O papel do meio ambiente

Autor: B. F. Skinner
Título: O papel do meio ambiente
Fonte: SKINNER, Burrhus Frederic. O Papel do Meio Ambiente. In: As contingências do reforço. São Paulo: Abril Cultural, Coleção Os Pensadores, vol. 51, 1975. Pg. 09 – 27
Disponível em: http://www.terapiaporcontingencias.com.br/pdf/skinner/opapel_do_meio_ambiente_textos.pdf

Há tempos atrás, pensava-se o meio ambiente como simples lugar onde animais e homens viviam e se comportavam. Poderiam se comportar de maneiras distintas, em lugares diversos, mas não seria porque os lugares fossem diferentes. O ambiente era cenário imprescindível, que talvez favorecesse ou dificultasse o comportamento, mas não era o que determinava a sua ocorrência ou a sua forma. Um papel mais ativo só foi sugerido no século XVII, quando Descartes antecipou a noção de reflexo, e não foi senão no século XIX que os reflexos foram isolados e estudados. Nessa época os fisiólogos começaram a denominar de stimulus, termo latino para “aguilhão”, a ação do meio ambiente. À medida que os reflexos foram sendo descobertos e estudados, o termo adquiriu outras conotações, e seu uso foi ampliado quando Pavlov demonstrou de que maneira novos estímulos podiam ser condicionados. A descoberta dos tropismos veio apoiar, particularmente nos escritos de Jacques Loeb, o ponto de vista de que, de uma maneira ou de outra, o meio forçava o organismo a se comportar.

Tais foram os antecedentes dos quais nasceu a psicologia do estímulo-resposta. John B. Watson usou o princípio do reflexo condicionado reunido com a noção anterior de hábito. Sustentava que animais e homens adquiriam novos comportamentos através do condicionamento e continuavam a se comportar enquanto os estímulos apropriados estivessem agindo. Esta posição científica foi desenvolvida sistematicamente por Clark Hull. E. B. Holt sumariou-a assim: “Somos, de fato, cutucados ou aguilhoados pela a vida afora”. Não era fácil, entretanto, demonstrar que isso se aplicava a todos os comportamentos. Nem identificar estímulos correspondentes para todas as respostas. Algumas condições ambientais relevantes, tais como falta de alimento, não agiam como se fossem estímulos. O conceito original foi sendo substituído por algo muito menos preciso, chamado de “situação estimuladora global”. De outro lado, igualmente perturbador, era o fato de que vários estímulos pareciam não ter efeito, embora obviamente atingissem a superfície do organismo. Inventou-se, então, um novo tipo de estímulo, chamado “pista” ou “indício”, que tinha a curiosa propriedade de ser eficaz, apenas quando o organismo necessitava dele. (Os etólogos resolvem um problema similar da mesma forma, quando atribuem o comportamento não aprendido a mecanismos “gatilho”, estímulos que agem apenas quando o organismo está carregado ou pronto para responder.).

Essa psicologia ficou sendo uma colcha de retalhos, destinada a salvar a fórmula estímulo-resposta e teve o efeito de levar a determinação do comportamento de volta para o interior do organismo. Quando não se podiam encontrar estímulos externos, havia que inventar estímulos internos.

Se a falta de alimento, no ambiente, não pode ser considerado um estímulo, era o caso de imaginar que, ao menos, gerava um “impulso” que espicaçasse o organismo por dentro. (A descoberta dos espasmos de fome parecia confirmar esta visão, mas uma estimulação comparável pelas vesículas seminais dilatadas, que Watson pensou pudesse explicar o comportamento sexual, era menos plausível.) Variáveis emocionais levaram a criação de outros estímulos internos: o medo, por exemplo, tornou-se um impulso adquirido. Até mesmo os instintos tornaram-se estímulos, ponto de vista defendido, o que é muito curioso por Freud.

Também tiveram que ser inventados processos e mecanismos interiores. Se um estímulo conspícuo parecesse não ter efeito, era porque um porteiro central – uma espécie de demônio de Maxwell – havia se recusado a deixá-lo entrar. Quando o organismo parecia comportar-se apropriadamente em relação a estímulos há muito desaparecidos, dizia-se que respondia a cópias desses estímulos que tinham ficado armazenados em sua memória. Muitas destas atividades centrais eram versões mal disfarçadas dos processos mentais que a psicologia de estímulo-resposta tinha prometido exorcizar. De fato, continuaram a ser chamadas de mentais (ou, em mudando a moda, cognitivas), numa formulação similar, derivada da teoria de informação. Substituam-se estímulos por entrada e resposta por saída, e certos problemas dimensionais estarão simplificados. Isto promete, mas não prometeu o suficiente, porque processos centrais ainda são necessários. As saídas seguem-se às entradas só depois de a entrada ter sido “selecionada”, “transformada”, “armazenada”, “recuperada” etc.

(…)


O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.


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