A arte de traduzir Lewis Carroll – Revista Bravo

Fonte: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/cinema/arte-traduzir-lewis-carroll-546514.shtml.

Lewis Carroll amava neologismos. Em sua obra há uma série deles feitos a partir de aglutinações dos significados dos termos que os formam. Característica que engrandece seus escritos e enlouquece seus tradutores. “Alice no País das Maravilhas” e “Alice Através do Espelho e O Que Encontrou Lá”. Os dois livros são as bases para o novo filme de Tim Burton, que têm muitos exemplos dessas palavras e expressões a la Carroll em imagens.O exemplo clássico é “Jabberwocky”, nome dado pelo autor a um monstro e a um poema que estava no livro do espelho, encontrado por Alice. O texto apareceu, pela primeira vez, em uma série de jornaizinhos que Carroll escrevia e ilustrava a mão para entreter seus irmãos. E acabou conhecido como um dos mais importantes representantes da poesia nonsense em língua inglesa.

No português, monstro e poema ganharam vários nomes totalmente diferentes entre si, diferenças que se estendem ao texto como um todo. O mais apreciado é “Jaguadarte”, título da versão feita por Augusto de Campos. Mas ainda existe “Tagarelão”, “Pargarávio”, “Bestialógico”, “Blablassauro” e “Algaravia”.

Leia o poema original e algumas de suas traduções para o português.

Jabberwocky

Lewis Carrol

‘Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe:
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

“Beware the Jabberwock, my son!
The jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jubjub bird, and shun
The frumious Bandersnatch!”

He took his vorpal sword in hand:
Long time the manxome foe he sought—
So rested he by the Tumtum tree,
And stood awhile in thought.

And, as in uffish thought he stood,
The Jabberwock, with eyes of flame,
Came whiffling through the tulgey wood,
And burbled as it came!

One, two! One, two! And through and through
The vorpal blade went snicker-snack!
He left it dead, and with its head
He went galumphing back.

“And hast thou slain the Jabberwock?
Come to my arms, my beamish boy!
O frabjous day! Callooh! Callay!”
He chortled in his joy.

‘Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe:
All mimsy were the borogoves,
And the mome raths outgrabe.

Traduções em Português

JAGUADARTE
Augusto de Campos

Era briluz. As lesmolisas touvas
roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

“Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!”

Ele arrancou sua espada vorpal
e foi atras do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando atraves da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para tras, para diante!
Cabeca fere, corta e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

“Pois entao tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!”
Ele se ria jubileu.

Era briluz.As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

PARGARÁVIO
Maria Luiza X. de A. Borges

Solumbrava, e os lubriciosos touvos
E vertigiros persondavam as verdentes;
Trisciturnos calavam-se os gaiolouvos
E os porverdidos estringuilavam fientes.

“Cuidado, ó filho, com o Pargarávio prisco!
Os dentes que mordem, as garras que fincam!
Evita o pássaro Júbaro e foge qual corisco
Do frumioso Capturandam.”

O moço pegou da sua espada vorpeira:
Por delongado tempo o feragonists buscou.
Repousou então à sombra da tuntumeira,
E em lúmbrios reflaneios mergulhou.

Assim, em turbulosos pensamentos quedava
Quando o Paragarávio, os olhos a raisluscar,
Veio flamiscuspindo por entre a mata brava.
E borbulhava ao chegar!Um , dois! Um, dois!

E inteira, até o punho,
A espada vorpeira foi por fim cravada!
Deixou-o lá morto e, em seu rocim catunho,
Tornou galorfante à morada.

“Mataste então o Pargarávio? Bravo!
Te estreito no peito, meu Resplendoso!
Ó gloriandei! Hosana! Estás salvo!”
E na sua alegria ele riu, puro gozo.

Solumbrava, e os lubriciosos touvos
E vertigiros persondavam as verdentes;
Trisciturnos calavam-se os gaiolouvos
E os porverdidos estringuilavam fientes.

O TAGARELÃO
William Lagos

Era o Assador e os Sacalarxugos
Elasticojentos no eirado giravam
Miserágeis perfuravam os Esfregachugos
E os verdes porcalhos ircasa arrobiavam.

Cuidado, meu filho, com o Tagarelão!
Te morde com a boca e te prende com a garra!
Escapa ao terrível Jujupassarão
E foge ao frumoso e cruel Bandagarra!

Cingiu à cintura sua espada vorpal
E por longo tempo o manximigo buscou
Da árvore Tumtum na sombra mortal,
Em cismas imerso afinal descansou.

E assim, ufichado em seu devaneio,
O tagarelão, com olhos de chama,
Surdiu farejando do bosque no meio:
A gosma supura e a baba derrama!

Um, dois! E dois, um! A lâmina espessa
Cortou navalhando sua espada vorpal!
Deixou-lhe o cadáver e trouxe a cabeça;
Voltou galufando em triunfo total! “

Pois mataste destarte o Tagarelão?
Vem dar-me um abraço, meu filho valente!
O fragor desse dia! O meu coração
Em êxtase canta loução e contente!

