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Cultivo algorítmico: uma reflexão interdisciplinar sobre a modulação da subjetividade nas redes sociais digitais

Por Vinícios Serrão

Fonte: Elaborada por meio de IA

1. Introdução

Passar aproximadamente nove horas por dia conectado à internet, como ocorre com a população brasileira, significa permanecer uma parcela expressiva da experiência cotidiana imersa em um ambiente digital que atravessa relações sociais, práticas culturais, formas de trabalho, consumo, entretenimento e processos de construção da subjetividade. A internet deixa, assim, de representar apenas um instrumento de comunicação para assumir características de um espaço existencial no qual afetos, percepções, crenças, hábitos e modos de agir são continuamente produzidos, reorganizados e reforçados. Quando a experiência humana passa a ser vivida de forma intensa dentro de uma arquitetura comunicacional permanentemente conectada, torna-se pertinente compreender esse ambiente como um agente ativo na formação do sujeito.

Esta reflexão reúne contribuições da comunicação, da psicanálise, da neurociência, da filosofia e da sociologia para discutir como as redes sociais digitais participam da produção contemporânea da subjetividade. O conceito de bios midiático, desenvolvido por Muniz Sodré (2002, 2006), oferece a compreensão da internet como uma nova forma de vida social; a teoria do ambiente facilitador, de Donald Winnicott, permite compreender como os ambientes moldam o desenvolvimento emocional; a teoria do cultivo, de George Gerbner, evidencia o papel da repetição midiática na construção da percepção da realidade; enquanto os estudos sobre neuroplasticidade, repetição psíquica e sociedades de controle ampliam a compreensão acerca dos mecanismos pelos quais os ambientes digitais reorganizam disposições cognitivas, emocionais e comportamentais. A articulação desses referenciais conduz à noção de cultivo algorítmico, compreendido como um processo permanente de modelagem da experiência realizado pela arquitetura computacional das plataformas digitais.

2. O bios midiático e a constituição do ambiente digital 

O conceito de bios midiático, elaborado por Muniz Sodré, parte do entendimento de que a mídia deixou de funcionar apenas como um canal de transmissão de mensagens para constituir um ambiente que reorganiza a própria experiência social. A mediação tecnológica transforma as relações entre tempo, espaço, identidade e sociabilidade, fazendo com que grande parte da existência cotidiana passe a ocorrer dentro de fluxos contínuos de imagens, informações e conexões digitais. As redes sociais deixam de ocupar uma posição periférica na vida social e passam a integrar o próprio modo como os indivíduos percebem o mundo, constroem vínculos e atribuem sentido às suas experiências. Essa reorganização da vida cotidiana modifica profundamente a produção da subjetividade. 

O bios midiático constitui uma recriação tecnológica do ethos social, reorganizando hábitos, sensibilidades, formas de cognição e padrões afetivos segundo uma lógica marcada pela circulação permanente de conteúdos e pela valorização da visibilidade. O sujeito passa a viver simultaneamente em uma realidade material e em uma realidade continuamente reconstruída por imagens, narrativas e interações digitais. A internet converte-se, assim, em uma ambiência existencial cuja influência ultrapassa a comunicação propriamente dita para alcançar os modos de sentir, interpretar e habitar o mundo. “Uma realidade imaginarizada, isto é, feita de fluxos de imagens e dígitos, que reinterpretam continuamente com novos suportes tecnológicos às representações tradicionais do real” (Sodré, 2006, p.122)

Nesse contexto, Sodré (2006) destaca que a gestão das emoções ocupa posição estratégica na organização da vida social contemporânea. As mídias operam sobre afetos capazes de mobilizar pertencimentos, produzir identificações coletivas e orientar comportamentos. Emoções como medo, indignação, entusiasmo e pertencimento deixam de surgir apenas das experiências imediatas para serem continuamente alimentadas por narrativas, símbolos e imagens cuidadosamente distribuídas. A história demonstra que diferentes regimes políticos recorreram à exploração sistemática dos afetos como instrumento de organização social, indicando que a manipulação emocional constitui uma tecnologia de poder muito anterior ao ambiente digital, embora encontre nas plataformas contemporâneas condições técnicas incomparavelmente mais sofisticadas.

