Do medo à satisfação: economias emocionais em regimes de vigilância
Por Vinícios Serrão:
Introdução
Este pequeno artigo tem como objetivo comparar os regimes de vigilância e governamento descritos por Foucault (1987) com o atual modelo de vigilância — em especial o imanente às redes sociais — a partir de suas economias afetivas. Parto da hipótese de que, enquanto nos regimes medievais e modernos o medo se apresentava como o afeto motor do poder espetacular, o regime contemporâneo das plataformas digitais articula uma governamentalidade centrada na satisfação. Para analisar essa transformação, mobilizo contribuições da psicanálise (Freud) e da neurociência crítica (Courtwright; Lembke), buscando compreender como afetos distintos — medo e satisfação — operam, legitimam e renovam as tecnologias de controle social.
A genealogia do medo no sinóptico e panóptico
O filósofo e historiador Michel Foucault (1926-1984) dedicou seu lacônico legado em estudar temas sociais inspirado pela fenomenologia, marxismo e filosofia existencial. A sua preocupação primária era compreender “como foi possível o que é?” Em outras palavras, suas principais inquietações giravam em torno da relação entre saber, poder e subjetividade — ou seja, de que modo o conhecimento e as formas de poder produziam modos de ser, pensar e agir nos indivíduos e nas sociedades. Afirmou: “meu objetivo tem sido criar uma história dos diferentes modos pelos quais, na nossa cultura, os seres humanos são transformados em sujeitos” (Foucault, 1982, p. 208).

Um de seus textos mais conhecidos é o Vigiar e punir (1987 [1975]), que trata fundamentalmente da história do direito penal e da história das prisões. Em termos gerais, o livro se propõe a traçar uma história correlativa da alma moderna e de um novo poder de julgar, apresentando uma genealogia do atual complexo científico-judiciário onde o poder de punir se fundamenta e recebe suas regras. O tema central da obra é a metamorfose dos métodos punitivos que ocorreu na passagem dos castigos corporais e espetaculares (os suplícios) para o sistema carcerário moderno. Como bom historiador, Michel Foucault faz uma análise histórico-crítica das formas de disciplinamento social e encontra pistas importantes nos modelos de punição criados pelos governos ocidentais da Idade Média à Moderna.
Na Idade Média, o governo lançava mão, mais especialmente, do espetáculo e da punição sobre o corpo como forma de disciplinamento social. Não obstante, no início de “Vigiar e punir” (1987), Foucault apresenta uma narração em que um personagem é brutalmente esquartejado e morto em espaço público, em meio à multidão, retrato do que acontecia naquele período. O sinóptico (que permite ver o conjunto em um só golpe de vista) era o principal dispositivo de controle social (muitos olham um). Nesse contexto, o medo era o principal afeto explorado: “melhor obedecer que ser esquartejado!”
A política do medo tinha o objetivo de fazer com que a manifestação do poder fosse sentida de forma intensa e aterradora: o castigo era executado em público para provocar um “efeito de terror” pelo espetáculo do poder triunfando sobre o culpado. Essa política visava tornar sensível a todos, sobre o corpo do criminoso, a presença encolerizada do soberano. O suplício, ao invés de apenas restabelecer a justiça, reativava o poder. A intenção era que o exemplo da pena ficasse profundamente inscrito no coração dos homens (Foucault, 1987, p. 67).
Na modernidade, houve uma complexificação nas formas de controle por meio do sistema arquitetónico prisional panóptico – que significa ‘visão-total’ (um vendo muitos) -, “desapareceu o corpo como alvo principal da repreensão penal”, isto é, as repressões penais deslocaram-se para a prisão, conferindo uma “punição restrita à alma” (Foucault, 1987, p. 13), por meio do isolamento e repressão sobre os corpos infratores. O panóptico se tratava de um edifício em forma de círculo, que no meio existia um pátio com uma torre no centro. O anel se dividia em pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior e no topo da torre havia um “possível” vigilante que podia ver todas as cabines/prisioneiros, porém, não poderia ser visto pelos prisioneiros, graças ao design engenhoso das janelas.
