Maíra de Grandi, atriz que também tinha seu king: Cauê. Nossas trocas nos fortaleceram até que decidimos escrever Brodagem, uma peça onde nossos kings pudessem interagir e inventar uma relação. Foi nesse processo que senti a necessidade de entender quem era Mr. Raba para além da performance. E aí nasceu Reynaldo: um homem aparentemente confiante, mas cheio de fissuras na personalidade — como eu. Um adorável detestável que mora dentro de mim.

VICENTE VAN GOTH: ARTE, ANCESTRALIDADE E RESISTÊNCIA NA CENA DRAG BRASILEIRA
Me aproximei da arte drag através de amigues que se montavam como queen, colaborando no figurino e maquiagem delus. Isso era 2015 ou 2016 e eu não conhecia nenhum drag king na época, ainda que já tivesse muita vontade de estar no palco performando masculinidade. Na época eu era muito fã de um rapper e idol de k-pop chamado G-Dragon e me inspirava nele para absolutamente tudo, inclusive vestir minhas primeiras roupas “masculinas” e cortar meu cabelo curto pela primeira vez, o que seria a semente para a compreensão da minha identidade não-binária e drag king. Também em 2015, em uma viagem ao Japão, assisti a um espetáculo do Takarazuka Revue, companhia teatral tradicional composta exclusivamente por mulheres. Ver as atrizes que interpretavam papéis masculinos foi uma experiência que me mudou e me disse que era possível realizar o que eu há tanto tempo desejava. No final de 2016 me apresentei como Vicente Van Goth pela primeira vez.

ARTE DRAG: CONEXÕES CONSIGO E COM SIGNOS DE GÊNERO
Ao criar minha persona, Anubis, canalizei energia e atenção para mim mesma, e isso me auxiliou a me inserir no mundo. Com ela, desmontei conceitos pré-estabelecidos sobre quem eu deveria ser, criando espaço para me olhar sob outras perspectivas. O medo do julgamento — de ser lida como um determinado “tipo” de mulher — dissipou-se. A aflição diante da interação com signos masculinos e femininos também. Essa desconstrução impactou minha vivência sexual. Não que tenha havido uma explosão de experiências, mas passei a reconhecer-me como um ser sexual, desejável e dotado de agência — fosse usando camiseta e calça larga como ser humano ou vestido e salto alto como entidade artística. A autoestima, descobri, é uma dádiva que a arte drag me ajudou a cultivar.

UM PROBLEMA GENITAL: O PRECONCEITO COM A VAGINA NAS ARTES
Pietro Lamarca (Gabi Coiradas)
O mercado é fechado na cara de pessoas AFAB (termo em inglês que engloba quem é designado mulher no nascimento) apenas porque ter uma vulva incomoda e sentimos isso em críticas muito mais duras, camarins junto a homens cis, que muitas vezes se sentem confortáveis em falar da nossa buceta como se ela tivesse uma profunda conexão com a arte que fazemos, principalmente drag. Não sei vocês, mas eu não faço “pussysync”, os lábios em “lipsync” são os de cima.

MAQUIAGEM COM PROPÓSITO: COMO MONTAR UM PERSONAGEM
Em 2024 fui jurada no concurso “Copa das Drags” da Workroom, do qual já fui finalista e me convidaram para o desafio temático de Halloween. Durante minha fala como jurada, comentei sobre o impacto de elaborar uma maquiagem onde cada pincelada e produto aplicado tem um propósito. Por exemplo, se eu quero me transformar em um vampiro, eu preciso de elementos visuais que indiquem que eu sou um vampiro, como dentes. Se eu quero me transformar em um palhaço, é necessário reproduzir uma maquiagem com elementos que indiquem que sou um palhaço e investigar que elementos são esses. Assim como uma maquiagem social tem o propósito de valorizar e destacar certos traços, a maquiagem artística também possui uma intenção em todos os traços e cores que são inseridos.

UMA DRAG DE CINEMA
Meu caminho Drag se abre muito com o Teatro, assim como o possível início da história Drag em Roma e Grécia, onde homens interpretavam papéis femininos. Eu tinha uns 18 anos. Meu sonho era ser ator. Um diretor de teatro me disse que eu era muito viado para fazer galãs, e que se eu não era capaz de interpretar galãs másculos, então, era melhor eu seguir outra carreira. Esse trauma e esse soco no estômago me rondaram até eu descobrir no que eu transformava ele. Logo depois, quase no mesmo ano, comecei a experimentar a existência do meu alter ego Ayla, batizada pela primeira amiga que me maquiou. Entrei no google e descobri que o nome significa brilho da lua em Tailandês, gostei, e o nome ficou. Também tive uma pessoa muito importante nesse processo de despertar e de dar os primeiros passos com minha Drag que foi Dalvinha Brandão.

ARTE DRAG: FLORESCER NAS FISSURAS
O processo de criação da minha persona reuniu todos os estudos, referências e interesses artísticos que já tive. Em uma grande mescla de inspirações que vão de filmes de terror trash e gore a figuras elegantes e sedutoras, Ptera Dactyla surge como uma divindade saída do lixo tóxico. Beleza, glamour e um toque de insalubridade. Pelo menos é assim que a vejo. Uma figura que representa as mais profundas loucuras da mente dessa travesti. Com ela, me dou o direito de percorrer caminhos artísticos que me permitem ser tantas coisas, o que vejo como a parte mais bonita de fazer drag. Se eu quiser ser uma dinossaura patricinha, eu posso. Se eu quiser ser uma vampira elegante e assassina de homens eu posso. Se eu quiser ser uma criatura rastejante e horrorosa, eu posso.

OH MEU DEUS, CRIEI UM MONSTRO: EVAH DESTRUCTION COMO UMA DAS MINHAS INSPIRAÇÕES CRIATIVAS
Mia The Witch (Patrick Nascimento)
Frequentemente, conversando com amigas que também são artistas drag, consigo observar seus processos criativos e, muitas vezes, me identifico com o modo que criam. Algo que sempre me ajuda é observar as outras artistas de quem sou fã. Não é uma questão de meramente copiar ou reproduzir o que elas fazem, mas ter uma observação atenta aos nuances que me fazem amá-las e tentar traduzi-los aos códigos que configuram e montam a minha própria drag. Dentre essas artistas, algumas que são drags e outras não, está a monstra Evah Destruction. Trata-se da minha drag queen favorita de todos os tempos. Neste ensaio, buscarei trazer reflexões, enquanto artista da mesma plataforma e fã, sobre o que me causa tamanho encantamento no trabalho desempenhado por ela.

TRANSFORMISTAS NO SHOW DE CALOUROS: INTERPELAÇÕES DE GÊNERO E DESOBEDIÊNCIA
Profª Maldita (Douglas Ostruca)
Quando comecei a pesquisar a cena transformista, em 2017, encontrei no YouTube um fragmento do Show de Calouros, no qual as transformistas Pâmela Costa e Cristiane são entrevistadas pelo apresentador Silvio Santos após realizarem suas dublagens. Esse vídeo me retorna desde então, junto de um incômodo, um estranhamento que se faz no corpo. Neste ensaio, tatearei essa percepção de estranhamento, tentando localizar o ruído estridente que ouço em meio as perguntas feitas pelo apresentador às artistas.

O CONCEITO DRAG
O que poderia definir Drag? O termo é polissêmico e ao trocar com artistas brasileires afirmo que temos vocábulos comuns pelo menos nisso, que Drag pode significar: I – a pessoa montada; II – a pessoa que pratica a montação mesmo quando desmontada; III – a prática de montação de uma pessoa; ou IV – o nome da arte da montação. Para evitar ambiguidades, quando o tema for a arte da montação o termo escolhido será Arte Drag. Drag também é frequentemente utilizado em um quinto sentido, como um adjetivo, significando que algo está populado de, tem protagonismo de ou remete a artistas Drag.

