Dos cadáveres escondidos na bagagem abandonada
Por Tiago Segabinazzi
Há poucas semanas, defendi minha tese de doutorado, intitulada “O nada, o caos e os signos: imagens de pensamento e a tradução do contemporâneo”. Trabalhei nela nos últimos quatro anos. Durante esse período, muita coisa foi escrita e ficou de fora do texto final; por motivos variados: certas análises não puderam ser terminadas por falta de tempo, alguns ensaios ocupariam muito espaço nas já infladas trezentas páginas e, ainda, outras reflexões, como a que compartilharei a seguir, não pareciam fazer sentido ou acabaram perdendo a pertinência que já tiveram, devido ao rumo que a pesquisa seguiu.
Mais ou menos um ano antes de concluir a tese, me debrucei por várias horas sobre um desses trechos que ficariam pelo caminho. Na época, parecia fundamental abordar uma questão importante para a semiótica e para a filosofia, apesar de não sentir muita segurança em discuti-la: o dinamismo do real e a estabilidade da representação. Era para ser o gatilho da discussão teórico-epistemológica que constituiria a primeira parte de meu trabalho.
Para não perder a concentração, fiquei sem almoçar naquele dia. Comi amendoins e tomei café. Quando cansava de encarar o branco do editor de texto, buscava refúgio na luz amarela que iluminava minha mesa. Foi praticamente um dia de trabalho nisso. Avancei pouco. E o projeto estava atrasado. Depois de fracassar em tentar fazer a tese orbitá-lo, lamentei o tempo investido em um ensaio abstrato e inútil, que sequer pude resolvê-lo para mim mesmo. Leio, hoje, os vários parágrafos a seguir sem reconhecer com nitidez o pano de fundo que os motivou, estranhando as imagens mobilizadas, sem lembrar das frases que havia por escrever e que tornariam coerentes aquelas já escritas. O preço a pagar por ter cedido àquele impulso de curiosidade urgente é ter que viajar novamente para buscá-las sem pressa.
Aquele trecho tinha o seguinte título e assim se desenrolava e enrolava:
Na curva de um rio, rio, rio, rio, rio, rio…
1
Por mais que tenhamos bebido daquela fonte com Heráclito, que entende que o real é devir e movimento, ou seja, que não há como segurar em conceito qualquer essência do empírico (que, por estar condenado a sempre diferir de si mesmo, não a possui), sabemos também que não precisamos entrar na água duas vezes para termos certeza de que iremos nos molhar. Na prática, sequer precisamos saber que iremos nos molhar, basta acreditarmos nisso para agirmos de acordo.
Para fortalecer a crença e facilitar o transporte de uma reflexão como essa heraclitiana, criamos imagens que servem como depósitos e veículos de informação e de experiência: “Nenhum homem pode entrar no mesmo rio duas vezes, pois nem o rio nem o homem se mantêm os mesmos”, disse o pré-socrático. Um signo-parábola desses possibilita que reflitamos com ele sem precisar de conceitos como devir ou essência.
Porém, essa imagem não é como um jarro impermeável que comporta um conteúdo sem perdas para ser despejado em outro lugar. Ao mediar a reflexão, esse jarro também absorve pelos seus poros aquilo que contém, a ponto de se tornar, em alguma medida e cada vez mais, a própria coisa que continha: é assim que se converte numa imagem idolátrica. Bastaria decorar o provérbio e nada mais.
Já que lamber o jarro que absorveu a água não sacia nossa sede, poderíamos criar outro continente para transportar e manter o conteúdo líquido: “para desmanchar profundas verdades bastam águas rasas” – essa imagem, porém, seria pouco útil enquanto depósito de experiência a outras épocas, pois expõe demasiadamente seu conteúdo, a ponto dele se evaporar.
2
Saber se a água do rio segue ou não segue sendo a mesma é uma questão científica, pois trata do objeto de estudo. Saber se nós restamos os mesmos é uma questão filosófica, pois trata do sujeito do conhecimento. A segunda questão é negada em nome da primeira: é suficiente supor que vamos nos molhar, logo, pouco importa o que nos tornaríamos.
A perspectiva objetiva, que olha para as modificações do mundo sem se importar se continuamos os mesmos, é a utilitária. A que é ignorada, que trata do autoconhecimento e do humanismo, é a inútil. É uma hierarquia que se estabelece ao natural.
