Estudo do PPGBM identifica bactérias essenciais à saúde das abelhas e aponta riscos e oportunidades para a meliponicultura, agricultura e preservação ambiental
Abelhas de 130 colônias de 3 espécies distribuídas ao longo do Sul e Sudeste do Brasil foram pesquisadas
Uma pesquisa conduzida pelo Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular (PPGBM) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com a Université de Lausanne (UNIL), na Suíça, trouxe novos avanços para a compreensão dos microbiomas associados às abelhas.
Pela primeira vez, a pesquisa identificou quais são as bactérias que compõem a microbiota denominada “core” do intestino de abelhas sem ferrão do gênero Melipona. Em outras palavras, foram determinados aqueles microorganismos que estão sempre – ou quase sempre – associados ao trato intestinal, e servem para proteger a abelha de patógenos, além de auxiliar na digestão e no processamento do alimento. Cada espécie de abelha tem a sua própria microbiota core, e quanto mais divergentes as abelhas são em termos da história evolutiva, tanto mais distintas as suas microbiotas. A pesquisa também identificou trocas de microrganismos em condições de manejo, quando diferentes espécies de abelhas são criadas juntas. Nesses casos pode ocorrer transmissão horizontal de bactérias entre as abelhas sem ferrão de espécies diferentes, como a Melipona quadrifasciata (mandaçaia) e a M. mondury (bugia), e até entre as abelhas europeias (Apis mellifera) e as abelhas sem ferrão. Esses achados representam um alerta para possíveis impactos sanitários na apicultura e meliponicultura, uma vez que essa transmissão pode envolver também microrganismos potencialmente patogênicos.
Estratégias para preservação das abelhas
O estudo analisou a microbiota intestinal de 130 colônias pertencentes a três espécies manejadas no Sul e Sudeste do país, desde o estado do RS até o ES, permitindo identificar quais bactérias compõem o chamado microbioma core. Segundo a coordenadora do estudo, a pesquisadora Karen Luisa Haag, o conhecimento produzido amplia as possibilidades de proteger e fortalecer esses polinizadores. “Compreender quais microrganismos fazem parte da microbiota essencial das abelhas é fundamental para desenvolver estratégias que preservem a sustentabilidade da meliponicultura. Essa pesquisa abre caminho para soluções como probióticos específicos e práticas de manejo ainda mais seguras”, destaca a professora.
A pesquisa também pode impactar positivamente, na economia e a agricultura e o fortalecimento da meliponicultura. “Os resultados reforçam a importância de darmos cada vez mais importância a ciência e ao equilíbrio ambiental, essenciais para a segurança alimentar e para a biodiversidade brasileira”, concluiu a professora Karen.
Agora, os pesquisadores pretendem isolar os microrganismos presentes nas colônias das abelhas sem ferrão para entender melhor a função de cada um deles e avaliar seu potencial biotecnológico. Participam dessa pesquisa em andamento os pesquisadores Charles Fernando dos Santos e Camille Granada da UFRGS, Mônica Tallarico Puppo da USP e Philipp Engel da UNIL.