ABAIXO A BELEZA: UMA NOVA REALIDADE DEPENDE DA ESTRANHEZA
Quando comecei a fazer as minhas experimentações em relação à Urbana, acreditava que ela tinha que ser bela, elegante, bonita. E o resultado foi extremamente frustrante. Parar de perseguir a beleza e abraçar a estranheza foi libertador. E foi a estranheza, o absurdo, o bizarro que me possibilitou denunciar a realidade e suas tantas idealizações. Não encaixava na minha vivência ser uma drag queen bonita e glamourosa para falar das desigualdades que corroem a nossa sociedade.

ARTE DRAG E GÊNERO: UMA JORNADA DE DESCOBERTA
Ao longo dos anos enquanto artista drag, tive uma jornada muito pessoal dentro dos meus processos artísticos, os quais são diretamente relacionados com a experimentação do gênero através da arte. Durante a formação de Samantha Rose e Ash Rose, eu tive a experiência de entender que me identifico como um homem trans. A arte drag me veio como algo que jogou fora os paradigmas que não cabiam mais, assim como as crenças e os preconceitos enraizados. Isso me tirou completamente da minha zona de conforto, permitindo que eu explorasse todas as coisas que nem sempre me foram encorajadas.

ARTE DRAG COMO FONTE DE INSPIRAÇÃO
Para mim, ser drag queen vai além do close e da make. Drag é representatividade e muita luta. Todos os dias muitas pessoas da comunidade sofrem preconceito ou até mesmo perdem a vida. Para mim, ter um tempo no palco é uma forma de usar esse espaço para passar algo para as gerações que estão por vir. Procuro levar uma mensagem de superação para as pessoas e dar pelo menos um pingo de esperança por um lugar com mais acolhimento LGBT+. Nem que seja por 5 minutos em um palco. Isso é algo que tenho comigo por ter me aceitado seguindo as canções da Lady Gaga. A maneira que ela acolhe os fãs faz eu querer acolher a todos. Por esse motivo, também sou a atual Madrinha Da Diversidade De Alvorada 2024.

GIBOULÉ DE MARX: A DRAG MUSEUM
For me, drag is more than just a visual statement; it’s a way of conveying a political message. The name – De Marx – doesn’t come from nowhere, and refers to a communist, anti-capitalist and decreasing utopia inherited from Karl Marx. Politics is a subject I tackle in performance, but also through a fanzine I publish around my character. In this logic of independence and cultural reappropriation, the fanzine carries with it a critical and cheeky look at social dynamics.

ARTE DRAG E POLÍTICA: ENTREVISTA DE RITA VON HUNTY PARA A GRAFIA DRAG
Por: Profª Maldita
“Muitas pessoas LGBT, no final do dia, estão preocupadas com a sua existência material. Comer, pagar aluguel. E se alguém vai pagar pelo apoio político delas, bom, tudo na vida tem um preço. E aí, o que importa dizer? É muito diferente ter o Bolsonaro eleito e ter qualquer outro setor eleito. Agora, entre neoliberalismo de direita e neoliberalismo de esquerda, eu não sei, sinceramente, se tem muita diferença para essa drag que decide apoiar. Acho que a vida dela vai estar fodida igual, “neoliberalismo por neoliberalismo… onde tem cachê para mim?”. Esse é o pensamento que organiza a ação política deste sujeito. Porque esse sujeito não está pensando coletivamente. E quem pensa individualmente nunca vai entender um sujeito coletivo. É uma ação individual de um sujeito político focado no indivíduo. O sujeito político dessa pessoa é ela.”

A PRIMEIRA DRAG: ABERTURA DE CAMINHOS NA ARTE E NA ACADEMIA
Quando recebi a notícia de que seria o farmacêutico homenageado, a primeira drag, da 95ª turma de Farmácia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto – USP, confesso que fiquei surpreso. É um reconhecimento que carrega consigo a coragem de ser visível em ambientes que historicamente não nos abraçaram. Conquistas como essa abrem caminho para que outras pessoas LGBTQIAPN+ também se sintam autorizadas a ocupar os mais diversos espaços.

ENTREVISTA COM ADRIANA PRATES: A CENA KING DE SALVADOR
Por: Lorde Lazzarus
“Entre outras coisas, tive a ideia do Cabaret Drag King (CDK) porque, basicamente, sentia falta de ver artistas performando masculinidades a partir da linguagem drag e achei que seria legal fazer uma proposta neste sentido. Daí fiz uma chamada e algumas pessoas apareceram se propondo a fazer. Como queria que fosse um show de variedades, convidei também artistas de outras linguagens para criar sobre o tema das masculinidades e montei o espetáculo pela primeira vez em maio de 2013, com a ajuda de Eberth Vinicius e Junior Oliveira, meus parceiros no Coletivo Cena Queer. Tinha de tudo no CDK, embora os Drag Kings fossem o carro-chefe do espetáculo. A Cena King é um projeto diferente do CDK. Surgiu este ano (2024) e foi concebido como um Drag King Show. É uma proposta do coletivo House of Kings, que tem à frente Karol Senna (Kinn Spada), Ramona Gayão (Tonhão) e eu”.

RUPAUL’S DRAG RACE É O BASTANTE PARA UMA DRAG SONHAR?
Antes, assistia ao reality para sonhar, mas hoje vejo que as motivações não são mais as mesmas. Antes, eu queria ser uma popstar e ter 1 ano de produtos Anastasia Beverlly Hills, hoje, quero bares e espaços públicos no interior de São Paulo que aceitem eventos e pessoas LGBTQIAPN+. O meu sonho atual é ter muito sucesso para conseguir promover eventos drag, poder contratar artistas locais que, não só sou fã, como também sou próxima ao ponto de conhecer a família dessas pessoas. Outro sonho é fazer entenderem, nem que seja uma pequena região, que sou artista e tenho o direito de ocupar qualquer outro evento artístico não categorizado como drag. Aos poucos, percebi que vencer uma competição e ganhar uma coroa não é tão satisfatório assim, não para mim. Para ser sincera, nem mais o estrelato pelo estrelato me apetece, pois hoje sei que se eu tiver palco e as minhas continuarem não tendo, não consigo clamar vitória de fato.

DRAG PUNK: ROCK, FETICHE E A QUEBRA DOS PADRÕES
Desde que conheci a arte drag, sempre gostei de drags que fogem do padrão, com maquiagens mais extravagantes, drags carecas, de barba, que quebram com a estética “feminina”. Quando comecei a assumir a identidade de drag careca, usei de referência artistas como Ikaro Kadoshi e Sasha Velour (que ainda são minhas inspirações). Comecei a performar um estilo que pouco via em palcos, o rock. A partir disso, iniciei a construção da drag alternativa e punk, que tenho hoje.

PACTO DE SILÊNCIO: A VIOLÊNCIA VELADA NO MEIO DRAG
Pietro Lamarca
Tornou-se uma coisa quase rotineira ouvirmos relatos de violência e abuso dos mais diversos, em todos os veículos de comunicação. Também não é uma novidade que muitas dessas ocorrências são praticadas por homens cis contra pessoas pertencentes a alguma minoria. Desde que passei a ter a vivência no meio LGBTQIAPN+, essencialmente no cenário artístico drag, percebo um fenômeno digno de análise: o silêncio acerca de violências sofridas e, principalmente, praticadas por seus próprios membros.

NOITESUJA SANTA CEIA: BENDITAS SEJAM AS THEMÔNIAS!
Matheus Aguiar
Em 2018, o Coletivo NoiteSuja realizou a “NoiteSuja Santa Ceia”, em uma véspera de Natal, na Boate Malícia (antiga boate gay, localizada no Reduto da prostituição em Belém). […] Histórico entrosamento NoiteSuja–Themônias que resultou no trabalho artístico “Santa Ceia”. Trata-se de uma série fotográfica e uma videoarte feitas por muitas mãos, carregada em detalhes, cores, tecidos e pessoas. Além de uma fotografia “mãe”, repleta de manipulações digitais – inspirada na pintura de Leonardo da Vinci “A ultima ceia” (1495-1497) – o ensaio fotográfico também gerou um vídeo onde as Themônias repartem e comungam o pão (no caso, uma coxinha). No vídeo, são apresentadas as informações textuais que o público, na época, precisaria seguir para chegar até a festa, o sagrado ritual do encontro.