O modelo de vigilância identificado no panóptico, de acordo com Foucault (1987, p. 156), induzia ao detento “um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder”. É sob essa percepção que o pensador conseguiu identificar que o governo cria dispositivos de poder que têm como objetivo disciplinar. As disciplinas operavam em uma escala ‘infinitesimal’ e minuciosa do controle (Ibid., p. 69). Elas não visavam o corpo “em massa”, mas sim o detalhe dos movimentos, gestos, atitudes e rapidez. O objetivo era fabricar “corpos submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’” (Ibid., p.162). Ou seja, as disciplinas utilizavam instrumentos simples, mas eficazes: “a vigilância hierárquica” – o olhar que obriga e controla-, “a sanção normalizadora” – que reduz os desvios em relação a uma norma-, “e o exame” – que combina a hierarquia e a sanção para qualificar e classificar (Ibid., p.163).
Na modernidade, com a reforma penal e o desaparecimento progressivo dos suplícios, o uso do medo não foi eliminado, mas sim transferido e otimizado, passando do terror físico e intermitente para uma coerção psicológica e contínua: A penalidade reformada buscava um castigo que fosse racional e econômico. A longa duração de uma pena, por exemplo, como privação contínua, visava renovar incessantemente aos olhos do povo a lembrança das leis, fazendo “a todos os momentos reviver um terror salutar” (Foucault, 1987, p. 128). O castigo passa a se dirigir à alma, ao intelecto e às representações. O legislador deveria garantir que a ideia do suplício (ou da desvantagem da pena) estivesse sempre presente no coração do homem fraco e dominasse o sentimento que o arrastava para o crime.
Em resumo, para Foucault a vigilância, o espetáculo e o medo atuavam como motores históricos, técnicos e econômicos fundamentais, primeiro, como o objeto da política ostensiva da soberania; depois, como o princípio racionalizado de intimidação na reforma penal e a tensão psicológica constante da vigilância na sociedade disciplinar. Mas, a vigilância e o espetáculo continuam como dispositivo central do governo dos corpos? O medo continua como afeto principal explorado nas dinâmicas de poder?
É notável que a vigilância e o espetáculo continuam como dispositivos centrais nas dinâmicas de controle, porém, mais desenvolvidos, variados e distribuídos. Estruturam-se entre câmeras de vigilância nas repartições públicas, semipúblicas e privadas; satélites e aplicativos de geolocalização; algoritmos coletadores de rastros; hardwares e softwares de múltiplos modelos. As redes sociais, por exemplo, podem ser vistas como máquinas de vigilância, espetáculo e disciplina que, porém, ultrapassam tanto o modelo panóptico de Bentham quanto qualquer outra tecnologia.
Satisfação e redes sociais digitais
Nas redes sociais digitais, a exposição permanente e o espetáculo tornam‑se vetores essenciais de formação subjetiva, ao passo que algoritmos e práticas cotidianas entrelaçam visibilidade, controle e resistência. Essa dinâmica retoma técnicas de ordenamento social descritas por Foucault (1987, p. 33) em sua genealogia dos modos de governos medievais e modernos, e ganha maior amplitude e sutileza ao se apoiar em fluxos de dados e feedbacks em tempo real. Entretanto, o medo deixa de seu aparato econômico, dando espaço para vários outros afetos – do encantamento e da empatia à inveja e ao ressentimento – gerada e amplificada por indivíduos, coletivos e instituições; por meios das curtidas, comentários dentre outros recursos. Essa multiplicidade de afetos não apenas fortalece as dinâmicas de vigilância, tornando-as mais difusas e descentralizadas, mas também sustenta circuitos de engajamento e consumo que atravessam a experiência dentro e fora do digital.
Além disso, percebo que na contemporaneidade, embora a alma permaneça o alvo central da punição – tal como na sociedade disciplinar (Foucault, 1987, p. 20) -, as novas tecnologias de visibilidade, especialmente as redes sociais, deslocam-se para uma ‘disciplina por recompensa’: em vez da coerção explícita, operam, especialmente, por meio de estímulos e reforços positivos que incentivam comportamentos desejados (normas), tornando o controle mais sutil e adaptativo. Narrativas centradas na prosperidade, no autocontrole emocional e no otimismo, amplamente difundidas por discursos da psicologia positiva e coaching, contribuem para a construção de um “novo normal” pautado na obrigação de ser feliz, deslocando questões estruturais e políticas para o âmbito da responsabilidade individual (Cabanas e Illouz, 2018, p. 151).