O sujeito do conhecimento não precisa ser conhecido nem questionado se houver mudança constante dos objetos ao seu redor. A curiosidade foi monopolizada pelo que é útil. Para tornar o inútil algo útil, restou aos filósofos, aos poetas e à toda sorte de questionadores de si ocupar o espaço intermediário entre os sujeitos e os objetos: tiveram que se tornar artistas, redatores e, com o tempo, influenciadores.
No episódio que ficou conhecido como A silenciosa revolta dos intermediários, a imagem do homem e do rio também passou por um rebranding: “a criação das vitrines cria seus observadores”. A modernização do slogan alterou também a relação entre sujeito e objeto.
3
A partir da criação de signos como a reflexão de Heráclito, é possível dizer até mesmo que a realidade não permaneceu a mesma: é um acontecimento cogitar a impermanência em um mundo que sugere a essência, ou que a deseja. A realidade passou a ser uma disputa sobre o que é o real; mas o curioso é que, apesar de essa ser a querela, não é o real que importa, mas seu enquadramento como devir ou como essência.
A maior parte das argumentações que seguiram essa parábola-acontecimento fixaram residência em margens opostas: a ontologia buscava tratar da constituição do rio e a epistemologia se interessava por quem poderia mergulhar nele. Nessa tensão residem as condições de possibilidade do conhecimento: se o sujeito e o objeto estão em constante devir, não há como repetir experiência alguma, não há como fazer ciência moderna sem ser hipócrita.
Ora, mas será mesmo que se tratava de ter certeza quanto à impermanência do real? Se nos concentrarmos naquilo que sequer teve intenção de resolver o irresoluto, ou seja, se apenas olharmos para a polêmica, veremos claramente a mão de Heráclito, mas perdemos de vista o que ele estava a apontar.
Havia uma terceira margem do rio, dizem, onde signos transparentes refletiam luzes de origem desconhecida. Correspondendo ou não àquilo que anunciavam, foram tomados como veículos de informação que poderiam abrigar algum conteúdo significativo; porém, como nunca transportaram nada nem chegaram a qualquer lugar, esses sinais se tornaram a coisa em si, destinada a estar além.
A realidade, tanto na zona da essência quanto no imperialismo do devir, não restou a mesma após a aparição do que era certeiro, porém ainda indecifrável. Visto da segurança das margens da essência e do devir, se tornou signo da loucura.
Quando Heráclito apontou para a impermanência, seu gesto maior não foi o de negar a possibilidade da essência: com o indicador inequivocamente em direção ao objeto, mas com os outros três dedos espontaneamente se revolvendo para a palma da mão, sua maravilha era perceber que imagens imóveis insistiam em emanar do tal fluxo do devir – que, ao ser chamado assim, já não se parecia mais com o interregno inominável que se estendia entre as duas margens, “rio abaixo, rio a fora, rio adentro”.
4
Para fazer ciência, é preciso fazer na pergunta que era filosófica um giro pragmático: se as coisas estão em um eterno deixar-de-ser, como podemos dizer qualquer coisa delas? Como podemos criar signos minimamente pertinentes? Como imagens de pensamento captam o caos do contemporâneo sempre em mudança?
A entropia faz com que o universo se expanda e se desfaça na velocidade da luz – ou com ainda maior velocidade ou força ou seja lá o que for esse mistério que ocorre no interior dos buracos-negros que pacientemente desintegrarão tudo que não for eles mesmos. Como podemos, apesar desse constante deixar-de-ser do universo, ainda olhar para cima e encontrar as mesmas constelações e que guiaram nossos ancestrais?
Se o mundo está em devir, como signos são possíveis? Será pela insistência daquilo que chamamos razão em acreditar mais no quanto uma estrela já brilhou do que em seu estado atual – da mesma forma que se olha mais para o rótulo de um vinho do que para aquilo que desce pela garganta? Para isso, teríamos que admitir que o mundo é outro e que continuamos a acreditar em coisas mais antigas do que aquilo em que ele se tornou.
Nesse ponto confuso, tive uma certeza: estou fugindo do escopo da tese.
Você pode gostar
UMA DRAG QUEEN VITRUVIANA
16 de junho de 2026
Da linguagem do corpo à potência de sua significação
24 de março de 2026