GRAFIA DRAG, 3º ANO: A HERANÇA DAS MONTAÇÕES
Profª Luná Maldita (Douglas Ostruca)
São três anos desde a inauguração do Grafia Drag como projeto de extensão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. De lá para cá, tornamo-nos um coletivo composto por pessoas de diferentes regiões do Brasil, um grupo atuante na produção escritural de ensaios e entrevistas em conexão com as cenas drag e transformistas. Além de publicar 68 textos, já realizamos três rodas de conversa sobre a arte da montação, incentivando a troca de saberes entre artistas de diferentes gerações. Ao longo dos últimos 12 meses, foram 20 textos, dos quais 15 são ensaios e 5, entrevistas. Também realizamos, em parceria com o espaço Zona Cultural, a primeira exibição pública do registro do espetáculo “Mulheres do Pau Brasil” (1991), dirigido por Zé Adão Barbosa e Mário Maya, seguida por uma roda de conversa com Gloria Crystal, Everton Barreto e Lauro Ramalho.

Entrevista Brigitte Liberté
Por Lady Lazzarus
Brigitte Liberté compõe a cena drag de Belém do Pará, onde integra o coletivo NoiteSuja e coloca em prática o projeto Manas (En)Cena. Sua montação nasce da experiência coletiva: “No dia 9 de julho de 2019, fiz a primeira edição do meu projeto artístico feminista Manas (En)Cena, que nasceu com o objetivo dar visibilidade e protagonismo para mulheres artistas da Amazônia. A primeira edição, tratou-se de um espetáculo em um teatro da Universidade Federal do Pará, que levou à cena apresentações de artistas mulheres de diversas áreas (teatro, dança, música, circo, drag), e neste dia, também tive meu debut, me montei e performei pela primeira vez, como drag Brigitte Liberté.”.
ANDANÇAS POR PEDAGOGIAS DRAG
persephone ephemera pepper (a.k.a. jeanne martins speckart)
Na Dirce (apelido que dou para minha dissertação) registro peças de um quebra-cabeça e vestígios do que são (ou pelo menos eram) e do que podem vir a ser as pedagogias na Arte Drag e descrevo o processo de criação e recriação das oficinas de iniciação/experimentação que eu realizei em 2019, 2022 e 2023, no intuito de formar artistas de forma ética e crítica. As oficinas são um estudo de caso que tomam protagonismo do texto, a partir da minha experiência como professora de Arte Drag. Descrevo os contextos, situações e alguns procedimentos reproduzidos ou criados por mim nas quatro oficinas relatadas

O DRT DRAG
Juana Profunda, em colaboração com SATED/PR
O Registro Profissional para Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões é regularizado pela Lei 6.533/78, popularmente conhecido pelo seu apelido “DRT”. Cada registro profissional é válido em todo o território nacional, definitivo e vitalício, não precisa ser renovado.O Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do estado do Paraná (SATED PR) foi o primeiro sindicato do Brasil a, em julho de 2024, incluir as artistas drag na lista de profissionais habilitados para solicitar o seu registro profissional.

CASSANDRA, DO CALABOUÇO AO SÃO PEDRO
Além de confissões em cima do palco, Cassandra aproveita o show para homenagear as mulheres de sua vida: sua mãe, irmãs, amigas e suas divas, como a Gretchen, a cantora. Nesta peça, Cassandra remonta momentos únicos de sua trajetória, como o alerta para a plateia que, quando criança, nunca lhe disseram “não brinca com salto, não brinca com maquiagem”, e passando pelo batizado de seu nome, antes mesmo de idealizar se montar. Perto do fim, a drag queen com um quarto de século de idade não perdeu a oportunidade de fazer o que melhor sabe, interagir com o público e até mesmo ensiná-lo uma coreografia, ensaiada para os últimos atos do show.

CAPÍTULO 1. A FORÇA DO LEQUE DE CRYSTAL
Este é o primeiro capítulo da tese “Micropolítica das montações: um estudo das comunicações transversais em fabulações transformistas” (2024), desenvolvida como uma narrativa fabulatória no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A pesquisa acontece em meio aos trânsitos pelos territórios transformistas de Porto Alegre.
SINOPSE: Forçada a se mudar para a capital, professora Luná se enreda em meio à solidão e aos fantasmas que a habitam. Como saída, ela investe suas forças na pesquisa da cena transformista de Porto Alegre, sendo provocada a se transformar ao longo do processo a partir dos encontros com as artistas.

DRAG E AS IDENTIDADES POLÍTICAS
Há uma discussão que considero indispensável toda vez que começo a lecionar Drag a uma nova turma, que é sobre o uso das palavras “feminino” e “masculino”. Houve uma época da minha vida que eu tinha horror a essas duas palavras e via que poucas coisas no mundo contribuíam mais à estrutura de dominação de gênero quanto a insistência em utilizá-las. Pensava que em qualquer contexto essas palavras gerariam frases que reforçariam o status quo que desejava mudar. Porém essa posição mudou quanto mais eu me aprofundei no estudo do gênero e da Arte Drag e hoje vejo da seguinte forma: se mantivermos em mente que o que define o significado desses significantes não são características inatas, mas sim o resultado de uma padronização cultural que persistiu até hoje, talvez possamos utilizar estes significantes para destruir essa relação de significação.

UMA CONVERSA COM EVERTON BARRETO
Entrevista
Eu sempre tive vontade, desde criança, de fazer teatro, meu sonho era ser artista de teatro. […] Meus pais nunca me levaram para assistir uma peça infantil e eu sempre tive vontade. A partir do momento que eu me tornei um pouco mais independente, lá pelos 14 anos, eu ganhava uma mesada, pequena, mas ganhava. E toda vez que eu recebia essa mesada, eu ia ao Teatro de Câmara, ali na República, assistia espetáculos infantis que eu podia ir sozinho de tarde e aquilo se descortinou um mundo novo para mim, né, o palco, a luz… Foi lá que eu vi pela primeira vez um ator vestido de mulher, que era o falecido Fábio Neto. Ele fazia a madrasta da Cinderela. E aquilo me fascinou, aquela figura, aquele homem vestido de mulher, aquele homem fazendo uma mulher que parecia uma mulher realmente.

SERES GROTESCOS: CORPO, DRAG E ARTE
Tiffany Plazza
Há anos atrás, em uma época em que eu era uma artista visual perdida no mundo, que não sabia qual caminho seguir com a minha arte, me deparei com um texto na internet chamado Why contemporary women artists are obsessed with the grotesque? (Por que mulheres artistas contemporâneas são obcecadas com o grotesco), de Tess Thackara. De cara, esse texto já chamou minha atenção e me fez entender porque sempre flertei com a arte grotesca, principalmente considerando toda minha vivência, minhas inseguranças e ideias. Depois que comecei a me montar e que conheci a arte drag alternativa e as drag monstras, me vi cada vez mais dedicada a me tornar uma artista grotesca. Hoje em dia, me vejo como uma drag monstra sempre disposta a atingir formas cada vez mais grandiosas de me tornar um ser grotesco e decidi revisitar esse texto que teve tanto significado na minha trajetória artística.

“QUEM TEM MEDO DE DRAG KING?”: UMA CONVERSA (DIFICIL) SOBRE REPRESENTATIVIDADE E OPORTUNIDADE
Lorde Lazzarus
Por trazer em sua estética e em seus números artísticos uma sátira da masculinidade hegemônica, machista, refém do patriarcado e geralmente tóxica, a arte drag king incomoda muito os homens cis de dentro da sigla LGBT. Também se concebeu a ideia – errada – de que drag kings são artistas demasiado “politizados” (como se isso fosse algo pejorativo) e que seus shows se resumem a ridicularizar os homens e o status quo. Também há um forte consenso que kings não usam figurinos ou caracterizações tão elaboradas como as drag queens. Mas, se uma pesquisa simples for feita nos buscadores da Internet, o que se vê é exatamente o contrário. Drag kings são artistas que apresentam o mesmo refinamento que as drag queens, e exploram seus talentos das mais variadas maneiras: dublando, dançando, cantando, atuando na comicidade, dominando habilidades circenses e mais uma miríade de coisas diferentes. Os kings também celebram masculinidades não tóxicas, feminilidades, homenagens a grandes ídolos e uma variedade de performances que merece espaço e palco em todo e qualquer lugar.

