Ensino e aprendizagem de ortografia na escola

Fonte: Jornal Diário do Grande ABC. Encarte: Diário na Escola. Sexta-feira, 17 de setembro de 2004.

http://www.ufrgs.br/psicoeduc/arquivos/diario-abc-entrevista-ortografia.pdf

O educador Paulo Francisco Slomp é psicólogo, pós-Graduado em Psicologia Piagetiana, mestre em Psicologia da Educação, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisador da área da alfabetização e pós-alfabetização.

Na entrevista a seguir, Slomp fala sobre reflexão e análise da nossa língua, sobre a postura dos professores diante da língua falada e da escrita, sobre a aquisição da ortografia e da gramática por parte dos alunos e sobre a psicogênese da ortografia.

Diário na Escola – Na sua opinião, qual é a concepção dos professores a respeito da aquisição do sistema de escrita?

Paulo Francisco Slomp – Segundo conversas informais com mestres das séries iniciais do ensino fundamental, pude perceber a existência de uma concepção da língua escrita que a coloca como um código de transcrição da língua falada.
Com meus alunos universitários, no trabalho de formação de professores, também observo a presença dessa noção. Talvez possamos dizer que o senso comum carrega consigo essa idéia. As verbalizações que encontramos manifestam a concepção de que seria necessário primeiramente ensinar as crianças a falar certo e, após essa preparação, elas estariam em condições de escrever corretamente. Assim, juntamente com educadora Miriam Lemle (doutora em Lingüística e professora de pós-graduação da Univeridade Federal do Rio de Janeiro), poderíamos dizer que estamos em presença de um equívoco lingüístico, de um desrespeito humano e de um erro político.

Diário na Escola – O que é necessário considerar no trabalho com língua escrita?

Paulo Francisco Slomp – Devemos levar em consideração que a língua falada se modifica bem mais rapidamente durante o passar do tempo do que a língua escrita. Isso as deixa cada vez mais distantes uma da outra. É necessário também diferenciar as características que a língua falada assume em diferentes contextos e classes sociais. Já a língua escrita é mais resistente a mudanças históricas e de contextos sociais. Isso nos leva a compreensão de que o escrito é muito diferente do oral. Essa concepção exposta acima, por vezes encontra difusão e, em outras ocasiões, encontra resistência por parte de proposições que circulam pela grande imprensa, ou inclusive nos meios acadêmicos, para que seja realizada uma reforma ortográfica onde o critério central seja a transformação da escrita em uma transcrição da fala, objetivando uma pretensa simplificação e maior acessibilidade. Mas devemos ser críticos e perguntar: Língua falada por quem? De qual comunidade? De qual período histórico? Ou seja, uma análise um pouco mais ampla e aprofundada indica que o objetivo de transformar a escrita em transcrição da fala agravaria a situação que essa proposta pretende sanar.

Diário na Escola – O baixo desempenho ortográfico dos estudantes é uma preocupação permanente entre os educadores. Observa-se, nos últimos anos, entre os professores das séries iniciais, um sentimento de insegurança quanto ao ensino da ortografia. A que isso se deve?

Paulo Francisco Slomp – A vulgarização da proposta de ensino construtivista pode ter contribuído para a constituição do engano de que não devemos corrigir os erros das crianças, pois elas próprias devem construir o seu conhecimento. Tal postura supõe idéias espontaneistas. Mas a escola não deve adotar uma postura espontaneista e deixar as coisas acontecerem sozinhas.

Diário na Escola – Como trabalhar ortografia sem submetê-la à fonética? Como trabalhá-la como uma fase do processo de produção de texto e não como uma tarefa em si mesma?

Paulo Francisco Slomp – A escrita ortográfica tradicionalmente é encarada como algo resultante de um esforço de memorização e obtida a custa de repetição. Ou seja, a aquisição da ortografia, nessa concepção mecanicista, decorre da formação de hábitos criados pela repetição das ações. O ensino é entendido como um mero treinamento, devendo seguir uma escala onde as dificuldades vão sendo acrescentadas: limitar, na primeira série, o treino de palavras com mais de duas sílabas; utilizar inicialmente palavras compostas de sílabas formadas por apenas uma vogal e uma consoante; depois disso, passar a treinar palavras com “h”; a seguir palavras com “sc” etc. Em oposição a essa proposta encontramos uma concepção onde a criança é vista como um ser ativo que reflete, compara, classifica, formula hipóteses e submete o mundo a diversos processos de raciocínio lógico. Assim, a ênfase fica deslocada da memorização acrítica para uma busca da compreensão significativa. O professor Artur Gomes de Morais, da Universidade de Pernambuco, é um dos autores que têm realizado pesquisas a partir desta segunda concepção. Ele destaca que os professores podem se valer de regularidades ortográficas que facilitam bastante a aprendizagem. Também produziu experimentos onde as crianças, quando lhes são oferecidas oportunidades de reflexão, manifestam um bom conhecimento ortográfico, sendo capazes de corrigir com elevado grau de acerto a sua própria produção escrita.

Diário na Escola – É possível falar em psicogênese da ortografia nas crianças? O senhor poderia explicar isso?

Paulo Francisco Slomp – Psicogênese, como a divisão da palavra indica, é o termo empregado para designar o estudo da origem e formação ou desenvolvimento dos processos mentais que resultam em aprendizagem ou conhecimento. A psicóloga e pesquisadora argentina Emília Ferreiro fez importantes descobertas na área da psicogênese da língua escrita.

Obs.: A fonte eletrônica original da entrevista foi desativada www.diarionaescola.com.br. Há uma cópia em: <http://www.redeinformacao.com.br/biblioteca/arquivos/Escola_17_09_2490.pdf>

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