Mnemósine, Hypomnemata: memória como mídia
Por Rodrigo Fernandez
Mnemósine, titânide e deusa da memória, filha de Urano com Gaia, deu à luz nove musas, cada uma responsável por representar um punhado de práticas: Calíope era dedicada à poesia épica; Clio à história, Euterpe à música e Urânia à astronomia. A memória, na alegoria mitológica grega, é a matriz de onde descende uma ampla variedade de criações — das poéticas às pragmáticas. Em Platão e Aristóteles e, mais tarde, nos sistemas retóricos latinos, como o de Cícero, a memória é gradualmente despojada de sua ancoragem mítica e reinscrita no domínio das faculdades humanas, passando por um processo de secularização conceitual. Essa passagem, no entanto, resguardou ao menos uma característica que, aqui, gostaríamos de destacar — senão como hipótese, como imagem produtiva: ela permanece sendo concebida a partir das relações tensas que estabelece com os meios que dispomos para exteriorizá-la.
Herman Parret (2004, p. 39) argumenta que o funcionamento da memória pode ser descrito como quasi-arquivístico: “uma memória sem ordenamento seria como uma biblioteca sem catálogo”. Qualquer operação mnemônica dependeria, em alguma medida, de triagem e organização. Serge Margel (2017, p. 126) é ainda mais radical: segundo ele, “já existe memória na fala e arquivo na memória; portanto, que não há fala, nem gesto, nem voz, nem tampouco sopro, olhar, escuta, sem um arquivo”. É uma hipótese forte, potencialmente generalizante e difícil de assinar embaixo, mas que serve como exemplo desse imbróglio cuja genealogia remete ao menos a Platão, que na sua descrição farmacológica da escrita já sugere um entendimento da memória nos termos de uma tecnologia de inscrição:
Diremos, pois, que se trata de uma dádiva de Mnemenosine, mãe das Musas, e que sempre que queremos lembrar-nos de algo visto ou ouvido, ou mesmo pensado, calcamos a cera mole sobre nossas sensações ou pensamentos e nela os gravamos em relevo, como se dá com os sinetes dos anéis. Do que fica impresso, temos lembrança е conhecimento enquanto persiste a imagem; o que se apaga ou não pôde ser impresso, esquecemos e ignoramos (Platão, [369 AEC] 1988, p. 71, grifos nossos).
Ainda segundo Parret (2004), da mesma maneira, as elaborações sobre a memória tanto de Aristóteles quanto de Santo Agostinho são atravessadas pela ideia de uma superfície em que se incide uma inscrição; Freud também pensa no seu funcionamento a partir do peculiar Bloco Mágico [Wunderblock] e Kittler (2019, p. 58–59) a aproxima do funcionamento do fonógrafo — em uma bonita passagem, o teórico alemão das mídias propõe que o cérebro, assim como a fonografia, após receber e preservar uma gravação, pode trazê-la de volta à vida incitando novas vibrações no objeto. A primeira inscrição é violenta e desestabilizadora, mas o movimento de seguir a lembrança é o de deixar-se deslizar ao longo de uma inclinação.
A tendência a pensar os mecanismos mnemônicos a partir dos meios de sua passagem à exterioridade parece ser resultado de uma inevitável constatação: toda memória é confrontada pela sua “possibilidade de perda, sua insuficiência ou, mais ainda, sua incapacidade de conservar a singularidade de uma fala” (Margel, 2017, p. 127). Freud é categórico em dizer que temos motivos para desconfiar da nossa própria memória; é possível, no entanto, diz o austríaco, “completar e garantir sua função tomando notas” (Freud, 2001, p. 242). É dessa falta originária da memória viva e interior, por consequência, que decorre a divisão grega entre anamnésis, a memória primeira, psicológica e acessível pela cognição, e seu suplemento: hypómnema, “a memória instrumental, a memória técnica, mnemotécnica, gráfica, iconográfica, em breve fotográfica e áudio-videográfica” (Margel, 2017, p. 128).
Freud (2011) descreve, no entanto, em um curto e sucinto texto, o problema que atravessaria a maior parte das técnicas de hypomnemata: quase nenhuma estaria adequadamente projetada à semelhança do nosso aparelho psíquico. Por um lado, suportes como o papel preservam suas notas por tempo indeterminado, mas rapidamente se exaurem porque, claro, o espaço termina. Uma lousa grafada com giz, ao contrário, pode ter as anotações apagadas sem dano significativo ao suporte e, com isso, receber anotações contínuas, mas não duradouras. Nossa cognição, numa terceira via, “tem ilimitada capacidade de receber novas percepções e cria duradouros — mas não imutáveis — traços mnemônicos delas” (Freud, 2011, p. 243). O modelo adequado de representação do aparelho psíquico seria o simples Bloco Mágico: “uma tabuinha de escrever em que as anotações podem ser apagadas com um simples movimento de mão” (Freud, 2011, p. 244). Feita de cera ou resina, sobre as margens de papelão há uma fina e translúcida folha, presa à cera na parte de cima e livre na parte de baixo. A folha possui duas camadas, sendo a de cima uma película de celulóide transparente e a de baixo um papel encerado.