REVISTA CANVAS ENTREVISTA GRAFIA DRAG
O projeto Grafia Drag surgiu como uma atividade de extensão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. […] Este projeto é significativo porque nos permite produzir conhecimento a partir de nossas próprias experiências. Dessa forma, não somos mais objetos de estudo, nos tornamos agentes que produzem e compartilham saberes sobre a cena da arte drag que estamos construindo. Além disso, este projeto coletivo ajuda os artistas a criar relações, gerando uma rede que nos fortalece, já que nos apoiamos mutuamente. Por fim, Grafia Drag mostra como a arte drag é múltipla e possui diferentes expressões, o que é uma forma de descentralizar as referências sobre a arte drag.

EU, CHROMATICA: A MONTAÇÃO DO ESPETÁCULO
Dara Deon
Musicalmente, a peça acabou sendo dominada pelos anos 70 e 80 e pelo Glam Rock, estilo que me encantei. Artistas como Elthon John e David Bowie foram trilha sonora de algumas performances e momentos importantes da minha vida. Algumas semanas antes das apresentações da peça, cheguei a cortar e pintar meu cabelo inspirado no Bowie, para viver completamente aquela fantasia vintage também com meu visual, visto que Chromatica ainda não usa peruca, mas talvez ela passe a usar em algum momento. Avançando alguns anos, os musicais mais atuais também foram muito importantes para mim, como Moulin Rouge, Chicago, Burlesque, O rei do Show, e é claro, High School Musical, que marcou minha infância e teve seu momento na peça com direito a coreografia antes dos trechos clássicos.

O SER DRAG: MENOS COMPETITIVIDADE E MAIS COOPERATIVIDADE
Giselle
Já em Porto Alegre, tive uma boa recepção de algumas partes, lugares que me cederam o espaço para expressar minha arte e poder mostrar meu trabalho, mas por outro lado existem lugares quase inalcançáveis por vários motivos, um deles, e o mais importante: falta de retorno por parte das casas, bares, espaços culturais e etc. Drag queens de outros locais geralmente não tem a mesma recepção e oportunidades que outras que já estão há algum tempo na cena da cidade. Isso impossibilita o crescimento e reconhecimento das novas drags, as quais muitas vezes se mudam, procuram uma profissão paralela ou pior, desistem do seu sonho de ser artista.

Entrevista Ikaro Kadoshi
Por: Pietro Lamarca
Em um mercado moldado pelos reality shows, ser artista drag pode ser um grande desafio. Os padrões estabelecidos, os recortes de gênero exigidos e os estilos de performance cada vez mais reproduzidos acabam por ser fonte de frustração para artistas que não se encaixam nas caixas abertas por um público cada vez mais homogêneo em relação à arte transformista. Pensando nisso, o Grafia Drag traz uma entrevista com uma das maiores e mais bem-sucedidas artistas drags do cenário nacional – apresentadora, comunicadora, fomentadora cultural e performer – Ikaro Kadoshi, para mostrar que o caminho do sucesso não só pode, como deve, ser baseado na sua identidade.

Terapia Revolucionária ou Fantasia Perigosa? Explorando os limites da arte Drag
Kam Middle Space
A arte, incluindo a arte Drag, auxilia o sujeito a se autoconhecer e a se comunicar de uma maneira não verbal, que muitas vezes é mais efetivo do que a comunicação verbal sozinha (CIASCA, 2017). Em certos momentos, expressar sentimentos através de palavras pode ser limitado, e é aí que a criação artística, como a arte Drag, desempenha um papel importante. Ela oferece um meio de expressão que transcende as limitações da linguagem verbal, permitindo que os artistas Drag e seus espectadores explorem e comuniquem seus mundos internos de uma maneira mais completa e autêntica.

VIDA LONGA ÀS RAINHAS: PROCESSOS CRIATIVOS E INÍCIO DA CARREIRA DRAG
Mia The Witch
Quando eu comecei a minha montaria, eu tinha como referência a drag queen Adore Delano. […] Não apenas ela, mas a drag brasileira Pandora Yume também era uma referência dos tutoriais que eu utilizava. Aos poucos, realmente fui me percebendo como uma queen alternativa e punk, como elas. Foi só então que eu comecei a pensar em um nome drag. Eu precisava de algo que ressaltasse essa energia gótica e violenta que minha drag evocava em mim. Um dos meus filmes favoritos é o “Pulp Fiction” do Tarantino. Sempre que assisto ele, as cenas de Mia Wallace me deixam intrigada. […] De certa forma, sempre busquei ser alguém como ela – por mais caótica que essa afirmação possa parecer. É assim que Mia tornou-se meu nome.

DRAG É ARTE SIM! DIANTE DA CENSURA, A AUTOAFIRMAÇÃO
Anubis Blackwood
Essas questões surgiram depois que Val Freitas, um vereador da cidade de Jundiaí moveu a moção de repúdio Nº 570/2023 na Câmara de Vereadores de Jundiaí contra projetos de arte drag dos quais fiz parte e que aconteceram no Sesc da cidade. Foi a oitava iniciativa contra a população LGBTQIAP+ no ano. Essa moção se deu início no fim de setembro e, após muitas prorrogações, foi enfim votada e aprovada no fim de novembro como mencionei anteriormente. O ato covarde adentrou em minha vida quando vi tudo isso por meio do portal de notícias Jundiaí. Em momento algum esse homem e seu time sequer presenciaram esses eventos ao vivo ou nos contataram, moveram essa moção sem nenhuma ideia concreta do que ali aconteceu. Pelo visto fui enquadrada, como se estivesse participando de projetos escandalosos, de mau gosto!

O CALABOUÇO DE CASSANDRA: PERCURSOS E PROCESSOS DO OFÍCIO DRAG QUEEN
Entrevista
Em 1998 nasce a drag queen Cassandra Calabouço, um acontecimento na vida de Nilton Júnior, artista que dá corpo à essa expressão artística. Em busca de conhecer a trajetória do artista, realizamos uma entrevista no dia 5 de maio de 2023, na Casa de Cultura Mário Quintana. Nesse encontro, conversamos sobre o percurso artístico da drag queen, considerando seus processos de criação, as transformações produzidas em sua vida pessoal, além das delícias e dos desafios dessa profissão.

DISSERAM QUE VOLTEI AMERICANIZADA: SERÁ QUE O TRANSFORMISMO BRASILEIRO RESISTIRÁ À FRANQUIA RUPAUL’S DRAG RACE?
Lady Lazzarus
Em 30 de agosto de 2023, o país assistiu à grande estreia do Drag Race Brasil, a versão brasileira do reality show RuPaul’s Drag Race, que tem apresentado, divulgado e enaltecido a arte da montação em todo o mundo. Foram anos de espera por uma “franquia para chamar de nossa”, uma vez que o Brasil tem um histórico fortíssimo de grandes artistas transformistas, drag queens e também drag kings. Esses grupos específicos de artistas esperavam ansiosamente que isso ajudasse a popularizar ainda mais esse segmento de arte no país, e com isso, levá-la ainda mais longe, e consequentemente gerar mais empregabilidade e chamar atenção às pautas da comunidade LGBTQIA+. Mas, a provocação que fazemos diante deste fato é: será que a franquia brasileira do Drag Race vai realmente valorizar a nossa forma de fazer transformismo/arte drag ou vai fazer com que nossas/os/es artistas se rendam à cultura estadunidense de uma vez?

