BABY (Lentamente.) – Eu acho… eu acho que a gente só pode dizer uma coisa.
(AS BATIDAS AUMENTAM MAIS.)
BABY — Eu acho que a gente só pode dizer que nós não temos culpa. Que nenhum de nós tem culpa de nada. A única coisa que nós estamos tentando fazer é encontrar o jeito de dar um passo além do fim do mundo.
Caio Fernando de Abreu. Pode ser que seja só o leiteiro lá fora (1973).
A peça Pode ser que seja o sol1 (carinhosamente chamado pelos atores de “O Leiteiro”) é uma encenação da peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora, de Caio Fernando Abreu (1973). Foi escrita na época da ditadura militar no Brasil, momento em que o escritor e dramaturgo vivia em Londres com grupos de jovens hippies, que buscavam fugir do status quo e do contexto político-social dos anos 70.
Segundo texto veiculado pelo jornal Correio da Bahia, de 3 de julho de 1992, que divulga a estreia da peça no estado, o título da obra de Caio foi inspirado em uma declaração feita pelo governador do extinto estado da Guanabara (atual município do Rio de Janeiro), Negrão de Lima, em 1968. Já em pleno período ditatorial, o governador afirmou que em seu governo, quando batessem à porta, as pessoas podiam ficar tranquilas, porque seria apenas o leiteiro2.
Imagem de divulgação do espetáculo no facebook do TPE. Disponível em: <https://www.facebook.com/TPEteatropesquisaextensao/photos/a.150657462246980/1238518383460877/>
A escrita dramatúrgica de Caio, no contexto de Pode ser que seja só o Leiteiro lá fora, buscava retratar o medo das pessoas que viviam em um contexto de violência e terror estatal – contexto que se expandiu nas décadas seguintes, com os desdobramentos da Guerra Fria e da ameaça iminente de guerras nucleares que assombravam o mundo3.
Podemos inferir que as personagens de Possa Ser que seja só o leiteiro lá fora (1973) são jovens burgueses, visto o nível intelectual, o apreço pela língua inglesa, entre outros. Jovens que, no intento de romper com o capitalismo, deixaram as mordomias de suas casas e foram viver em grupos com ideias comuns, na tentativa de sobreviver ao fim do mundo (ditadura militar)4.
(Caio Fernando Abreu: Alteridade e Identidade – Vós)
A peça, nesse sentido, é bastante datada, procurando retratar o momento de jovens em um período muito específico da história, trazendo peculiaridades da época, com personagens caricatos que se utilizam muito de gírias, modos de se expressar e vestir ligados àquele contexto político-social: a história conflituosa de jovens que vivem em grupo, quando acabam atingidos por uma tempestade e têm que buscar abrigo para passar a noite. Uma peça metafórica, por assim dizer, em que tal busca representa a procura das personagens por um lugar seguro contra as mazelas do mundo, um espaço de resistência e sobrevivência a tudo de ruim que pode acontecer. Um “abrigar-se”, que faz com que dentro deste “lugar aparentemente seguro” sejam trazidas à tona as suas verdades mais íntimas. Assim, desenvolvem-se os conflitos durante a peça, que se passa toda em um mesmo lugar: a casa bagunçada e desorganizada, que serve de palco central da peça.
Sala de uma casa abandonada. Na verdade, parece mais um quarto de despejo, atulhado de objetos fora de uso: colchões furados, guarda-roupas, espelhos quebrados, cadeiras rasgadas, lixo, enfim, e até mesmo objetos absurdos que ficam ao gosto do diretor5.
Nesse lugar temporário, as personagens sentem-se confortáveis para discorrer a respeito de seus pensamentos e visões de mundo, bem como seus planos para o futuro, apesar de constantemente se perguntarem o que acontece lá fora, se alguém da casa ou da polícia vai chegar para expulsá-los.
Assim, quando ouvem batidas na porta, assustam-se, considerando que possa ser a polícia, os vizinhos, os reis magos, extraterrestres, sobreviventes de uma explosão ou simplesmente o leiteiro: “Nesse momento ouvem-se batidas muito fortes na porta. Ninguém se move. Um pequeno intervalo e as batidas se repetem, cada vez mais fortes”. (ABREU, 2009, p. 93)6.
(Site UFRGS)
Ao final da peça, a chegada de uma nova personagem – que aparece trazendo notícias a respeito do mundo exterior – provoca uma reviravolta: o mundo lá fora não existe mais, uma explosão acabou com tudo e não haverá mais amanhecer. Todavia, após o choque, há um breve período de recolhimento, com um futuro esperançoso de uma das personagens: “A única coisa que estamos tentando fazer é encontrar um jeito de dar um passo além do fim do mundo.”7 Em outras palavras, o mundo não acabou, o dia amanhece e as personagens sobrevivem para viver mais uma noite.
