Pequenos laboratórios da atenção
Por Danielle Miranda

I
Inicialmente, pensei que este texto seria uma resenha tradicional. O objetivo seria sugerir a leitura de Laboratório estético de atenção: o cultivo da atenção conjunta, organizado por Virgínia Kastrup e Luciana Caliman (2025, Editora CRV). O livro partilha com os leitores a experimentação de conceitos relacionados à atenção na contemporaneidade por meio de proposições poéticas realizadas em grupo, em sala de aula, no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O Laboratório estético de atenção busca sustentar a complexidade da tarefa relacionada a atenção e aposta na potência de um dispositivo grupal para novas configurações mais cuidadosas da atenção na sua relação com o mundo, com as pessoas e de cada um consigo mesmo.
Kenneth Rogers (2024) define como o “complexo da atenção” um regime de poder que articula diferentes campos do conhecimento, interesses econômicos, tecnologias digitais, indústria farmacêutica, agendas ideológicas, políticas, pedagógicas e de saúde. O complexo atencional mantém relações estreitas com o mundo dominado pelo capital, pelo colonialismo, pelo patriarcado, pelo capacitismo e que de diversas formas condiciona o que deve ser visto, notado, atendido e valorado coletivamente. (KASTRUP; CALIMAN, 2025, p.9)
Além de discutir criticamente um diagnóstico da atenção na contemporaneidade, os diversos autores relatam atividades realizadas em sala de aula para “chegar no próprio corpo”, tendo em vista que, com a aceleração do dia a dia, nem sempre estamos de fato presentes na experiência. Há um conjunto de atividades com o propósito de produzir uma desaceleração cognitiva e experimentar a abertura dos corpos para sua multissensorialidade.
uma atenção dotada de espessura
uma atenção encarnada
O livro coloca o desafio de construção de uma perspectiva ampliada do problema atual do entrelaçamento entre atenção e tecnologias digitais, na medida em que a subjetividade contemporânea é marcada pela presença maciça em nossas vidas, reguladas majoritariamente pelo que Jonathan Crary (2023) denomina “complexo informático”. Para Kastrup e Caliman (2025), as tecnologias digitais são projetadas para abolir o tempo e suscitar a ilusão de instantaneidade, produzindo subjetividades marcadas pelo imediatismo sensório-motor, em que prevalece uma grande limitação temporal, espacial e material. A extrema velocidade das conexões online, para as autoras, tem relação indissociável com o capitalismo, que se nutre do sentimento de urgência que molda o mundo do trabalho e a relação entre as pessoas. Simultaneamente à realocação da vida social, econômica e privada para as plataformas digitais, o complexo atencional contemporâneo torna obsoleto o tempo cronológico e o tempo em sua dimensão de duração, presente na atenção sustentada, na atenção refletida e no acionamento do pensamento e do desejo.

II
Desde a primeira semana de 2026 tenho colocado em prática um acordo comigo: não utilizar o Instagram pela manhã, muito menos ao acordar. O foco não é uma disciplina de produtividade, nem um detox digital, mas uma tentativa de experimentar outra espessura temporal. Principalmente, de adiar diariamente o contato com os modos de atenção alerta e dispersos que ambientes como o Instagram convocam: uma atenção intensa e breve, em volume alto, excitada, com muitas opiniões, mas incapaz de sustentar duração. As plataformas digitais não disputam apenas nosso tempo; disputam as condições mesmas de duração da experiência.
A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza da experiência. O que caracteriza o nosso mundo? Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara. (LARROSSA BONDÍA, 2002, p. 21)
a atenção sustentada requer um nível elevado de engajamento
nem scrool, nem métricas
nos faz observar, ficar, habitar
habitar = morar e de-morar
aquele que habita transforma-se em criador de lugares
III
Lembro aqui de uma micro-experiência estética da atenção que me chega como proposta pelo email há alguns meses e até hoje não a realizei. É simples: o formato “10-Minute Challenge”, do The New York Times, publicado geralmente na primeira segunda-feira de cada mês, com a possibilidade de subscrever um lembrete por e-mail, propõe olhar para uma única obra de arte durante dez minutos inteiros, observar atentamente detalhes, relações formais, texturas, conexões intertextuais produzidas pela obra.

O desafio contraria os regimes acelerados de atenção típicos do ambiente digital. Aparentemente, chega ao nosso e-mail como uma espécie de lembrete delicado para desacelerar o olhar. E aí, entre compromissos e notificações, “10 minutos” hoje parecem excessivos, quase absurdos. Um cronômetro registra quanto tempo permanecemos diante da obra. Até hoje, não concluí 10 minutos em nenhuma, pois sempre decido pular para outra tarefa (mais urgente, mais séria, mais eficiente, mais produtiva).
lentificar
re-parar
sustentar a permanência
sustentar a experiência
A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. (LARROSSA BONDÍA, 2002, p. 24)
Pensar, olhar, escutar mais devagar, tudo mais devagar: aprender a lentidão. O Laboratório estético da atenção diz respeito a cultivar uma atenção sustentada, concentrada e aberta. Resultado de encontros regulares realizados ao longo de dois anos, está claro que o livro e o Laboratório não pretendem opor a vida ativa e vida contemplativa, pois a contemplação envolve engajamento sensível, intelectual e afetivo, além de intensa atividade cognitiva. Um regime atencional envolve um conjunto de gestos articulados; não é apenas uma ação mental, já que a atenção é distribuída por todo o corpo (KASTRUP; CALIMAN, 2025). A partir de Crary (2023), as autoras do livro aqui sugerido discutem como a presença de tecnologias digitais na atualidade é vetor dominante nos processos de subjetivação, que produz efeitos notáveis na cognição contemporânea e colocam problemas, sobretudo, à colonização da percepção na tentativa de regulação ostensiva da nossa atenção. Em oposição a estes modos de atenção, propõem suscitar um adensamento da experiência, criando condições para acionar processos de atenção corporificada. A sua aposta é o encontro com o corpo e o cultivo da atenção conjunta tem um potencial de ativar modos de atenção que vem sendo constantemente limitados e inibidos em nossas experiências online e presenciais.
se deixar impregnar
evitando a interrupção precipitada que é própria da experiência da recognição
suspender
manter a atenção
praticar
abrir frestas (um lugar por onde entra luz)
cultivar
outra existência
mais existência.
Referências
CRARY, J. Terra arrasada. São Paulo: Cosac Naify, 2023.
KASTRUP, V.; CALIMAN, L. (org.). Laboratório estético de atenção: o cultivo da atenção conjunta. Curitiba: Editora CRV, 2025.
LARROSA BONDÍA, J. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 19, p. 20–28, jan./fev./mar./abr. 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?format=pdf&lang=pt&utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 8 maio 2026.
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