AS FASES E FACETAS DE CHRISTY MOON
Christy Moon
No início da montação costumava usar peruca emprestada, sempre feminina, mas não me identificava tanto. Como eu tinha certo fascínio pela estética andrógina resolvi arriscar e acabou dando certo. Com isso, senti a necessidade de trocar meu nome drag de Blanca para Christy, por ser parecido com meu nome, assim minha drag passa a ser uma extensão de mim. Isso tudo ocorreu no início da Pandemia. O sobrenome Moon é porque sou apaixonado pela lua, e desde criança, eu ficava sentada no meu quintal de casa observando-a, durante horas. Como ela tem várias fases, trago isso para a estética da minha drag que também tem fases (feminina, andrógina, street…).

CONSUMISMO NA ARTE DRAG
Miss Dangerr
Outra estratégia que uso para aproveitar mais as roupas é fazer peças que sirvam tanto para mim, em meu dia-a-dia, quanto para minha persona drag queen, sejam elas unissex ou femininas, já que sou um homem cisgênero que usa vestido, saia e espartilho. Fazer uma roupa cotidiana parecer um figurino de drag queen não é tão difícil, você pode encher sua calça de correntes e alfinetes de segurança tamanho 6 ou colocar quase toda sua energia em fazer um casaco bem chamativo que vá até o chão; dessa forma, ninguém perceberá que você está usando a calça skinny preta que usa para ir trabalhar. Além disso, uma customização e um bom do it yourself podem te ajudar bastante nessas situações.

Grafia Drag, 2º ano: memórias afetivas, gongação crítica e as potências da arte drag
Profª Luná Maldita
Em outubro, celebramos o segundo aniversário do Grafia Drag. Durante esse período, publicamos 46 textos que falam dos saberes, das estratégias e das vivências de artistas drag e transformistas. No último ano, lançamos 21 ensaios, uma entrevista, dois episódios de podcast e realizamos duas rodas de conversa públicas na Casa de Cultura Mário Quintana. A mais recente novidade no Grafia Drag é a nossa organização enquanto coletivo, que surge do desejo de fortalecer nossas redes e criar alianças para projetos conjuntos.

NÃO ME CONVIDARAM PARA A TAL FESTA DRAG: notas de uma drag monster que não foi bem-vinda por ser estranha
Mia The Witch
O drag, por muito tempo, ocupou esse lugar em que eu poderia me expressar sem medo de retaliações. Percebi ao longo da prática que o jogo não é bem assim e que, por mais que o ato drag em si seja extremamente político, ele não me protegia do julgamento alheio. Quando falo deste julgamento, não falo apenas do que recebi por pessoas fora da comunidade queer, mas, também, de ataques e microviolências que sofri (e ainda sofro) de outras drag queens. Tenho a percepção de que, com o tempo, fui padronizando a minha drag para agradar os outros: contratantes, festas, locais, público, colegas. Fui fazendo para a Mia o mesmo que sempre fizeram para Patrick: encaixá-la em caixas que me ofereciam como opção e ir me machucando no meio do caminho por não caber totalmente em lugar algum.

PERFORMANCE DRAG E IDENTIDADE
Paco Leal
O que ocorre na arte transformista é um paradoxo semelhante ao que encontramos ao interpretar uma personagem: não existe uma fronteira transparente entre o eu e o outro. Este “euoutro” vai existir ao mesmo tempo, e o que vem de um ou de outro para constituí-lo é complexo de dizer. No caso da drag, quanto existe do performer na sua criação e quanto da drag existe na/no performer? No meu ponto de vista, essa relação é dialética: um depende do outro para existir. Eles são a mesma coisa e a existência de um anula a do outro em certos aspectos: existe uma força tensionadora entre essas existências.

JALECO E BATOM: UMA JORNADA DE DRAG, CIÊNCIA, SAÚDE E AUTODESCOBERTA
Kam Middle Space
Devido suas multifaces de expressão, a drag possui um potencial de inserção em diversos ambientes. Nos palcos, encantamos audiências com performances que vão da dublagem, a dança até a atuação. Nas redes sociais, encontramos plataformas online para compartilhar tutoriais de maquiagem, moda e discursos de capacitação, alcançando uma audiência global. Para além disso, a arte drag tem se mostrado valiosa em ambientes acadêmicos, permitindo que drag queens como Rita von Hunty e eu, Kam Middle, levem assuntos mais sérios, a exemplo da representatividade LGBTQIAPN+, para as universidades e outros espaços de aprendizado. Essa capacidade de se adaptar e florescer em diferentes cenários é o que torna a arte drag transformadora, questionando a figura provedora da prática docente e possibilitando uma conexão genuína com públicos variados.

FEMINILIDADE DISRUPTIVA NA ARTE DRAG: NOTAS DE UMA MULHER-MONSTRA
Tiffany Plazza
Foi quando conheci o programa The Boulet Brothers’ Dragula e comecei a inserir elementos de terror no meu drag que senti que encontrei a feminilidade que realmente me representa. Comecei a expressar minha feminilidade incorporando também aspectos que antes eu sentia que me distanciavam dela, como o meu lado mais masculino, e também minhas esquisitices e minha vontade de me montar como um monstro. Eu sinto uma potência muito grande quando nós, pessoas LGBTQIA+ incorporamos essa persona assustadora em frente a uma sociedade que nos coloca num lugar de tanto medo, ao mesmo tempo que nos enxerga como uma aberração. Enxergo como uma apropriação de algo que sempre usaram para me diminuir. Sim, eu sou assustadora, sou esquisita e é por isso que sou incrível!

Arquivo pessoal da autora.
DRAG PARA TODES? O MACHISMO QUE AINDA INVISIBILIZA DRAG KINGS
Gabi Coiradas
O mercado consumidor de drag ainda é predominantemente formado por homens cisgênero que, mesmo sendo parte da comunidade, reproduzem os mesmos mecanismos que mantêm a sociedade patriarcal em pé, e um deles é não permitir que mulheres cis e pessoas que foram designadas mulheres cis um dia façam parte do clube, pois drag sempre foi “coisa de gay”. O mesmo machismo que, ironicamente, relega ao ostracismo homens cis gays fora do padrão de beleza ou que já atingiram os 30, 35 anos. É algo estrutural, de uma cultura que já não serve mais para nós hoje e precisa ser repensada.

GILDA: ENTRE MEMÓRIAS CURITIBANAS E ARQUIVOS DE INTERNET
Gilmar Montargil
“Meu nome é Gilda, eu sou travesti” – apresentava-se diante dos pedestres ou nas festas curitibanas no intuito de angariar algumas moedas para sobreviver, além, é claro, de roubar beijos dos rapazes com o seu bordão “uma moeda ou um beijo?”. Algumas figuras são tão potentes que não marcam somente a memória das pessoas, mas também a memória de uma cidade e de uma geração. Gilda, portanto, faz parte de uma mitologia de Curitiba, como se fosse uma divindade ou personagem histórica que mora em um imaginário coletivo uma vez que registros, documentos e fotografias da sua pessoa são extremamente difíceis de serem encontrados.

GLORIA CRYSTAL: UMA CONVERSA SOBRE O TRANSFORMISMO E O MOVIMENTO LGBTQIAPN+
Entrevista por: Douglas Ostruca
Além de atuar como transformista há mais de 36 anos, Gloria Crystal é funcionária pública e participa ativamente na política. Em 2023 assumiu o cargo de chefe da SJCDH (Divisão de Diversidade e de Combate à Intolerância da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos). Em 2022, recebeu do Governo do Rio Grande do Sul, a Medalha Simões Lopes Neto, como forma de reconhecimento pelas suas contribuições para a cultura e para a sociedade de modo mais amplo. Trazemos a seguir alguns trechos de uma conversa com a artista que aconteceu no dia 24 de julho de 2021, através da plataforma Jitsi. Entre os assuntos em destaque estão questões relativas ao movimento LGBTQIAPN+ e a cena transformista, tendo em vista aspetos da trajetória pessoal de Crystal nesses âmbitos.
AS DRAGS NO ORGULHO E NA LUTA LGBTQUIAPN+
Podcast Grafia Drag
No segundo episódio do podcast Grafia Drag, Mia The Witch, Ptera Dactyla e Professora Luná Maldita falam sobre o mês do Orgulho LGBTQIAPN+, com destaque para o papel das drags nessas lutas. Em relação a isso, Luná lembra que as drags estiveram na linha de frente na revolta de Stonewall. Já Ptera Dactyla considera o potencial da artte drag para as pessoas se conhecerem e se expressarem. Para Mia, através do encantamento a drag se torna uma comunicadora em prol da comunidade.