As redes sociais ampliam essa capacidade de modulação afetiva ao incorporarem algoritmos capazes de monitorar continuamente os comportamentos dos usuários e reorganizar os fluxos informacionais em tempo real. A experiência digital deixa de ser determinada apenas pelas escolhas conscientes do indivíduo e passa a resultar de processos automáticos de seleção, recomendação e personalização que definem aquilo que será visto, compartilhado e valorizado. Informação, entretenimento, consumo e sociabilidade passam a convergir em um mesmo ecossistema comunicacional, transformando a atenção em um recurso continuamente explorado. A consequência é a formação de ambientes altamente responsivos que retroalimentam preferências anteriores e produzem experiências progressivamente personalizadas, estabelecendo as bases do que pode ser compreendido como um cultivo algorítmico da subjetividade.

3. O ambiente facilitador e a plasticidade da experiência humana

A compreensão do ambiente digital como espaço de formação da subjetividade aproxima-se da teoria do ambiente facilitador desenvolvida por Donald Winnicott (2024 [1971]). Para o psicanalista, o desenvolvimento emocional não decorre exclusivamente de disposições internas do indivíduo, mas da qualidade das relações estabelecidas com o ambiente ao longo da vida. Desde os primeiros momentos da existência, o sujeito depende de um ambiente suficientemente bom para integrar experiências, desenvolver espontaneidade e consolidar um sentimento de continuidade do ser. Embora essa dependência absoluta diminua com o amadurecimento, o ambiente jamais deixa de exercer influência sobre a organização psíquica. Ao contrário, a criatividade, a autonomia e a autenticidade permanecem continuamente relacionadas às condições ambientais nas quais o indivíduo vive. Essa perspectiva permite compreender que as redes sociais digitais, devido à intensidade de sua presença na vida cotidiana, participam ativamente dos processos de desenvolvimento subjetivo.

As contribuições da neurociência fortalecem essa interpretação ao demonstrar que o cérebro permanece em constante reorganização diante das experiências vividas. António Damásio (2012 [1996]) mostra que os circuitos neurais são continuamente modificados pela interação entre organismo e ambiente, tornando a experiência um elemento estruturador da arquitetura cerebral. Esse processo, posteriormente denominado neuroplasticidade (Estanislau, 2023), revela que pensamentos, emoções, hábitos e formas de percepção não permanecem estáticos, sendo continuamente reorganizados conforme os estímulos recebidos. A plasticidade cerebral confere ao ambiente um papel decisivo na consolidação de padrões cognitivos e afetivos, pois experiências reiteradas fortalecem determinadas conexões neurais enquanto outras tendem a enfraquecer. O cérebro, portanto, incorpora a história das experiências vividas, convertendo a repetição em um mecanismo biológico de aprendizagem e adaptação.

Quando se articulam as formulações de Sodré, Winnicott (2024 [1971]) e Damásio (2012 [1996]), torna-se possível compreender o ambiente digital como um ecossistema capaz de produzir efeitos simultaneamente culturais, psíquicos e neurobiológicos. O bios midiático organiza práticas sociais; o ambiente facilitador evidencia a importância da qualidade das experiências para a constituição do self; e a neuroplasticidade explica como essas experiências deixam marcas relativamente duradouras na organização cerebral. As redes sociais deixam de representar apenas plataformas de comunicação para constituírem ambientes de desenvolvimento permanente, nos quais milhares de interações diárias participam da reorganização dos processos de atenção, memória, percepção, emoção e tomada de decisão. Quanto maior o tempo de exposição, maior tende a ser a influência desse ambiente sobre a consolidação de padrões subjetivos relativamente estáveis.

Winnicott (2024 [1971], p. 170) afirma que “o ambiente suficientemente bom (…) é absolutamente essencial para o desenvolvimento natural do ser humano”. Aquilo que ele chama de self verdadeiro é resultado desse ambiente que facilita o desenvolvimento de uma personalidade dotada de espontaneidade, criatividade e riqueza. Um ambiente que não contribui para a formação do eu, desenvolve um ‘falso self’, estruturado “sobre uma base de submissão e se relaciona com as exigências da realidade externa de forma passiva” (Winnicott, 2024 [1971], p. 142). A organização do falso self é uma consequência do fracasso da adaptação ativa, que no caso dos bebês, se dá por meio da mãe (pai ou outro cuidador) ao ‘falhar ‘no cuidado e/ou na castração da criança, nos estágios iniciais do desenvolvimento emocional.

