Mário Corso está com Diana Lichtenstein Corso e Luciane Corso.
13 de janeiro de 2019 às 10:41 · Fonte: https://www.facebook.com/lacanianodepassofundo/posts/1175777515919781.
13 de janeiro de 2019 às 10:41 · Fonte: https://www.facebook.com/lacanianodepassofundo/posts/1175777515919781.
Dos encontros familiares de fim de ano, longas conversas com a irmã-cunhada Luciane Corso, professora em uma escola de periferia, sobre seus adolescentes. Entre as inúmeras preocupações dela, chamavam a atenção as automutilações. O assunto tomou ares de urgência principalmente depois da perda de um aluno, que ceifou a própria vida. O que está acontecendo com esta meninada que se machuca tanto, como se a vida deles já não fosse boa nisso? À coragem dela e de tantos que estão no corpo a corpo com os adolescentes dos nossos dias, dedicamos estas reflexões. Parte delas provém do nosso livro sobre adolescência.
Cortes autoinflingidos
Deixa-me ver como te pareces e te direi exatamente como és. Isso não é uma completa novidade, pois há muito dependuramos sobre o corpo todos os revestimentos necessários para explicitar nossa posição social. Com os primeiros hominídeos foram descobertos adereços corporais que já diziam disso. Novidades nesse front? Duas: em primeiro lugar a customização extrema dessas informações visuais, pois hoje a moda ainda dita, mas já não padroniza tanto; em segundo, a relevância da pele enquanto lugar de expressão. A moda mais importante hoje diz respeito ao “indespível”.
Trata-se de um corpo em constante modificação: mimado por dietas e academias, esculpido a bisturi, decorado com tatuagens e piercings, que dá trabalho e dele tanto se espera. Se sempre fomos através de um corpo, nunca precisamos tanto de um para ser alguém. Está fora de moda apenas ter sucesso, ser admirado, é preciso que o biótipo prove isso. O corpo faz parte do triunfo, ou ele não é total.
Em resumo: o valor que damos à nossa compleição física cresceu. Sem saudosismos, talvez seja porque descobrimos que não temos um corpo e sim somos um corpo. Seria uma mudança e tanto. Historicamente nos concebemos como uma alma presa à matéria, e não como um organismo em que brota uma subjetividade. Talvez em ato estejamos à frente da ideia que temos de nós mesmos, já vivendo um pensamento que virá.
Mas a divagação é para situar um problema que preocupa pais e professores: muitos jovens estão secretamente se cortando. Primeiro acalmem-se, o mundo não piorou, não é mais desesperador do que era, apenas os sintomas transmutam-se. Tanto como antes não nos tatuávamos tanto, – escolhendo um dos exemplos de fenômenos da nova ordem corporal – não nos cortávamos tanto. Portanto, é preciso inserir o gesto nesse novo momento onde “falamos” mais desde o corpo. Os mais velhos se assustam por não conhecer estes mecanismos do dialeto corporal recente, por isso lhes parece tão pungente.
O que temos, é um sofrimento agudo que não encontra outra forma de se expressar. É preciso escutar, que entenda essa dor, para que ela possa ser dita de outra maneira. Acompanhado de alguém que entenda o que se passa, talvez isso não precise ser corporalmente encenado.
Fazer-se cortes, em braços, coxas e barriga, é uma experiência recorrente nos momentos de crise, principalmente nas meninas. Elas não estão tentando matar-se, cortar os pulsos, embora algum acidente possa acontecer. Pelo contrário, a experiência de dor e o surgimento do sangue são uma forma de sentir-se vivas. O que estas jovens sentem, e precisam dissipar, pode ser compreendido por aqueles que nunca recorreram a essas pequenas mutilações, se considerarmos que é muito próximo dos sofrimentos da angústia.