Fonte: CC Pexels
DRAG: EXPRESSÃO ARTÍSTICA TRANSFORMADORA
Ruby Catuaba
De maneira sincera, digo que através da arte drag queen e da arte drag king encontrei um espaço transformativo. Passei a construir e a inventar meu próprio caminho, que em diversos aspectos se choca contra os padrões cisheteronormativos de comportamento e expressão que me foram impostos. Atualmente me afirmo e vivo como uma pessoa trans, não binária e GNC e através das minhas descobertas artísticas permito-me expressar livremente de maneiras libertadoras.

Fonte: Pexels
QUEM TEM MEDO DE DRAG QUEEN? DA SUBVERSÃO AMBIVALENTE DE GÊNERO ÀS POTENCIAS DO FANTASIAR
Luná Maldita
Nos parece que os grupos que buscam banir essas montações da sociabilidade pública procuram retomar forçosamente a hegemonia dos limites binários e heterocentrados de produção do gênero no campo social. Em outros termos, trata-se de uma disputa pelos próprios parâmetros de delimitação do que é legitimado como realidade. Portanto, os grupos conservadores tem medo de drag queens porque essas montações carregam em si, não só a capacidade de desestabilizar as normas de gênero (as quais inclusive podem ser reafirmadas por essas artistas), mas, também a força de agir na própria rearticulação dos fundamentos ontológicos que estabilizam os limites do que é dado como realidade.
CAÇA ÀS DRAGS: CENSURADAS NO ESPAÇO PÚBLICO
Luná Maldita
Em nosso episódio de estréia no Podcast Grafia Drag, Juana Profunda, Tiffany Plazza e Profaª Luná Maldita, falam sobre a caça às drags expressa na proibição de apresentações de drag queens e drag kings em espaços públicos em Tennessee, EUA. Entre os tópicos discutidos estão as implicações e os desdobramentos dessa lei, as justificativas dadas para a aprovação da lei, os embates postos em prática pelas artistas e quais estratégias podemos experimentar para lidar com essa situação a partir do contexto brasileiro.

‘TODA FORMA DE DRAG?’ A FALTA DE REPRESENTATIVIDADE AFAB EM REALITY SHOWS BRASILEIROS
Lady Lazzarus
Até aqui podemos ver que, à frente de RuPaul’s Drag Race, as produções que envolveram talentos drag brasileiros nos últimos dez anos trouxeram à TV mulheres trans, travestis e pessoas trans não binárias AMAB, mas apenas uma produção trouxe dois AFAB (um na condição de participante e outra na condição de mentora). São cerca de trinta e quatro participantes AMAB (94,4%) para apenas dois participantes AFAB (5,6%). Isso seria quase 1 participante AFAB para cada 20 AMAB.

POR QUE TÃO POUCO? ARTE DRAG COMO LUGAR DE REVOLTA
Anubis Blackwood
Agora entendo que Anubis Blackwood surgiu de um lugar de revolta, ela foi meu próprio mecanismo para me tornar mais forte e inatingível. Ela veio me levar para um lugar fantástico onde é possível me sentir completa, absoluta e assumidamente eu. Onde não sou rotulada, onde crio minhas próprias regras, onde tenho minha deusa pessoal para me auxiliar quando a realidade sufocante faz com que sinta que não sou artista ou alguém o suficiente.

DRAG FEMINISTA? REFLEXÕES ACERCA DOS LIMITES ENTRE A ARTE E O ATIVISMO
Mia The Witch
Contudo, mesmo achando que a estereotipação de corpos e vivências femininas não sejam problemáticas, as feministas acreditam que seja possível constituir expressões drag sem fazer uso dessas ferramentas. Sob sua visão, a mescla de signos entre ambos os gêneros seria uma forma mais interessante para a construção drag, evitando personas essencialmente femininas. Além disso, as feministas acreditam que a expressão drag pode contribuir com o movimento feminista por ser entendida como quebra de estereótipos de gênero, não a reprodução deles.

Foto: Carla Menna Barreto
PARA SAIR DA ZONA DE CONFORTO: UMA BOA COMPETIÇÃO
Tiffany Plazza
No final do ano de 2021, recebi uma mensagem no Instagram de uma drag queen chamada Victoria Blossom, me convidando para participar de sua competição de drag online, SuperQueen. No início pensei “uma drag queen iniciante como eu, que mal tem figurinos e nunca performou em público terá condições de já participar de uma competição?”. Resolvi então consultar amigos que me fizeram olhar para essa oportunidade de outra forma: e se essa competição me ajudasse a ter essa evolução que eu precisava? Por que esperar me sentir pronta ao invés de usar essa oportunidade como um mecanismo para evoluir?

QUEBRAR OS PADRÕES, AFIRMAR AS DIFERENÇAS: DESAFIOS DA ARTE DRAG
Candy Bloom
Há também toda a questão envolvida com a manutenção do padrão corporal, especialmente por ser uma cidade litorânea, o “corpo do verão” é muito cobrado por aqui. Quem não se encaixa no meio, ou corre pelas beiradas, ou acaba largando em busca das tais “profissões mais sérias”. O corpo gordo está muito em exposição para julgamentos e nas baladas e pubs que frequento são raros os corpos gordos. Esperam a comicidade como única fonte, traçam vilania como a gente pode perceber nas representações de vilões de filmes/desenhos infantis. Na própria Divine, inspiração pra Ursula, nós vemos a comicidade e vilania presentes. Claro que esse também é um caminho louvável, mas há outros. A arte drag é múltipla.

Acervo Leda Hofmeister.
EKTOR VON HOFMEISTER ATRAVÉS DAS MEMÓRIAS DA IRMÃ DONA LEDA
Jandiro Koch
Dona Leda acabara de receber, do México, uma remessa com lembranças do irmão, que faleceu em decorrência da diabetes em 2018. É sobre essas memórias que iremos bater um papo, eu sentado no sofá aconchegante, gravador ligado para nada perder […]. Apesar do estrondoso sucesso de “Sophia Loren”, que ganhou capas de revistas como a Manchete e matérias em diversos jornais, a irmã não foi assistir aos espetáculos. Entre o desejo contemporâneo e um certo arrependimento tardio, ela confessa: “Eu tinha vontade de ir, ele também tinha vontade que eu fosse, mas pelas circunstâncias, na época, não deu como encaixar a minha ida lá, eu não tinha com quem deixar as crianças […], uma série de coisas impediu minha ida lá.”

Foto: Andressa Magalhães
“PARA HÉTERO VER”: ARTE E CULTURA LGBT PARA FORA DA BOLHA
Lady Lazzarus
Como pessoa transgênero e como transformista, não vejo forma mais eficaz, potente e viável de mostrar ao universo heterossexual que somos seres humanos como eles, passíveis dos mesmos direitos, capazes de ocupar os mesmos lugares, constituir família, empreender, lutar e construir um mundo melhor e mais humano. Apresentar uma narrativa de militância dentro de uma “bolha” social é relativamente fácil. Tentar conversar com quem está fora dela é um desafio grande e totalmente capaz de ser feito por nós.

TERRITÓRIOS TRANSFORMISTAS DE PORTO ALEGRE
Luná Maldita
A partir de um rastreio sobre os bares e casas noturnas de Porto Alegre, notamos que existe um circuito transformista e drag estabelecido na cidade, o qual dá a ver a composição de um território coletivo. No presente ensaio apresentamos um olhar panorâmico sobre esse território, traçando um mapa movente a ser revisto e ampliado junto aos trânsitos em meio a própria cena.

