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Pra tudo começar na quinta-feira 

Por Édson Dutra

Outro dia, rolando o feed do Instagram, me deparei com um post – recomendado pelos algoritmos da vida – que trazia um vídeo de um menino fazendo o seguinte questionamento: “Como eu faço para explicar, para quem não é da bolha do carnaval, que agora eu não estou em 2026, mas sim em 2027? Que 2026 já terminou e que estou vivendo os primeiros passos de 2027?”. O vídeo traz um questionamento irônico e divertido, que brinca com o rito de quem vive o carnaval de escola de samba no Brasil. Aquela máxima de que “o ano só começa depois do carnaval” é real para aqueles que participam do universo carnavalesco, mas com este pequeno detalhe: o ano novo que começa é o seguinte, e não o corrente.

Esta brincadeira faz lembrar o samba enredo que Martinho da Vila compôs para a sua Unidos de Vila Isabel no carnaval carioca de 1983. “Para Tudo se Acabar na Quarta-Feira” fala sobre o processo de criação do desfile de uma escola de samba, que perpassa os meses do ano através da escolha do enredo, da composição do samba, elaboração de fantasias e alegorias, ensaios, preparação dos destaques, o grande momento do desfile nos dias de carnaval. E que tudo isso se acaba na quarta-feira de cinzas…

A grande paixão, que foi inspiração

Do poeta é o enredo

Que emociona a velha guarda

Lá na comissão de frente como a diretoria

[…]

O sambista é um artista

E o nosso Tom é o diretor de harmonia

Os foliões são embalados

Pelo pessoal da bateria

Sonho de rei, de pirata e jardineira

Pra tudo se acabar na quarta-feira […]

A quarta-feira de cinzas, a grosso modo, podemos dizer que é o dia 31 de dezembro dos carnavalescos. A finalização do carnaval, do ápice da disputa na avenida, a revelação do resultado de um trabalho de um ano inteiro. E se a quarta-feira de cinzas é o dia 31 de dezembro, a quinta-feira é o primeiro do ano novo, o começo de uma nova etapa de organização carnavalesca. Tudo começa na quinta-feira… Assim, dando partida para o “pensar o próximo carnaval” e, mais do que isso, repensá-lo enquanto história e seus agentes (trans)formadores, que o historiador Luiz Antônio Simas, e o jornalista Fábio Fabato, lançaram, em 2015, o livro “Pra Tudo Começar na Quinta-Feira: o Enredo dos Enredos”, que ganhou segunda edição revisitada e ampliada neste ano de 2026.

Luiz Antônio Simas é um dos grandes expoentes dos estudos sobre cultura afro-brasileira, sobretudo o samba e a religiosidade afro, nos últimos anos. Professor, compositor e escritor vencedor do Prêmio Jabuti, Simas destaca-se também pelas conhecidas aulas abertas em praças e espaços públicos, além de vasta produção literária sobre a história social do Brasil sob a ótica de quem vivencia as ruas, os terreiros e as periferias urbanas. A forma como Simas discorre sobre suas pesquisas e conhecimentos trama um caminho que envolve leitores e espectadores atentamente. Trama esta que se encontra também com o caminho do jornalista e escritor Fábio Fabato, exímio conhecedor das escolas de samba (tal qual Simas) e que dedica parte de sua obra à falar sobre a vida destas escolas. Fabato tem, entre suas principais criações, a série de livros chamada “Famílias do Samba”, onde resgata a história de cada uma das principais escolas de samba do carnaval carioca. O “biógrafo” das escolas também é comentarista de carnaval para diversos veículos de comunicação. 

Os estilos de Simas e Fabato se misturam, criando uma narrativa única, onde a cada página é possível vislumbrar a história, os personagens, as situações e o desenrolar dos fatos num ritmo leve, contínuo. No livro, o enredo é muito mais que componente do desfile carnavalesco. Ele é a própria história das escolas de samba no carnaval do Rio de Janeiro, o berço desta manifestação cultural. Os autores defendem a ideia de que a estética do desfile – visual, discursiva, argumentativa – é calçada inteiramente na produção do enredo, da sua intencionalidade e potência (afetiva, cultural, política). Assim, o enredo passa a ser o fio condutor de um importante registro literário sobre o desfile das escolas de samba cariocas, tendo duas perspectivas bem marcantes: a evolução dos desfiles das escolas de samba e os artistas carnavalescos que moldaram este espetáculo considerado o maior a céu aberto do mundo.

A escola de samba, desde seu surgimento nos primeiros anos da década de 1920, sempre foi espaço orgânico que dialoga diretamente com a sociedade e suas constantes mudanças. Este diálogo acontece tanto pelo seu corpo formador – de origem negra e periférica em sua maioria – quanto pela sua produção artística e intelectual. E sobre este último ponto, destaca-se o papel do enredo, a narrativa da história a ser contada na avenida através dos desfilantes, de fantasias, alegorias, ritmo e dança.