Pode ser que seja o sol é o trabalho de uma das turmas da disciplina de Atuação III, no curso de Teatro da UFRGS, orientada pela professora Patrícia Leonardelli (que também assina a direção do espetáculo). A obra, portanto, foca-se bastante no trabalho de atuação do seu elenco, preocupada em atender a demanda da disciplina, mas acaba deixando alguns detalhes de lado, como transições de cena, movimentações e deslocamentos, cenário, luz e som.
A disciplina de Atuação III é oferecida pelo Departamento de Arte Dramática / DAD, e faz parte da Etapa 03 dos cursos de Bacharelado e Licenciatura em Teatro. Normalmente, ao final da disciplina, são apresentadas cenas curtas criadas pelos alunos. Neste caso, a turma decidiu encenar um texto completo e que contemplasse, ao mesmo tempo, todos alunos. Por isso mesmo, na primeira apresentação da montagem, vários personagens eram interpretados por dois ou mais alunos, escolha que foi mantida parcialmente para a temporada no TPE.
Pode ser que seja o sol buscou manter o texto na íntegra com algumas pequenas modificações e cortes, trazendo o enredo para o contexto atual. As mudanças, no entanto, são tímidas e, já num primeiro momento, percebe-se como o texto de Caio se encontra defasado historicamente, perdendo parte de sua potência por estar muito vinculado a um período específico da história. As personagens do texto acabam sendo um pouco estereotipadas, já que “estereótipos comunicam instantaneamente de modo a passarem uma informação rapidamente para o público8”. Desta forma, as personagens representam tribos no período dos anos 1970 e 1980: temos os hippies, o roqueiro, o grunge niilista, o mochileiro… Essas tribos não existem mais com a mesma conotação hoje em dia, o que nos faz refletir a aproximação com o contexto atual.
O ritmo inicial da peça é leve e logo o público tem a chance de se aproximar de Baby, representado por Renê de Palma, um rockeiro otimista que, com suas tiradas afiadas, faz o público rir. O jogo de cena de Baby com João (Clarissa Machado) e Léo (John Pereira) introduz o espetáculo de maneira divertida, o que amorna um pouco depois, pois o ritmo fica um pouco mais lento. A chegada de Mona (Mônica Riveiro) devolve ritmo da peça, apesar de sua entrada ser levemente alongada – estranhamente, as personagens que estão em cena nem a olham, ficando um pouco deslocada sua chegada. Mona é uma das personagens que conduz a trama, e tira muitas risadas do público com seu jeito viajado e suas teorias esotéricas. Destaque para o trecho no qual analisa os amigos Baby e Leo em cena: o trio se conecta com o espectador e há um jogo de cena divertido.
Baby tem dois monólogos com textos muito tocantes, e que evocam muito sentimento. Em um momento, em seu diálogo com Léo, diz para que este olhe no fundo dos olhos dele e veja se não se enxerga, afirmando que não precisa ter medo. Ao final da peça, Baby vem para a boca de cena, olha nos olhos do público e diz que todos só estavam a procura de uma maneira de sobreviver ao fim do mundo.

(Foto: Vivian Azevedo)
Outros pontos de destaque são algumas escolhas de encenação que discordam da intenção do dramaturgo. No texto original, por exemplo, Mona oferece um “chá de ervas do Nepal” às personagens, com o intuito de resolver um conflito desenrolado pela cena. Na rubrica, Caio Fernando diz: “O AUTOR ACHA IMPORTANTE ESCLARECER QUE, A PARTIR DE AGORA, NADA MAIS TEM EXPLICAÇÃO9”. Tal mudança não fica clara na montagem, com as personagens continuando na mesma energia e intenção de antes, não acentuando a virada, a transformação das personagens. Por si só, isso não seria um problema, pelo contrário: denotaria uma grande criatividade e originalidade do grupo. No entanto, tal escolha acaba prejudicando o próprio desenrolar da trama e o desenvolvimento das personagens, pois o texto segue por um caminho mais caótico, e as personagens não acompanham.

Cena do chá de ervas de Mona. Imagem do espetáculo apresentado no dia 14 de setembro de 2022. Foto:Juliana Strehlau)
Seguindo no ritmo da entrada das personagens em cena, Rosinha (Gabriela Moraes), no texto de Caio, tem poucas falas e, assim como João, pai do seu filho, são personagens planos, que ficam um pouco apagados perto dos outros, mais enérgicos e com mais nuances. Certamente, não é fácil manter nove pessoas em cena, mas, talvez, poderia-se aguçar mais sua vida em cena se tivessem mais diálogos ou aprofundassem suas intenções. Outras encenações tiveram decisões mais enfáticas, como do grupo Teatro Ofídico, que retirou uma personagem sem grandes perdas para a montagem10.
Uma consideração, dando outro spoiler da peça: Rosinha está grávida e acaba por ter um parto prematuro de seu filho no meio de uma confusão de um barulho que seria uma explosão. Na primeira vez que assisti a peça, a cena não dá a entender que este bebê teria nascido morto, a não ser depois, com a fala das personagens… Já na segunda apresentação, fica claro o ocorrido e os atores fizeram a encenação com o jogo de um pano vermelho. Porém, é um tema bem delicado e que passa batido, logo em seguida, com Rosinha sorrindo e pedindo para que Baby cante uma música… Por mais “doidões” que estariam nessa cena, eventualmente sob efeitos de alucinógenos, quem passa por uma situação semelhante sabe que não é tão fácil assim passar por cima disso, e é um sofrimento a ser considerado.