Penso que na contemporaneidade, por meio da “virada demótica” a ostentação do soberano ou no vigia do panóptico é reposicionada, migrando para o indivíduo comum, fazendo de cada perfil online um potencial agente de vigilância e autovigilância (Silva, 2021). Assim, em lugar da coerção direta sobre corpo ou alma, as plataformas valem-se de uma sujeição mais sutil, alicerçada em recompensas infinitas — curtidas, compartilhamentos, comentários e Feeds moldados aos gostos individuais — que reforçam continuamente padrões de comportamento.
Não obstante que no ano passado, 2024, o termo ‘brain rot’ (deterioração cerebral) foi eleita a palavra do ano pelo Dicionário Oxford, um conceito popularizado pela Geração Z para descrever a sensação de névoa mental e o declínio cognitivo associados à ‘rolagem infinita’ (infinite scrolling). Outrossim, um estudo publicado na revista NeuroImage investigou os efeitos psicológicos e neurológicos do vício em vídeos curtos, combinando análise comportamental, imagens cerebrais e modelos computacionais de decisão. Os resultados revelam que o consumo excessivo desse tipo de conteúdo interfere na forma como o cérebro processa recompensas, riscos e escolhas, tendo como consequências principais o processamento de informação mais lento, fadiga mental e decisões menos eficientes (Liu, et. al., 2025, p. 9).
Além das rolagens infinitas, há os efeitos gerados por IA, a ultra-alta qualidade de definição de imagem e a variedade de recursos de edição de vídeos (cortes rápidos, sons saturados), que tornam os microvídeos estímulos cada vez mais potentes. Os algoritmos de recomendação tanto facilitam o acesso ao conteúdo, como otimizam a entrega dos estímulos dopaminérgicos, pois ao aprenderem e preverem o que captura a atenção do usuário, criam um fluxo incessante de recompensas imediatas, arquitetando o consumo compulsivo.
Entre os diversos afetos mobilizados nas redes sociais, a satisfação (ou o ‘gozo’) distingue‑se pela sua natureza efêmera e orientada ao imediato, configura‑se como um prazer pontual, estreitamente ligado a estímulos externos e à liberação rápida de dopamina no sistema límbico humano (Courtwright, 2019, p.10). Estudos em neurociência evidenciam que essa descarga phasic de dopamina (principal neurotransmissor da motivação) reforça comportamentos de busca por recompensas instantâneas, criando um circuito de feedback positivo que sustenta o consumo compulsivo de conteúdos digitais, como os famosos microvídeos do Instagram, “narrativas da dopamina”. Isto é, o acúmulo do prazer na sociedade contemporânea (seja por meio de substâncias químicas, pornografias, redes sociais entre outras formas de consumo) estrutura uma economia de dopamina que têm por consequência muitos danos para a saúde individual e coletiva (Lembke 2022, p.183).
Perspectivas da neurociência e da psicanálise sobre o medo e a satisfação
De acordo com o Oxford English Dictionary medo e a satisfação são emoções (manifestações psíquico-físicas mais rápidas e fortemente ligadas a excitação corporal). O medo é um estado afetivo aversivo e de alto excitação, desencadeado pela percepção ou avaliação de uma ameaça real ou potencial; mobiliza respostas fisiológicas imediatas (taquicardia, sudorese, ativação do eixo HPA), orienta comportamentos de fuga, evitação ou imobilização e tem função adaptativa de proteção da integridade corporal e da vida. Cognitivamente, envolve apreciações rápidas de risco e contingência, fenômeno cerebral fortemente associado à ativação da amígdala e de circuitos de resposta ao perigo (Oxford, 2025, s/p).
A satisfação é um estado afetivo positivo que sinaliza a consecução de um fim, a redução de uma necessidade ou o cumprimento de uma expectativa; costuma envolver sensação de contentamento, bem-estar e redução da tensão motivacional, favorecendo a aproximação, a repetição e a consolidação de comportamentos. Neurobiologicamente relaciona-se a circuitos de recompensa (sistema dopaminérgico, estriado ventral) e, psicologicamente, promove sensação de fechamento ou homeostase subjetiva, legitimando práticas e hábitos que a produziram (Courtweight, 2019, p. 17).