Desde as primeiras páginas, os autores apresentam ao leitor a proposta de olhar o carnaval, seus sambas e enredos como dispositivos possíveis e palpáveis de observação estética, ideológica, além de afetiva. A narrativa das escolas de samba é construída com vigor e seriedade mas sem o peso do academicismo, mantendo o olhar e encanto populares atribuídos à elas. É a história das escolas de samba – e seus agentes criativos – contando histórias ao longo dos quase cem anos de desfiles. O texto traz uma linguagem acessível ao grande público, numa medida bem pensada que mescla o erudito e o popular sem fugir da naturalidade de uma conversa entre amigos. Mais do que um livro voltado para aqueles que vivem o carnaval, é um livro que abraça todos aqueles interessados, sobretudo, na cultura popular.

A escola de samba e suas histórias fazendo História

A primeira parte do livro já apresenta no nome o fio condutor do passeio literário: A inspiração do poeta é o enredo. Com esta premissa, os autores discorrem sobre a história das escolas de samba e o ingresso destas nos festejos carnavalescos, que culmina com a primeira competição oficial de escolas de samba do país, em 1932, promovida pelo jornal Mundo Esportivo. O desfile das escolas de samba transforma o cenário cultural do Rio de Janeiro, então capital nacional, e também reflete em decisões políticas.

Tudo isso porque, conforme mostram os autores, o governo enxerga nas escolas de samba, potentes instrumentos de arregimentação popular, uma forma de expandir suas ferramentas de controle social. O passo a passo da influência política no carnaval das escolas de samba e a constante necessidade de adaptação das escolas de samba às tensões das mais diversas ordens (políticas, sociais e também culturais) são mostradas de forma clara, sem a máscara para disfarçar um carnaval perfeito. Pelo contrário, Simas e Fabato fazem questão de frisar que as escolas de samba estão totalmente inseridas num ambiente de alta disputa de narrativas, que segue pulsante desde o primeiro desfile oficial. 

E a imprensa teve papel fundamental neste processo de disputa e expansão do carnaval carioca, principalmente após o ingresso da televisão para a transmissão dos desfiles a partir dos anos 70. O livro destaca que o gigantismo alcançado pelas apresentações carnavalescas na avenida teve a projeção da imagem na tela como fator considerável para sua permanência nos moldes de então. Cresceram os carros alegóricos e fantasias, cresceram as arquibancadas e chegaram os camarotes para autoridades e convidados… Chegou o sambódromo, em 1984, espaço destinado para o desfile das escolas de samba, o primeiro no Brasil e modelo para o país inteiro. 

O gigantismo excessivo e todos os seus impactos são observados pelos autores, que sinalizam que, por vezes, o enredo ficou de lado em detrimento do visual, do luxo pelo luxo, de uma certa panfletagem que tomou conta da festa por um longo tempo, sobretudo na primeira metade dos anos 2000. Enquanto a primeira edição encerrava seus registros no carnaval de 2015, a segunda aborda a retomada da valorização do enredo, que surge justamente a partir de 2016, com novos carnavalescos despontando na festa. E por falar em carnavalescos, são eles quem ganham a vez na narrativa do enredo da segunda parte do livro.

Os carnavalescos ganham papel de destaque

“Artistas do povo”. É assim que se chama a segunda parte do livro, dedicada aos carnavalescos que marcaram a história dos desfiles das escolas de samba. Na verdade, muito mais do que simplesmente marcar a história, estes artistas deram o tom de como os desfiles seriam e são, até hoje. Referências na projeção de alegorias e fantasias, na perspicácia do argumento, no trabalho de cores, na intencionalidade do desfile, na revolução das ideias que reverberam para além da passarela. 

Simas e Fabato apresentam nomes fundantes deste ofício que se tornou fundamental dentro da escola de samba. O carnavalesco, enquanto profissional que pensa, cria e executa o carnaval de uma escola de samba, não surge de imediato dentro deste universo. Ele aparece mais de 30 anos depois do primeiro desfile oficial. No entanto, os autores tratam de apresentar estes profissionais não como artistas que aportam “do nada” na escola de samba e fazem seu trabalho. O retrato dedicado a estas pessoas é de total proximidade, mostrados como legítimos artistas surgidos do povo, “gente como a gente” que, a partir do seu talento, consegue marcar seu espaço neste universo onírico.

Ainda no início da primeira parte, a figura de Fernando Pamplona é destacada como sendo o “Pai de Todos”. Cenógrafo do Theatro Municipal, Pamplona foi jurado dos desfiles, ainda na década de 50, e foi o responsável por reunir e lançar os talentos fundantes dos estilos carnavalescos que marcaram – e marcam – a festa até hoje. Verdadeiros intelectuais da avenida – e da cultura popular brasileira – nomes como Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta, Rosa Magalhães, Maria Augusta Rodrigues, Fernando Pinto, Renato Lage, Viriato Ferreira, Max Lopes e Oswaldo Jardim, entre outros, surgem como incríveis gênios da arte. Parcerias, vitórias, derrotas e fofocas à parte – sim, o livro também traz histórias curiosas do “disse me disse” dos bastidores carnavalescos – as criações destes artistas persistem até hoje, gerando seguidores e inspirando artistas da nova geração.

