A idéia de pátria e de relação com o estrangeiro – Piaget

Autor: Jean Piaget

Tradução: A tradução do texto a seguir, realizada pelas alunas Carla Maria Fernandes Corral e Patrícia Vasconcellos Comim, é fruto de uma atividade voluntária proposta na disciplina Psicologia da Educação B e destina-se aos estudos desenvolvidos nesta disciplina.

Supervisão da tradução: Paulo Francisco Slomp.

Fonte: PIAGET, Jean. Le développement, chez l’enfant, de l’idée de patrie et des relations avec l’étranger. avec la collab. d’Anne-Marie Weil. In: Bulletin international des sciences sociales. 1951, vol. 3, no 3, p. 615-621. Publicado também em: Revue européenne des sciences sociales. 1976, vol. 14, no 38-39, p. 124-147.

Título: O desenvolvimento, na criança, da Idéia de pátria e de relações com o estrangeiro

O estudo psicológico e sociológico dos estados de tensão supõe o conhecimento de certos dados de psicologia infantil. Pode-se, inicialmente, perguntar se, em razão de seu modo próprio de formação, os comportamentos intelectuais e afetivos que caracterizam a afeição à pátria e as relações iniciais com o estrangeiro não contém o germe das inadaptações internacionais ulteriores. Deve-se, em seguida, pesquisar, mesmo que o ponto de vista precedente pareça, ao primeiro momento, desmentido pelos fatos, porque a criança não adquire, no curso de seu desenvolvimento, um espírito de objetividade e de reciprocidade suficiente para resistir mais tarde aos fatores de tensão ou de inadaptação que a influenciarão como adolescente ou como adulto.

É a este duplo ponto de vista que nos colocaremos na análise que se seguirá. Fomos surpreendidos, desde o início de nossa pesquisa, pelo fato de que, se a criança não parece testemunhar, durante os primeiros períodos de seu desenvolvimento, de tendências particulares lhe predispondo ao nacionalismo, a descoberta progressiva de sua pátria e da pátria dos outros supõe, em compensação, a construção laboriosa de um instrumento de coordenação ao mesmo tempo intelectual e afetivo, muito mais complexo do que pareceria ao primeiro contato e, por conseguinte, frágil e exposto a todos os desvios ulteriores. É, portanto, de um certo interesse para o estudo de tensões sociais — e internacionais em geral — procurar seguir de perto como se elabora este instrumento de coordenação e no que ele consiste, pois é da sua solidez ou da sua menor resistência que dependerão definitivamente os desvios ulteriores.

Nossa pesquisa é sustentada somente por entrevistas com crianças habitantes de Genebra, que são estrangeiras ou suíças, e pode-se sempre reservar a parte do ambiente adulto na interpretação de fatos recolhidos. Mas, esta reserva feita, e esperando confirmação de outros ambientes, encontramo-nos em presença de um paradoxo que, mesmo sendo ele particular a uma região da Europa, não é menos esclarecedor.

Este paradoxo é o seguinte: longe de constituir os primeiros dados, o sentimento e mesmo a noção de sua própria pátria somente aparecem na criança normal relativamente tarde, sem que nada pareça conduzi-la necessariamente a um sociocentrismo patriótico. Ao contrário, para chegar na consistência intelectual e afetiva de sua pátria, a criança é obrigada a realizar todo um trabalho de descentração (em relação a sua cidade, seu cantão, etc.) e de coordenação (com outras perspectivas além da sua) — trabalho que a aproxima da compreensão de outras pátrias e de outros pontos de vista além do seu. Para explicar a facilidade com a qual aparecem mais tarde as diversas formas de sociocentrismo nacionalista, é preciso, portanto, admitir que intervenham em um dado momento influências exteriores às tendências que se manifestam durante o desenvolvimento da criança (mas então, por que estas influências são aceitas?) ou ainda que os mesmos obstáculos que se opunham às descentrações e às coordenações iniciais (desde a formação da idéia de pátria) reapareçam em todos os níveis e constituam a causa mais geral dos desvios e das tensões.

É nesta segunda direção que se orienta nossa interpretação. O sujeito começa a considerar como únicos possíveis os pontos de vista imediatos ligados a sua situação e as suas atividades próprias: este estado de espírito, que chamaremos de egocentrismo inconsciente da criança (ao mesmo tempo intelectual e afetivo) se opõe inicialmente à compreensão de sua própria pátria, bem como à compreensão das relações objetivas com o estrangeiro. De outra parte, a vitória sobre o egocentrismo requer a elaboração de um instrumento de coordenação ao mesmo tempo intelectual e afetivo, difícil e lento de conquistar, que consiste essencialmente em relações de “reciprocidade”. Mas a cada nova etapa desta construção o egocentrismo reaparece sob novos aspectos sempre mais afastado do círculo infantil inicial. Tais são as diversas formas de sociocentrismo, heranças do egocentrismo primitivo e causas de desvios ou de tensões ulteriores, mas cuja compreensão supõe a análise precisa dos estados iniciais e dos conflitos elementares entre o egocentrismo e a reciprocidade.

(…)

* O texto integral da tradução encontra-se disponível somente aos alunos matriculados na disciplina EDU01012 Psicologia da Educação II.


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