Era o Assador e os Sacalarxugos
Elasticojentos no eirado giravam
Miserágeis perfuravam os Esfregachugos
E os verdes porcalhos ircasa arrobiavam.

BESTIALÓGICO
Eugênio Amado

Brilhava o dia, e uma fumaça
No céu girava sem parar;
Palhaços sérios espiavam
Loucos risonhos a cantar.

Cuidado com o Bestialógico!
Se ele te pega é perdição!
Cuidado com a Ave Jujuba
E o terrível Bicho-Papão!

Ele tomou de sua espada
E foi atrás de uma inimiga;
À sombra da árvore Tuntun,
Descansou, coçando a barriga.

E ali ficou o Bestialógico,
Olhos selvagens, chamejantes,
Resfolegando na floresta
Com mil idéias borbulhantes.

Um, dois! Um, dois! Veio marchando.
Ao vê-la ergueu a espada e – zop!
Deixou-a morta e sem cabeça,
Voltando em seguida a galope.

Mas quem morreu? O Bestialógico?
Pois então vem até os meus braços!
Que lindo dia! Tu mereces
Milhões de beijos e de abraços!

Brilhava o dia, e uma fumaça
No céu girava sem parar;
Palhaços sérios espiavam
Loucos risonhos a cantar.

BLABLASSAURO
Ricardo Gouveia

Brilumia e colescosos touvos
No capimtanal se giroscavam;
Miquíticos eram os burrogouvos,
E os mamirathos extrapitavam.

“Foge meu filho, do Blablassauro!
Boca que morde, garra que agarra!
Fica longe do Ornitocentauro
E do frumioso Bombocarra!”

Nas mãos tomou sua espada vorpal:
Venceria o manxomo inimigo!
Pensaparou ao pé de um Tumtal,
Meditando, ele e seu umbigo.

Em úfia concentração pensava;
E o blablassauro, olhar flamejante,
Do bosque tulgeo, aos bufos chegava
Balouçando o corpo borbulhante!

Zás-trás! Alto a baixo, lado a lado
Corta e pica a lâmina vorpal!
Levando a cabeça do malvado,
Galunfante, voltou afinal.

“Então o Blablassauro morreu?
Vivas! Frabujoso! Quem diria?
Abraça-me, briante filho meu!”
E ele ria de pura alegria.

Brilumia e colescosos touvos
No capimtanal se giroscavam;
Miquíticos eram os burrogouvos,
E os mamirathos extrapitavam.

ALGARAVIA
Oliveira Ribeiro Netto

Era o auge e as rolas brilhantes
Pelo ar giravam, giravam.
Palhaços davam pinotes,
Os montes se amontoava.

– Cuidado com a Algaravia,
meu filho, ela morde e arranha!
Bicho papão te carrega,
O Lobisomem te apanha!

Ele de espada na mão
Foi buscar o inimigo…
Junto dum mandacaru
Ficou pensando consigo.

Enquanto estava cismando,
Vem do mato a Algaravia.
Dos olhos saia fogo,
Era brasa que cuspia.

Um dois, um dois, zás-trás,
Num instante ele a matou,
Cortou depressa a cabeça
E pra casa voltou.

– Vem aos meus braços meu filho!
Tu mataste a Algaravia?
Dia feliz! Salve! Salve!
E cantava de alegria.

Era o auge e as rolas brilhantes
Pelo ar giravam, giravam.
Palhaços davam pinotes,
Os montes se amontoava.

ALGARAVIA
Pepita de Leão

Era o fervor, e as rutilas rolinhas
Girando, o taboleiro afuroavam.
Estavam os truões bem divertidos,
E os cerros patetas se firmavam.

“Cuidado com o Algaravião, meu filho!
Ele morde, e segura até um homem!
Cuidado com o Pássaro Bisnau,
E foge do terrível Lobishomem!”

Ele pegou na espada bem afiada,
Levou tempo, buscando o inimigo …
Foi descansar ao pé da Bananeira,
E ali ficou, pensando lá consigo.

E enquanto ali estava a matutar,
Lá de dentro do mato vem chegando
O Algaravião de olhos de fogo,
E de longe ele vinha já bufando!

Um, dois! Um, dois! E assim de lado a lado
A lâmina cortante foi rangendo!
Ele matou-o pegou na cabeça,
E de volta p’ra casa foi correndo.

“Tu mataste o Algaravião, meu filho?
Dá-me um abraço! Que glorioso dia!
Que dia glorioso! Viva! Vivôôô!…
Ele também deu vivas de alegria.

Era o fervor, e as Rutilas rolinhas
Girando, o taboleiro afuroavam.
Estavam os truões bem divertidos,
E os cerros patetas se firmavam.

 

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