O livro é perspicaz ao trazer um destaque para Paulo Barros, o carnavalesco que mudou os rumos estéticos da festa nos primeiros anos da década de 2000, ao se destacar pelos enredos de temática abstrata e pelas alegorias humanas. A imagem do carro alegórico do DNA rodou o mundo. A chegada de Barros provocou frisson e dividiu opiniões. Desfile de carnaval ou parada da Disney? Eis a questão. O fato é que a chegada de Paulo Barros coincide com um momento delicado dos desfiles. É o auge dos enredos patrocinados por cidades, Estados e países, grandes marcas, personalidades e artistas que, embora tenham alcance popular, estão fora do mundo do samba. Desfiles com muito luxo e pouca mensagem, sambas enredo que duram apenas os 60 minutos de desfile e após o fim da apresentação, ninguém mais lembra. A festa estava rumando para um grande balcão de negócios.

É neste contexto que o livro aborda os carnavalescos que despontam a partir de 2016,  provocando novas revoluções e adaptações à festa, mostrando que o desfile das escolas de samba é orgânico, se reinventa e renova o fascínio do público. Assim, Leandro Vieira, Leonardo Bora e Gabriel Haddad, Tarcísio Zanon e João Vitor Araújo recebem suas menções como discípulos dos grandes mestres, mas também como verdadeiras potências de inventividade artística e resistência cultural. 

A segunda parte do livro ainda apresenta uma homenagem emocionante para três grandes mulheres que fizeram história na criação dos desfiles das escolas de samba: Maria Augusta Rodrigues, Márcia Lage e Rosa Magalhães. Cada uma à sua maneira, marcaram a avenida. Todas já falecidas, ainda são veneradas por suas criações e também levadas como bandeira para que o espaço feminino na ponta da criação carnavalesca não se perca.

O carnaval e sua dimensão política

Algo que já estava disposto na primeira edição mas que nesta segunda ganha um olhar mais apurado dos autores é a percepção do carnaval como um significativo espaço político. Desde a escolha dos enredos até passando pelos versos dos sambas, as escolas de samba nunca foram neutras ao passar da história. Pelo contrário, sempre buscaram manter viva a narrativa de elementos ligados à cultura afro-brasileira, pessoas e fatos ignorados pela história oficial.

Justamente estas escolhas carregam simbolismos importantes, principalmente em períodos onde a cultura popular foi duramente atacada e reprimida. Há o cuidado dos autores de não encaixar o desfile da escola de samba como mero instrumento ideológico, mas sim um espaço de negociação de imaginários, memórias e conflitos. A valorização da religiosidade afro-brasileira é um exemplo deste processo. Ao longo dos anos, a própria mídia por vezes tratou de embranquecer os desfiles, tirando-lhes o peso da importância do maciço contingente negro de exaltar suas raízes e ancestralidade. No entanto, os autores destacam que os últimos anos têm nos apresentado movimentos de resistência à estas ações, servindo como pontos de resgate da valorização e reparação histórica da cultura afro-brasileira no país. É a tentativa de reconexão do carnaval com as suas raízes.

Apropriação do que é nosso

Mais do que mostrar como os enredos funcionam, os autores destacam os porquês dos enredos serem importantes – não apenas para a escola de samba, mas para entender um pouco mais do Brasil sob uma ótica cultural. É onde o país é passado a limpo, personagens marginalizados ganham destaque, a história oficial é desafiada, onde a sociedade é debatida e refletida com ironia, leveza ou denúncia. 

O livro, acima de tudo, entrega ao leitor um breve histórico de uma das manifestações culturais mais marcantes deste país. O “país do carnaval” necessita se apropriar da sua própria cultura – reconhecida internacionalmente. Embora a base da narrativa do livro seja o universo do carnaval carioca e seus nomes e referências, é válido ao leitor esta aproximação do cerne do carnaval de escola de samba. É possível identificar que a partir do carnaval carioca, este mecanismo cultural chamado escola de samba se espalha por todo o país, perpetuando a mesma forma de apresentação, de contação de história, a mesma linguagem narrativa com alas, fantasias, carros alegóricos e samba enredo como trilha. Modelo este que se espalhou pelo mundo, ganhando espaço de destaque em países da Europa e no Japão!

Esta nova edição apresenta-se como importante fonte de estudo para aqueles que pesquisam sobre carnaval. Mas, para além, é um verdadeiro convite à interpretação contemporânea da cultura popular brasileira.

Referências

SIMAS, Luiz Antonio; FABATO, Fabio. Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Mórula, 2026.

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