Em contraste operativo: o medo orienta para proteção e evitação (ruptura da continuidade), enquanto a satisfação orienta para manutenção e repetição (reprodução de comportamentos); ambos, por serem respostas psíquico-físicas rápidas e intensas, são centrais na formação de subjetividades e na regulação social.
Para Freud, medo (furcht) é a palavra empregada quando a angústia encontrou um objeto e angústia (angst) refere-se ao estado afetivo que possui uma qualidade de indeterminação e ausência de objeto; é um afeto primário, intimamente ligado ao medo e a ansiedade (Freud, 1996 [1925-1926], p.103), atividade de todo o aparelho psíquico é regulada pela série de sensações prazer-desprazer (Freud, 1996 [1925-1926], p. 59). De acordo com o psicanalista – no nível mais fundamental da economia psíquica – a dor (ou desprazer) e a angústia, são distintas, mas estão intimamente ligadas em termos de origem, função de sinal e economia psíquica, sendo, porém, opostas a satisfação (prazer).
Conclusão
A análise empreendida demonstra que as categorias foucaultianas — saber, poder e subjetividade — continuam heurísticas essenciais para compreender as transformações contemporâneas do controle social: o deslocamento dos suplícios públicos para as prisões e, subsequentemente, para dispositivos digitais não eliminou a função reguladora do poder, apenas a redesenhou; hoje a vigilância capilar se combina com regimes de recompensa e micro-reforço, produzindo formas sutis de autovigilância e normalização por meio da atração e não apenas do medo.
A mudança de polo — da primazia do terror para uma pluralidade de afetos, especialmente a satisfação — amplia e torna mais difusa a governamentalidade, enquanto algoritmos e arquiteturas de interação transformam os usuários em centros de observação, classificação e otimização, com impactos mensuráveis sobre a cognição e a saúde mental. As mudanças tecnológicas possibilitam uma ampliação dos modos de governança, disciplinando por meio da satisfação do consumo. Assim, a convergência entre técnicas disciplinares clássicas e dispositivos digitais configura um novo regime de subjetivação que exige não só diagnóstico teórico, mas também intervenções políticas e práticas coletivas capazes de problematizar as condições históricas de possibilidade do presente e abrir espaços para outras formas de cuidado de si e de resistência.
Imagem
Obra “O Grito” de Edvard Munch. Fonte: Modificado por meio de IA
Referências
CABANAS, Edgar; EVA, Illouz. Happycracia: Cómo la ciencia y la industria de la felicidad controlan nuestras vidas. Barcelona: Paidós, 2019
COURTWRIGHT, David T. The Age of Addiction: How Bad Habits Became Big Business. Cambridge, MA: Belknap Press, 2019. https://doi.org/10.4159/9780674239241.
FREUD, Sigmund. Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e ansiedade, análise leiga e outros trabalhos (1925 – 1926). v.20. São Paulo: Imago, 1996.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1987.
FOUCAULT, Michael. “The Subject and Power”. In: DREYFUS, H.& RABINOW, P. (eds). Michael Foucault: Beyond Structuralism and Hermeneutics. Chicago, II: University of Chigado Press, 1982.
LEMBKE, Anna. Nação dopamina: por que estamos viciados e como manter o equilíbrio na era do excesso. Tradução de Julia Eliza M. Guimarães. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. 268p.
LIU, Chang; WANG, Jinlian; LI, Hanbing; SHANGGUAN, Qianyi; JIN, Weipeng; ZHU, Wenwei; WANG, Pinchun; CHEN, Xuyi; WANG, Qiang. Loss aversion and evidence accumulation in short-video addiction: a behavioral and neuroimaging investigation. NeuroImage, v. 313 (121250), 2025.
SATISFAÇAO. In: Dicionário Oxford, [S. l.], [2025]. Disponível em: <https://www.oxfordlearnersdictionaries.com/us/>. Acesso em: 27/10/2025.
SILVA, Heriton Vinícios Serrão. Subjetividades Instagramáveis, cartografias da autovigilância no Instagram. Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em comunicação da Universidade Federal do Piauí – Teresina, 2021.
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