Comentários sobre as observações de Vygotsky, por Jean Piaget

Fragmento de: Comentário sobre as observações críticas de Vygotsky concernentes a duas obras: “A linguagem e o pensamento na criança” e “O raciocínio na criança”.

Tradução: Paulo Francisco Slomp

Fonte: PIAGET, Jean. Commentaire sur les remarques critiques de Vygotski concernant le Langage et la pensée chez l’enfant et le Jugement et le raisonnement chez l’enfant. Archives de psychologie. 1979, vol. 47, no 183, p. 237-249. Publicação original em língua inglesa, 1962.

Texto integral em português: PIAGET, Jean. Comentário sobre as observações críticas de Vygotsky concernentes a duas obras: “A linguagem e o pensamento na criança” e “O raciocínio da criança”. Trad. de Agnela Giusta. Em Aberto, Brasília, ano 9, no 48, pág. 69-77, out./dez. 1990. A tradução realizada por Agnela Giusta tem como fonte o apêndice de VYGOTSKY, L. S. Pensiero e linguaggio. Firenze: Giunti, 1966. Que, por sua vez, é uma tradução da versão em inglês do manuscrito original de 1962 em francês.

Comentário sobre as observações críticas de Vygotsky concernentes a duas obras: “A linguagem e o pensamento na criança” e “O raciocínio na criança”.

Não é sem tristeza que um autor descobre, vinte e cinco anos após sua publicação, o trabalho de um outro autor que partiu nesse período, quando este trabalho contém tantos pontos de interesse imediato que o levariam a discutir pessoal e detalhadamente. Meu amigo A. Luria manteve-me ao par da posição simultaneamente simpática e crítica de Vygotsky a meu respeito, mas nunca pude ler seus escritos ou encontrá-lo pessoalmente e, lendo seu livro hoje, lamento profundamente pois poderíamos ter chegado a um entendimento em numerosos pontos.

A senhorita E. Hanfmann, que é uma das melhores continuadoras de Vygotsky, pediu-me gentilmente que comentasse as reflexões desse grande autor sobre meus primeiros trabalhos. Desejo agradecê-la vivamente mas devo confessar meu embaraço, pois quando o livro de Vygotsky apareceu, em 1934, discutia alguns trabalhos meus datados de 1923 e 1924. Pensando sobre a questão encontrei um modo simples e mesmo instrutivo (pelo menos para mim) de evitar essa discussão retrospectiva: tentar ver se as observações críticas de Vygotsky se justificam ou não, à luz de meus trabalhos posteriores. A resposta é sim e não; em alguns pontos vejo-me hoje mais de acordo com Vygotsky do que teria estado em 1934; enquanto que em outros pontos acredito ter agora melhores argumentos para responder-lhe.

I

Começaremos por duas questões distintas que se referem ao capítulo 2 de Vygotsky: a questão do egocentrismo em geral e da linguagem egocêntrica. Vygotsky, se eu o compreendi bem, não está de acordo comigo sobre a noção de egocentrismo intelectual da criança, mas reconhece a existência do que chamei de linguagem egocêntrica. Ele a vê como ponto de partida da linguagem interiorizada ulterior, que ele considera que possui serventia tanto para fins autísticos como para fins lógicos. Discutiremos então estas duas questões separadamente.

1. O egocentrismo cognitivo

O problema central que Vygotsky levanta é basicamente o da natureza adaptativa e funcional das atividades da criança, bem como de todo ser humano. Sobre esse ponto estou em linha gerais certamente de acordo com ele e tudo que escrevi (após meus cinco primeiros livros) sobre O nascimento da inteligência ao nível sensório-motor e sobre a gênese das operações lógico-matemáticas a partir das ações, faz com que hoje me seja fácil situar o inicio do pensamento em um contexto de adaptação, num sentido cada vez mais biológico.

(…)