Ao utilizá-lo, escreve-se na película com um estilete que arranha a superfície, mas não age diretamente na cera. Ao invés disso, “pressiona o verso do papel encerado contra a tabuinha de cera, nos locais em que toca, e as ranhuras tornam-se visíveis como caracteres escuros” (Freud, 2011, p. 244). Levantando cuidadosamente a folha de celulóide, o contato do papel encerado com o fundo do aparelho é desfeito. A inscrição se apaga e o bloco fica vazio, mas com um detalhe: levantando a cobertura inteira, celulóide e papel de cera, se percebe que o que foi escrito segue grafado ao fundo da tábua e, em iluminação adequada, pode ser lido. Essa seria precisamente a forma de operação da nossa memória:
Nós possuiríamos um sistema Pcp-Cs, que acolhe as percepções mas não conserva traço duradouro delas, podendo se comportar como uma folha em branco diante de cada nova percepção. Os traços duradouros das excitações recebidas se produziriam em “sistemas mnemônicos” situados por trás dele (Freud, 2011, p. 243).
Indo além, Freud propõe que a consciência resulta de um funcionamento descontínuo do sistema perceptivo: ele é periodicamente ativado pelo inconsciente para captar estímulos e imediatamente desativado, deixando apenas seus traços na memória profunda, continuamente grafados uns sobre os outros. Essa pulsação explicaria a seletividade da percepção e seria perfeitamente figurada por uma operação do Bloco Mágico em que, de maneira intermitente, uma mão escreve e a outra levanta a folha de cobertura. De toda forma, a partir desse modelo baseado em um peculiar instrumento de inscrição, a psicanálise demarca sua concepção de um “arquivo psíquico” (Derrida, 2001, p. 31). Nele, segundo a leitura derrideana, constitui-se numa espécie de exterioridade mesmo no interior — um “exterior doméstico”, que “não se reduz nem a mneme nem a anamnesis” (Derrida, 2001, p. 119), baseado portanto numa superfície sem a qual “não há nem consignação, registro ou impressão nem repressão, censura ou recalque” (Derrida, 2001, p. 31).
O modelo freudiano da memória, na leitura de Derrida, é resultado direto da opção de descrevê-lo à exemplo do Bloco Mágico e não de outras técnicas que lhe eram contemporâneas. A partir disso, o filósofo franco-argelino levanta, retoricamente, duas hipóteses irredutíveis uma à outra: (1) a mudança nas técnicas de arquivamento levaria a um “progresso contínuo na representação” do aparelho psíquico; ou (2) a mudança nas técnicas de arquivamento faria com que o aparelho psíquico fosse diretamente afetado por esses dispositivos. Qualquer que fosse a resposta, a premissa de fundo é a mesma: uma mudança nas tecnologias mediais descritas por Freud ou no ambiente midiático no qual escreveu não ocasionaria apenas um ajuste no estatuto de conservação de uma história da psicanálise que se desenrolaria da mesma forma, mas uma transformação radical no seu próprio arquivo e, assim, em todo o pensamento do século XX. Nisso, Derrida se enreda em uma empreitada até então inédita, como nota Elsaesser (2009), de ler Freud como um teórico da mídia que haveria enfim sistematizado a tomada da memória como um aparelho de inscrição e armazenamento.
Referências
DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
ELSAESSER, Thomas. Freud as a media theorist: Mystic Writing Pads and the matter of memory. Screen, Oxford, v. 50, n. 1, p. 100–113, 2009.
FREUD, Sigmund. Nota sobre o “Bloco Mágico” (1925). In: FREUD, Sigmund. O eu e o id, autobiografia e outros textos (1923–1925). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
KITTLER, Friedrich. Gramofone, filme, typewriter. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2019.
MARGEL, Serge. Arqueologias do fantasma (técnica, cinema, etnografia, arquivo). Belo Horizonte: Relicário, 2017.
PARRET, Herman. Vestige, archive et trace: présences du temps passé. Protée, v. 32, n. 2, p. 37–46, 2004.
PLATÃO. Teeteto; Crátilo. Belém: Universidade Federal do Pará, 1988.
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