Sob essa perspectiva, os algoritmos passam a desempenhar uma função comparável à mediação exercida pelo ambiente descrito por Winnicott, porém, estimulando a criação de um self falso, não espontâneo. Nesse contexto, os algorítimos organizam os encontros possíveis, selecionam experiências, regulam a visibilidade dos conteúdos e determinam quais estímulos serão continuamente apresentados ao usuário. Diferentemente do ambiente suficientemente bom, cuja finalidade consiste em favorecer o amadurecimento emocional mediante um equilíbrio entre proteção, liberdade e frustração, a arquitetura algorítmica é orientada prioritariamente pela maximização do tempo de permanência, do engajamento e da rentabilidade econômica das plataformas. A adaptação permanente às preferências previamente registradas reduz o contato com a alteridade, diminui a imprevisibilidade da experiência e enfraquece oportunidades de elaboração simbólica produzidas pelo encontro com o diferente. Em vez de ampliar progressivamente a autonomia do sujeito, o ambiente digital tende a consolidar circuitos de confirmação, reconhecimento e satisfação imediata, estabelecendo condições favoráveis para a formação de uma subjetividade continuamente modulada pelos mecanismos de personalização algorítmica.

4. Cultivo algorítmico, repetição e controle emocional

A teoria da cultivação, desenvolvida por George Gerbner et al (2022), oferece uma importante chave interpretativa para compreender os efeitos cumulativos da exposição prolongada aos meios de comunicação sobre a percepção da realidade. Ao investigar durante décadas a programação televisiva, Gerbner demonstrou que a influência da mídia não decorre de mensagens isoladas, mas da recorrência de determinados padrões narrativos que, lentamente, passam a estruturar a maneira como os indivíduos interpretam o mundo. A televisão cultivava percepções relativamente homogêneas porque expunha milhões de pessoas às mesmas narrativas. No ambiente digital, entretanto, esse processo adquire uma configuração inédita. A repetição permanece sendo o principal mecanismo de cultivo, porém deixa de ser uniforme para tornar-se personalizada, dinâmica e continuamente ajustada pelos algoritmos, configurando aquilo que pode ser denominado cultivo algorítmico.

O cultivo algorítmico corresponde à reorganização permanente da experiência digital por sistemas computacionais que aprendem continuamente com o comportamento do usuário. Cada curtida, comentário, compartilhamento, tempo de permanência, pausa durante a rolagem da tela ou clique constitui um dado incorporado pelos algoritmos para antecipar interesses futuros e reorganizar o ambiente informacional. O resultado é um circuito de retroalimentação no qual o sujeito encontra repetidamente conteúdos compatíveis com suas preferências anteriores, produzindo uma experiência progressivamente previsível e afetivamente confortável. A arquitetura algorítmica reduz a diversidade de experiências ao privilegiar informações estatisticamente mais capazes de manter a atenção, transformando a repetição em uma tecnologia de estabilização perceptiva. O ambiente digital passa, assim, a cultivar formas específicas de interpretar acontecimentos, pessoas, valores e emoções, favorecendo a consolidação de determinadas disposições subjetivas.

A eficácia desse processo torna-se ainda mais evidente quando considerada à luz da neuroplasticidade. Como demonstram Damásio (2012 [1996]) e os estudos contemporâneos da neurociência, experiências repetidas fortalecem circuitos neurais específicos, tornando determinadas formas de perceber, sentir e responder progressivamente mais acessíveis e automáticas. A repetição algorítmica deixa de representar apenas uma estratégia comunicacional para converter-se em um mecanismo que incide sobre processos biológicos de aprendizagem. Quanto maior a frequência com que determinados estímulos são apresentados, maior tende a ser o fortalecimento das redes neurais associadas a eles. O cultivo algorítmico encontra, portanto, na plasticidade cerebral uma condição privilegiada para consolidar hábitos cognitivos, repertórios emocionais e padrões de interpretação da realidade. A arquitetura digital deixa de apenas distribuir informações para participar continuamente da reorganização dos processos atencionais, afetivos e comportamentais dos indivíduos.