O DESCARTE DO ESTRANHO: A EXCLUSÃO DA DIFERENÇA NA CULTURA DRAG
Mia the Witch
Quando falamos de arte LGBTQIAP+, precisamos considerar que os estigmas pelos quais passamos, infelizmente, acarretam em ainda mais negligência das políticas culturais para nós. Entretanto, o que eu gostaria de abordar neste ensaio é como essa lógica excludente e estigmatizante promovida pela heteronormatividade social acaba dificultando a inserção de artistas queers que não atendam a um padrão estético específico dentro da sua própria comunidade.

A ARTE DRAG QUEEN PARA ALÉM DOS PADRÕES DE FEMINILIDADE
Grottesca
É quando em nossas performances celebramos a multiplicidade de corpos e expressões de gêneros que dançamos uma sinfonia de celebração da vida em suas infinitas possibilidades. Por isso pergunto, por que limitar nossa visão a apenas uma forma ou outra? É pensando nisso que nunca compreendi as padronizações em uma arte que desestabiliza os padrões sociais e que desafia as expectativas que a sociedade espera de indivíduos LGBTQIA+.

Foto: @ocorre.lab
ANTES QUE A NOITE ACABE
Sandro Ka
Rebecca McDonald, Cassandra Calabouço, Gloria Crystal, Dandara Rangel, Charlene Voluntaire, Laurita Leão, Maria Helena Castanha, Lady Cibele, Suzzy B. Artistas drags e transformistas de ontem e de hoje. Nomes tão representativos para uma classe artística que enfrenta dilemas e dificuldades para se manter viva e presente. Um fazer que forma e informa sobre tal produção simbólica que vem elaborando-se, atravessando tempos e lugares, como uma forma de reinvenção e, sobretudo, como uma forma de resistência a processos de violência contra sujeitos LGBTQIA+ que se manifestam no apagamento de suas memórias e elementos culturais.

Fonte:pexels
GRAFIA DRAG: UM MAPA COLETIVO DOS SABERES TRANSFORMISTAS
Luná Maldita
Nesse mês de outubro o Grafia Drag completa 1 ano de existência. Ao longo desse período foram publicados 23 textos, os quais em conjunto funcionam como um mapa coletivo que localiza distintos aspectos do transformismo. Os textos publicados no Grafia falaram das montações considerando temas como processos criativos, coletividades, estereótipos de feminilidade, performances artísticas, história do transformismo, pandemia de COVID-19, além de incluir duas resenhas de livros e uma entrevista. Por meio desse conjunto de materiais vemos fragmentos das cenas transformistas, incluindo diferenças de regiões, passando pelo Sul, Sudeste, Norte e Nordeste, além de variações de épocas e contextos históricos.

Foto: Acervo pessoal
O COLETIVO NA MONTAÇÃO: EU, QUANDO ME MONTO E OLHO NO ESPELHO, VEJO OUTROS
Olga Devana
Eu comecei me montar num formato de dupla/irmãs gêmeas, tipo as Deendjers. Mas Franchesca e eu não entendíamos nada de maquiagem, mas como Franchesca fazia parte de um grupo de teatro, ela conseguiu que o maquiador do grupo de teatro maquiasse a gente, que aliás é ex-drag da extinta cena de Sorocaba e Marcelo acabou nos adotando como “filhas”. Ao me montar pela primeira vez, quando olhei no espelho, eu vi o Marcelo, que nos ensinou muitas coisas.

Fonte: Régis Amora
ATLAS DRAG: UM FOTOLIVRO-MONTAÇÃO DAS CENAS TRANSFORMISTAS
Régis Amora, Luná Maldita e Tiffany Plazza
O fotolivro “Atlas Drag” de Régis Amora, apresenta um mapa dos territórios drag e transformistas. Esse livro promove uma imersão nas processualidades drag, mostrando não só montações em cena, como também, incorporando os movimentos simultâneos de montação-desmontação em sua própria forma. Podemos dizer que se trata de um fotolivro-montação, já que essa obra se constrói através da metalinguagem das montações.

Fonte: Denissitta fotografias
A TRANSITORIEDADE ARTÍSTICA DA DRAG QUEER ALMA NEGROT
Maí Yandara
Ao descrever o processo de transformação que sucedeu com Raphael, poderíamos dizer que havia um menino queer que queria ser artista. É a partir da diáspora, causada pela intolerância e pelo conservadorismo familiar de sua própria cidade de origem, que o artista se encontrou com a criação de uma Alma. Esse processo o permitiu a transfiguração do lugar comum de artista interiorano em um lugar no mundo intergalático, atravessado pelas temporalidades evanescentes do ser queer.

Fonte: Capa da revista Manchete. 13/05/1961.
UM BARÃO TRANSFORMISTA: AS MÚLTIPLAS FACETAS DE EKTOR VON HOFFMEISTER
Jandiro Koch
Irajá Freire Hofmeister (1939-2018) nasceu em 1939, em Palmeira das Missões, de acordo com O Cruzeiro (29/12/1962) […]. Apesar de ser chamada de “bicharroca gaúcha” em alguns momentos, a atuação junto com Grande Otelo (1915- 1993), Consuelo Leandro (1932-1999) e outros passou a ser motivo de admiração por muitos, especialmente pela dita semelhança com a atriz italiana Sophia Loren. Conforme Dantas, muitos diziam que “era a mais bela mulher de show de Carlos Machado.” Carlos Machado, por sinal, era gaúcho, de Porto Alegre, e ficou famoso na capital como boêmio. Mais tarde, a partir dos anos 1940, se tornou figura indelével da vida artística carioca.

Fonte: Reprodução – O Globo
NÚMERO ARTÍSTICO E PERFORMANCE: TEM ALGUMA DIFERENÇA?
Lady Lazzarus
Quando Pavis nos diz que a performance não é “pré-concebida” é justamente porque ela vai depender da condução da plateia presente. É o público que guia o artista no caminho da performance, e não o contrário, como no número artístico. No número artístico, o artista prepara um caminho e conduz seu público por ele. Há um clímax, mas ele já é pré-definido pelo artista, que aguarda certa reação de seus espectadores (alegria, incômodo, emoções diversas). Na performance, o performer é quem recebe essa energia do público e é ele que vai experienciar as emoções, ele que será surpreendido pelas pessoas que interagem com ele ou o assistem […]

O DELÍRIO DE FAZER DRAG
Muito se fala sobre como drag é um ato artístico, político e existencialista. Estas artistas camaleônicas são um potente “instrumento de provocação, blasfêmia, divertimento e um fator de estranhamento, em que o masculino e o feminino se fundem na construção de uma personagem e de uma linguagem cênica particular” (AMANAJÁS, 2015). A transformista, termo que também uso bastante, geralmente, usa de uma indumentária exagerada e estilizada e carrega um discurso crítico e transformador.

SATURNA: UM RETORNO DA ÓPERA ÀS COMPOSIÇÕES DRAG
Essa entrevista, concedida por Saturna ao Grafia Drag, foi realizada via e-mail no dia 06 de junho de 2022. As questões abordam desde as inspirações para a composição da drag queen, passando pelas transformações percebidas no corpo a partir das montações, até o retorno da ópera às composições drag na vivência da artista.

UMA PANDEMIA + UM PROCESSO DE CRIAÇÃO = UMA DRAG?
Ivan Nunes
No contexto da pesquisa, estou em processo de criação do monólogo Senhorme, livremente inspirado em conto de Lygia Fagundes Telles (1918-2022), escritora paulistana que simplesmente aprecio (e recomendo) sem moderação (fala clichê, bem sei). A personagem que desempenho é uma mulher na casa dos sessenta anos, uma professora como eu. Eis que o Grafia Drag me convida para escrever sobre esse processo de criação, sobre essa busca de uma mulher no palco. Eis que surgem questões: como se faz uma pesquisa que envolve teatro em plena pandemia? De que maneiras eu venho tentando encontrar/criar essa mulher? Diante do convite, estou desempenhando um drag?