Os momentos mais radicais da angústia são os ataques de pânico, nos quais é comum aos acometidos, principalmente quando novatos, irem parar em emergências de hospital, certos de estar morrendo. Neles a respiração é sentida como insuficiente, curta, e tende a ser acelerada, causando tontura, paradoxalmente, por excesso de oxigênio. O coração salta, acelera, cada vez mais quanto mais se monitora seu batimento com medo do prenúncio de um colapso. A fantasia de morte na verdade traduz uma vivência de esvanecimento: mais do que morrer, sentimos demasiadamente nosso corpo enquanto nossos contornos nos abandonam. Em outras palavras: ficamos reduzidos a puro corpo e sentimos o vazio subjetivo como se fosse este e não nossa mente a estar colapsando. As experiências de suor, cabelos arrepiados, frio, calor, dor de barriga, próprios do pânico – reagiríamos assim se um leão aparecesse na nossa frente – tendem a devolver a consciência de um corpo na eminência de sumir, congelar.
É difícil entender como um ferimento pode significar alívio, mas precisamos abrir o pensamento para a complexidade dos comportamentos humanos, nos quais o que é agradável, desagradável, bom e ruim assumem tons bem peculiares. Ao invés de entrar em pânico, quem se corta reencontra-se com sua pele, seu sangue, a dor, que funcionam como uma sangria da angústia. É uma providência, a possível para alguém, em geral muito jovem, que sente-se desaparecendo ou incapaz de ocupar um lugar no mundo ou na vida de alguém importante
Geralmente os cortes são uma tentativa desesperada de estancar uma angústia transformando-a em dor física, a modo de dar visibilidade ao sofrimento psíquico. Também possibilitam parar para retomar depois, pois restando a marca, não será esquecida. É uma dor que não pode ser deixada de lado, tampouco é possível suportá-la o tempo todo. É um corte na carne e na cena. Por isso nos relatos o corte é dito como um alívio momentâneo.
Esses ferimentos costumam constituir-se em um grande segredo visível. Podemos perguntar-nos por que algo visível seria secreto e muitas vezes é justamente esse o jogo: ter no corpo marcas que não devem ser vistas pela mãe (ou pelos familiares), justo ela que conhecia cada cantinho dessa anatomia. Ao mesmo tempo, essas marcas serão mostradas apenas a pessoas de extrema confiança e em momentos especiais. Mesmo quando atendemos alguém que tem esses hábitos, podemos até não ser informados disso num primeiro momento. O paciente não chegará dizendo ou achando que isso é seu problema, assim como dificilmente mostrará seus ferimentos. Eles são sua maior intimidade, por isso constituem em algo a ser ocultado, principalmente do olhar materno.
Chama a atenção que seja uma prática principalmente – embora não exclusivamente – feminina que via de regra principia em períodos próximos da menarca, quando o sangue brota do corpo da menina pela primeira vez. Nesse sentido, poderíamos também supor que é um modo de lembrar-se da feminilidade nascente e da perda da conexão infantil com a mãe. Também não é irrelevante observar que na nossa sociedade, supostamente evoluída, o corpo feminino seja ainda objeto de tanta repulsa: o sangue menstrual, os pelos pubianos, os mamilos e a lactação, ainda são visões que causam repulsa e reações exacerbadas.
Machucados cicatrizam e tornam-se memórias inesquecíveis, que depois de algum tempo deixam de sangrar e doer. Cicatrizes são como uma assinatura indelével de um sofrimento. Porém, se a dor de uma ferida psíquica fechar suturando um lamento que não se transformou em palavras, ela voltará iniciando novos apelos, que podem ser vistos mas não escutados. Por isso as feridas são reabertas. Ao invés de calar as dores com analgésicos para a alma, convém lembrar: estes machucados só cicatrizam de verdade se for de dentro para fora, é preciso deixar sangrar as palavras até que as dores sequem.
Este texto contém excertos do capítulo 2 dos do nosso livro “Adolescência em cartaz: psicanálise e filmes para entende-la”, Ed. Artmed, 2018.
Sobre os riscos de suicídio na adolescência, capítulo free online:
Partes deste escrito saíram na coluna do Mário “Por que os jovens se automutilam?”, deste fim de semana na ZH: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/mario-corso/noticia/2019/01/por-que-os-jovens-se-automutilam-cjqsfeq1d00n301uk5l0r4zoa.html.