Essa dinâmica produz importantes consequências para o controle emocional exercido pelas plataformas digitais. A repetição contínua de conteúdos que despertam indignação, medo, entusiasmo, pertencimento ou recompensa fortalece circuitos emocionais específicos e aumenta a probabilidade de que determinadas respostas afetivas se tornem habituais diante de novos acontecimentos. Paralelamente, os algoritmos selecionam conteúdos capazes de maximizar o engajamento exatamente porque emoções intensas prolongam o tempo de permanência e ampliam a circulação das publicações. O ambiente digital transforma-se, desse modo, em um espaço de treinamento emocional permanente, no qual afetos deixam de emergir exclusivamente das experiências concretas para serem continuamente modulados pela recorrência das mesmas narrativas, imagens e enquadramentos. O controle emocional não decorre apenas do conteúdo consumido, mas principalmente da regularidade com que determinados estados afetivos são reativados, fortalecidos e incorporados aos modos cotidianos de perceber e responder ao mundo. O cultivo algorítmico evidencia, assim, que repetição, neuroplasticidade e arquitetura computacional constituem processos profundamente articulados na produção contemporânea da subjetividade.

5. Da modulação algorítmica à produção da subjetividade contemporânea

As implicações do cultivo algorítmico tornam-se ainda mais evidentes quando observadas sob a perspectiva das sociedades de controle descritas por Gilles Deleuze (1992). Enquanto as sociedades disciplinares organizavam os comportamentos por meio de instituições relativamente fechadas, os ambientes digitais operam através de processos contínuos de modulação. Os algoritmos ajustam permanentemente os fluxos de informação, reorganizam os regimes de visibilidade, acompanham padrões de interação e recalibram continuamente a experiência do usuário, “como uma moldagem auto-deformante que muda continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudam de um ponto a outro” (Deleuze, 1992, p. 221).  O controle deixa de depender de mecanismos coercitivos explícitos para ocorrer mediante pequenas intervenções distribuídas ao longo da experiência cotidiana. Cada recomendação, cada reorganização do feed e cada conteúdo sugerido constituem microajustes que, acumulados ao longo do tempo, orientam a circulação dos afetos, das atenções e das formas de interpretação da realidade. A governamentalidade digital passa a operar sobre probabilidades de comportamento, administrando continuamente os ambientes nos quais a subjetividade é produzida.

Essa dinâmica aproxima-se da compreensão de Gilles Deleuze e Félix Guattari (2010 [1972]) acerca das máquinas desejantes, segundo a qual o desejo participa de agenciamentos sociais, econômicos e técnicos que orientam sua circulação. As plataformas digitais constituem dispositivos que articulam interesses econômicos, tecnologias computacionais e fluxos afetivos em um mesmo circuito operacional. A captura da atenção deixa de representar um objetivo exclusivamente mercadológico para tornar-se um processo permanente de administração do desejo. O reconhecimento social, a expectativa por novas notificações, a antecipação de recompensas simbólicas e a busca incessante por validação alimentam uma dinâmica de participação voluntária que reforça continuamente a adesão às plataformas. O controle emocional emerge, assim, como consequência da incorporação cotidiana dessas rotinas de interação, nas quais prazer, expectativa, pertencimento e reconhecimento passam a ser continuamente administrados pela lógica algorítmica. Nesse sentido, as formulações de António Damásio (2012 [1996]) e Jacques Lacan (1985 [1954-1955]) permitem aprofundar esse processo ao evidenciarem que a repetição constitui uma dimensão fundamental da experiência humana. 