ESCRITURAS TRANSFORMISTAS EM MONTAÇÃO
Luná Maldita
Em 2016 me montei pela primeira vez em coletivo na ocupação estudantil do Centro de Artes da UFPEL. Naquele momento ainda não sabia que essa vivência tomaria conta deste corpo desdobrando-se em distintas montações. É daí que me sinto convocado, arrastado, intensamente afetado e transformado pelo desconhecido que há nessas composições. Forçando os limites disso que percebo como eu, as montações vêm se esboçando em mim como espécie de escrituras transformistas, as quais operam enquanto expressão artística e, ao mesmo tempo, como produção de subjetividade.

Fonte: Arquivo pessoal
NOCIVAMENTE BELA E RICA: PERFORMANCES DRAG E A MANUTENÇÃO CIS-MASCULINA DE ESTEREÓTIPOS FEMININOS
Mia The Witch
O programa Keep Up With The Kardashians estreou em 2007 e conta atualmente com 20 temporadas disponíveis, evidenciando o seu total sucesso. Quando aponto o reality como fator na padronização de um ideal de beleza feminina dentro do universo drag, isso diz respeito ao fato das irmãs serem reconhecidas por seu formato de corpo “violão” e seus rostos magros com lábios carnudos, narizes finos e maçãs salientes – os quais são resultados de inúmeros procedimentos estéticos.
Fonte: Canal Tiffany Plazza (YouTube)
DO PLANEJADO AO IMPROVISO: MONTAÇÃO DRAG COMO ESTRATÉGIA PARA ENFRENTAR INSEGURANÇAS
Tiffany Plazza
Por muito tempo, minha principal maneira de compartilhar meu trabalho como musicista foi gravando vídeos sozinha em casa cantando com meu violão. Com o tempo, vendo gravações mais elaboradas que as minhas, passei a acreditar que meus vídeos não eram bem trabalhados o suficiente e que não valia a pena continuar produzindo-os. Com o drag, passei a dar mais valor para essa forma de gravar vídeo, pois a montação acompanha a intensidade da minha voz e, com o violão, eu vi uma forma de dar leveza e simplicidade para a performance.
TRANSFORMISTA BRASILEIRO/A/E: VOCÊ CONHECE A NOSSA HISTÓRIA?
Lorde Lazzarus
Ser drag queen ou drag king vai muito além de aprender a fazer uma caracterização através da maquiagem, estilizar uma peruca ou criar um figurino, vai muito além de criar um número artístico ou uma performance. Ser drag queen ou drag king, ser TRANSFORMISTA (…) é colocar seu corpo como manifesto social e político, desafiando as normas de controle estabelecidas pelo patriarcado, pelo sistema capitalista e pelas religiões (…).

Foto:@wanaleixodesign
DA CULTURA CLUBBER ÀS THEMÔNIAS EM BELÉM
Juliano Bentes (Luna Skyyssime)
O Noite Suja criou um tipo de festa marginal voltado à montação que se disseminou em muitos outros eventos na cidade, como a Viada Cultural, a Pyrygotyk, a Obscenna, a decaDANCE, a Karma Cool, a Maniva, a Iconic, entre outras, a grande maioria adotando essa estética urbana e voltada para a montação que posteriormente provocou a autodenominação das artistas enquanto themônias.

Foto: Mácio Ferreira
INSURGÊNCIA DRAG: MONTAÇÕES DE NAZINHA NA FESTA DA CHIQUITA
MaÍ Yandara
[…] a “Chiquita” é uma insurgência ao conservadorismo religioso e resiste desde 1978. No Dossiê de Tombamento, quando foi incluída pelo Iphan no “Inventário Nacional de Referências Culturais” com celebração à festividade de Nazaré, consta que a “Festa da Chiquita” tem “um caráter de resistência, de contestação, de busca de espaço e reconhecimento social pelos homossexuais”.

RICARDO E VÂNIA: POR MAIS NÃO-FICÇÃO DE PERSONAGENS QUEERS
Gilmar Montargil
Em 2017 uma reportagem tomou conta das redes em um boom de cliques e compartilhamentos ao contar a história de Fofão da Augusta – personagem badalado nos salões e nas noites dos anos 1970 e 1980 que vivia como morador de rua nas proximidades da Rua Augusta em São Paulo. Apesar de todos o reconhecerem pelas suas bochechas inchadas devido a aplicações de silicone industrial, quase ninguém sabia seu verdadeiro nome, sendo internado nos hospitais muitas vezes como indigente.

DARWIN: “IMITADOR DO BELO SEXO” TRANSITA PELOS TEATROS BRASILEIROS
Jandiro Koch
Três “sujeitos” chamados de Darwin eram constantes nas matérias de jornais na capital gaúcha. Charles Darwin (1809-1882), o da teoria evolucionista. Um tal de Leonard Darwin, autor de Municipal Ownership. E um cavalo chamado Darwin, que disputou muitas corridas na Associação Protetora de Turf, em 1914. Foi em uma Porto Alegre repleta de locais para apresentações teatrais, em 1915, que um quarto Darwin apareceu causando nas primeiras décadas do século XX.

MANIFESTA TRANSFORMISTA BRASILEIRA: A REVOLUÇÃO ESTÁ MONTADA!
Autoria coletiva
“Transformismo é estratégia de sobrevivência, espaço para dar corpo a tudo o que nos foi impedido de ser, dizer, perceber, expressar e sentir. Incorporamos as forças e saberes silenciados, interditados, negligenciados e apagados. Em bandos, saqueamos o museu e a história da heterocisnorma, ocupamos o imaginário coletivo para transformar, transtornar e reinventar!”.

FESTIVAIS DRAG: DE RUPAUL’S DRAGCON ÀS CENAS BRASILEIRAS
Luná Maldita e Juana Profunda
“É comum ver produções e eventos brasileiros deixando o papel de destaque para as american queens. Entretanto, isso não significa que não estejamos dando nosso close e reafirmando nossos espaços e vivências! As cenas drag e transformista no Brasil tem muito do que se orgulhar e celebrar […]”.

NASCE UMA MONSTRA
Mia The Witch
“Drag Race moldou a ideia da primeira drag queen que eu queria me tornar. […] A ideia desse reality show, em teoria, me parecia fabulosa: pegar uma arte marginalizada, dar umas boas modeladas nela e a transformar em uma arte de entretenimento mainstream. Entretanto,na prática, acredito que a disputa acirrada apresentada por RuPaul acabou criando regras e limitações demais […]”

O GRANDE ATO: RE(X)ISTIR À SUSPENSÃO DO FAZER ARTÍSTICO NA PANDEMIA
Chiquinha Gozada e Xico Tuchtenhagen
“A Chiquinha não surgiu sozinha ou apenas pela vontade e trabalho do Xico. Ela surgiu do trabalho pessoal, mas que estava em contínuo processo de troca e amadurecimento com um grupo de outros performers que também buscavam ou criar suas drags ou amadurecê-las, participando da oficina Pimp My Drag […]”

SER DRAG SEM SER QUEEN
Wendell Cândido
“O relato que estou a escrever é sobre a minha vivência enquanto drag king. No Rio de Janeiro, quando comecei a atuar em 2015, era difícil achar referências de maquiagens ou outras dicas de como transformar meu corpo com curvas, seios, em um corpo mais normativamente masculino, com mais pelos e barba […]”.

A LIBERDADE DA ARTE DRAG PARA A ESCRITA CRIATIVA
Tiffany Plazza
“[…] percebi que não adiantaria mudar melodias, nem letras, nem nada específico de uma música, mas precisaria mudar o processo, já que essa maneira de compor não estava funcionando. Desde que comecei a me montar, nunca mais tive vontade de me apresentar no palco desmontada, entendi que precisava inventar uma forma de compor para a Tiffany e não para a Fernanda”.

A PORTO ALEGRE DOS TRANSFORMISTAS PROFISSIONAIS
Jandiro Koch
“Desde o Império, ao menos dos anos finais da segunda metade do século XIX, tanto os teatros mais requintados como o Teatro São Pedro, em Porto Alegre, quanto os de menor capacidade de público e de estrutura menos imponente anunciaram shows de transformismo […]”.
