O que está errado com a vida cotidiana no mundo ocidental?

Autor: B. F. Skinner
Fonte: Skinner, B. F. (1987), What is Wrong with Daily Life in the Western World? in: Skinner, B. F. Upon Further Reflection. Englewood Clifs (New Jersey): Prentice Hall, p.15-31.
Tradução: Traduzido por Renata Cristina Gomes e revisado por Hélio José Guilhardi e Noreen Campbell de Aguirre.
Disponível em: http://www.iaac.com.br/textos/skinner/erradovidacotidiana.pdf

Existem muitas coisas erradas com o mundo hoje, mas elas não perturbam a todos. Superpopulação, esgotamento e poluição do meio ambiente, e até mesmo a possibilidade de uma guerra nuclear são freqüentemente desconsiderados como se forem assuntos para um futuro razoavelmente distante. Pobreza, doença e violência são problemas atuais, mas não para todos. Muitos daqueles que vivem nas democracias ocidentais desfrutam de um grau razoável de fartura, liberdade e segurança. Mas eles têm o seu próprio problema. Apesar de seus privilégios, muitos estão aborrecidos, inquietos ou deprimidos. Não estão desfrutando suas vidas. Não gostam daquilo que fazem; não fazem aquilo de que gostam. Numa palavra, estão infelizes. Esse não é o problema mais sério no mundo, mas se poderia dizer que é premente. Algo semelhante ao estilo de vida atual no Ocidente é aquilo que a maioria das pessoas almeja desfrutar após ter resolvido seus outros problemas. Não existiria alguma coisa mais promissora para o futuro da espécie?

Essas são afirmações acerca de como as pessoas se sentem. Expressá-las dessa forma é um padrão. Por séculos, sentimentos têm sido aceitos tanto como causas quanto como efeitos de comportamento. Diz-se que as pessoas fazem o que fazem porque se sentem propensas (feel like) a fazê-lo, e sentem o que sentem por causa do que fizeram. Como os sentimentos parecem assumir um papel tão importante, argumenta-se que uma ciência do comportamento estaria incompleta, caso não fosse capaz de resolver o tipo de problema com o qual estamos preocupados aqui.

Sentimentos, entretanto, não estão fora do alcance de uma ciência comportamental. A questão não é o que os sentimentos são, mas o que é sentido. Sentir é um verbo – como ver, ouvir ou saborear. Nós vemos, ouvimos e saboreamos coisas no mundo ao nosso redor, e nós sentimos coisas em nosso corpo. Quando nos sentimos fracos, estamos sentindo músculos fracos; quando nos sentimos cansados, estamos sentindo um corpo cansado; quando temos uma dor de dente, estamos sentindo um dente inflamado. Sentimentos diferem de outros tipos de sentidos de diversas formas. Uma vez que aquilo que sentimos está debaixo (within) de nossa pele, nós não podemos escapar disso. Os órgãos dos sentidos, com os quais sentimos, não são facilmente observados como aqueles com os quais vemos coisas no mundo ao nosso redor. E não podemos relatar o que sentimos tão acuradamente quanto aquilo que vemos, porque aqueles que nos ensinam a fazê-lo carecem de informação a respeito do corpo que sentimos. Não precisamos, entretanto, nos deter em questões epistemológicas, a fim de colocar a seguinte pergunta: O que nós sentimos quando não estamos gostando de nossas vidas? E, em decorrência, o que devemos mudar se queremos sentir diferentemente?

Sugiro que as respostas serão encontradas em algo que aconteceu na história da espécie. Os primeiros membros da Homo Sapiens devem ter sido muito semelhantes aos outros primatas que vemos hoje. Eles devem ter tido suas próprias maneiras de colher ou caçar seu alimento, construir abrigos, encontrar parceiros, criar uma família e evitar perigo. Seu comportamento, assim como o de outros primatas, deve ter sido, em grande parte, produto de seleção natural e, talvez, não tenha sido modificado mais prontamente, através de condicionamento, do que o de tais primatas. Como outras espécies, eles teriam se beneficiado a partir da experiência de outros, mas apenas através de imitação e modelação (modeling).

A espécie humana deu um passo evolucionário único quando sua musculatura vocal ficou sob controle operante e a linguagem nasceu. As pessoas puderam, então, tanto dizer como mostrar aos outros o que fazer. Ambientes sociais, ou culturas, extremamente complexos emergiram, e deram à espécie seu extraordinário poder. Eu defenderia que, ao mesmo tempo, muitas das novas práticas culturais desgastaram ou destruíram certas relações entre organismo e ambiente que prevaleciam quando o condicionamento operante emergiu.

O resultado é facilmente descrito como uma questão de sentimentos porque os sentimentos em questão estão estreitamente relacionados a reforçamento operante. Conseqüentemente, dizemos que coisas reforçadoras nos agradam (please), que nós gostamos delas, que elas são sentidas como boas (they feel good). A associação de reforçamento com sentimento é tão forte que há muito tem sido dito que coisas reforçam porque são boas (they feel good) ou são boas (they feel good) porque reforçam. Deveríamos dizer, ao invés disso, que as coisas são boas (they feel good) e reforçam por causa do que aconteceu na evolução da espécie.

Os organismos presumivelmente comem alimentos nutritivos porque variações genéticas que aumentaram a probabilidade de fazê-lo contribuíram para sobrevivência do indivíduo e da espécie e, portanto, foram selecionadas. Para espécies mais simples, geralmente não dizemos que o alimento deve “ser gostoso” (taste good). A questão do gostar (enjoyment) provavelmente surgiu quando organismos se tornaram suscetíveis ao reforçamento pelos mesmos alimentos. Eles comiam, então, por duas razões: o comportamento era inato e era também reforçado por suas conseqüências. É o efeito reforçador, não a tendência genética a comer, que relatamos quando dizemos que o alimento “está gostoso” (taste good).

O reforçamento, entretanto, tem um outro efeito: comportamento que é reforçado tem maior probabilidade de ocorrer novamente. Correndo o risco de ser seriamente mal interpretado pelos críticos do behaviorismo, farei uma distinção entre os efeitos de ser agradável (pleasing) e o de ser fortalecedor. Eles ocorrem em momentos diferentes e são sentidos como coisas diferentes. Quando sentimos prazer (feel pleased), não estamos necessariamente sentindo uma maior inclinação a nos comportarmos da mesma forma. (De fato, quando chamamos um reforçador de satisfatório, ao invés de agradável, como fez Thorndike, sugerimos que ele reduz a probabilidade de agir da mesma maneira, já que satisfatório é etimologicamente próximo a saciador.) Quando repetimos comportamento que foi reforçado, por outro lado, não sentimos o efeito agradável que sentimos na ocasião em que o reforçamento ocorreu. Agradável (pleasing) parece ser a palavra inglesa cotidiana mais próxima de reforçador (reinforcing), mas refere-se apenas à metade do efeito.

(…)


O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.


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