Damásio (2012 [1996]) demonstra que emoções, hábitos e decisões se estabilizam por meio da reativação contínua de circuitos neurais, enquanto Lacan (1985 [1954-1955]) compreende a repetição como um movimento estrutural do sujeito que insiste para além da satisfação imediata. As plataformas digitais exploram simultaneamente essas duas dimensões. De um lado, favorecem a consolidação neurobiológica de hábitos por meio da recorrência dos estímulos; de outro, organizam fluxos informacionais capazes de reencenar continuamente expectativas, desejos e formas de gozo que mantêm o sujeito vinculado ao ambiente digital. A repetição deixa de constituir apenas um mecanismo psíquico ou biológico e converte-se em uma estratégia comunicacional cuidadosamente explorada pelas arquiteturas algorítmicas para prolongar o engajamento e estabilizar padrões de comportamento.

A articulação entre bios midiático, ambiente facilitador, cultivo algorítmico, neuroplasticidade, repetição e controle emocional permite compreender as redes sociais digitais como ecossistemas de subjetivação que atuam simultaneamente sobre dimensões culturais, psíquicas, cognitivas e afetivas da experiência humana. O ambiente digital organiza as condições de visibilidade, seleciona estímulos, reforça determinadas narrativas, favorece padrões recorrentes de interação e cultiva disposições emocionais relativamente estáveis por meio da repetição contínua. Quanto maior a permanência dos indivíduos nesse ambiente, maiores tendem a ser os efeitos cumulativos produzidos sobre os modos de perceber, sentir, recordar, desejar e agir. O cultivo algorítmico emerge, portanto, como uma categoria capaz de sintetizar esse conjunto de processos, descrevendo a maneira pela qual a arquitetura computacional das plataformas transforma a repetição em um princípio organizador da subjetividade contemporânea.

Conclusão

A aproximação entre comunicação, psicanálise, neurociência e filosofia evidencia que a internet, especialmente as redes sociais digitais, consolidou-se como um ambiente estruturante da experiência contemporânea. Permanecer conectado durante aproximadamente nove horas diárias significa habitar um ecossistema que participa continuamente da organização da atenção, da circulação dos afetos, da consolidação de hábitos e da formação dos modos de interpretar a realidade. O conceito de bios midiático permite compreender essa transformação da mídia em forma de vida; o ambiente facilitador demonstra que a qualidade das experiências ambientais permanece decisiva para o desenvolvimento do self; a teoria da cultivação revela que a repetição constitui um mecanismo central na construção das percepções sociais; enquanto a neuroplasticidade explica como essas experiências reiteradas reorganizam continuamente os circuitos neurais. Integrados, esses referenciais permitem compreender o cultivo algorítmico como um processo permanente de modelagem da subjetividade realizado pela arquitetura das plataformas digitais.

Essa perspectiva amplia a compreensão das redes sociais para além das abordagens centradas na circulação de informações ou nos efeitos imediatos da comunicação. Os algoritmos administram condições de experiência, selecionam recorrências, distribuem regimes de visibilidade, organizam economias afetivas e cultivam padrões relativamente estáveis de percepção e comportamento. A modulação da subjetividade passa a ocorrer pela convergência entre repetição comunicacional, plasticidade neural e gestão algorítmica da atenção, tornando o controle emocional uma consequência da própria arquitetura do ambiente digital. Compreender esses processos significa reconhecer que a disputa contemporânea pela atenção constitui, simultaneamente, uma disputa pela formação das sensibilidades, pela produção dos modos de existência e pelos horizontes de autonomia possíveis na cultura digital.

REFERÊNCIAS

DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes: emoção, razão e cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012 [1996].

DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. Conversações: 1972-1990. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 2010 [1972].

ESTANISLAU, Júlia. Cérebro tem capacidade de se reconfigurar e ser treinado para melhores resultados. Jornal da USP, São Paulo, 2023.

GERBNER, George et al. Growing up with television: cultivation processes. In: BRYANT, Jennings; ZILLMANN, Dolf (org.). Media Effects: Advances in Theory and Research. 2002.

LACAN, Jacques. Seminário, livro 2: O Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-1955). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis: Vozes, 2002.

SODRÉ, Muniz. As estratégias sensíveis: afeto, mídia e política. Petrópolis: Vozes, 2006.

WINNICOTT, Donald W. Natureza humana. São Paulo: Ubu / WMF Martins Fontes, 2024.

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