O desenvolvimento do espetáculo se dá com a entrada e saída de personagens, que vem com força com a entrada de Alice Cooper (Dara Deon) e Angel (Lucas Leal), que novamente dão ritmo para a peça e ganham o espectador. De certa forma, o grupo tenta fazer a atualização da personagem Alice Cooper (inspirada no ícone do rock dos anos 1970), originalmente pensada para ser feita por um homem, e que aqui é apresentada como uma personagem não-binária. A mudança, no entanto, acaba puramente simbólica, com a personagem mantendo o nome original de Alice, e com o figurino ainda sendo aquele típico dos metaleiros glam (com peças de couro por todo o corpo).
Em geral, as transições das personagens se dão de forma bem marcada, ficam evidentes suas posições para falar monólogos ou dar espaço para o colega falar, aproveitando o grande palco da Sala Qorpo Santo.
A última personagem a entrar em cena é Carlinha Baixo-astral, o duplo de Mona (a rainha do alto-atral). Ela anuncia o prelúdio do fim do mundo por uma bomba nuclear e, nessa encenação, é interpretada por duas atrizes: Alicia Froener e Alycia Cavalli, que fazem um trabalho em equipe dando mais uma movimentação para ao final do espetáculo. Elas dão falas em conjunto e mostram uma personagem que varia um pouco do paz e amor da maioria do grupo.

(Site da UFRGS)
A montagem se encerra com as personagens dormindo, esperando por um novo dia. Logo em seguida, a atriz Gabriela surge cantando Como nossos pais, eternizada na voz de Elis Regina, com uma projeção de vídeo ao fundo, mostrando imagens da recente demolição da casa onde viveu Caio Fernando Abreu, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Duas considerações particulares: a imagem da casa sendo destruída é bastante forte, mas não havia indicativo algum que se trata da casa de Caio, dificultando a compreensão imediata da plateia. E, apesar da letra da canção ser linda e da cantora ter uma voz linda, a cena acaba sendo uma finalização um tanto clichê.
Com Pode ser que seja o sol e tantos outros espetáculos, eventos e festivais como a Mostra TPE e Mostra DAD, ambos do Departamento de Arte Dramática da UFRGS, são ótimas oportunidades para os artistas estudantes se experimentarem e desenvolverem seus trabalhos em contato direto e prolongado com o público. Assim como é importante para o público acompanhar de perto (de forma regular e gratuita) o que está sendo produzido em uma universidade pública e de qualidade como a UFRGS.
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Sinopse11: Selecionado para o mês de Setembro da Mostra TEATRO, PESQUISA E EXTENSÃO 2022, ” Pode ser que seja o Sol” trata-se de uma livre adaptação da obra “Pode ser que seja só o leiteiro lá fora”, de Caio Fernando de Abreu. Sete pessoas encontram uma casa aparentemente abandonada e resolvem passar a noite nela. Nesse curto período discutem sobre a vida, seus desejos e medos… Porém, quanto mais as horas se passam a ilusão começa a tomar conta do ambiente, e as verdades se distorcem em uma explosão de emoções que constrói um caminho sem volta através da imaginação daquelas pessoas. O pudor do corpo perde o sentido e fica apenas o desejo de ser o que quiser e a liberdade em ser o que se pode ser, mesmo que isso traga consequências negativas para eles.
Direção: Patricia Leonardelli
Elenco: Alicia Froener, Alycia Cavalli, Gabriela Moraes, Clarissa Machado, Dara Deon, John Pereira, Lucas Leal, Mônica Rivero e Renê de Palma.
Produção e Figurinos : O grupo
Iluminação: Bathista Freire
Fotos: Vivian Azevedo
Sonoplastia: Pati de La Rocha
Dias 14, 21 e 28 de Setembro, às 19h30
Sala Qorpo Santo – Campus Central UFRGS – Rua Paulo Gama, s/n
1Peça apresentada no mês de setembro de 2022 pelos alunos do Departamento de Artes Dramáticas (DAD) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na sala Qorpo Santo, participando da mostra TPE – Teatro, Pesquisa e Extensão desta Universidade.
2Refugiados em si mesmos: O isolamento humano na dramaturgia de Caio Fernando Abreu. Twyne Soares Ramos. 2016. Pg. 59.
3A alteridade masculina em Possa ser que seja só o leiteiro lá fora (1973) de Caio Fernando Abreu. Silva, Jefferson José Rodrigues da. UFRPE, 2018. Pg 16.
4 A alteridade masculina em Possa ser que seja só o leiteiro lá fora (1973) de Caio Fernando Abreu. Silva, Jefferson José Rodrigues da. UFRPE, 2018 . Pg 18.
5Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Peça em um ato. ABREU, Caio Fernando (1973). Disponível em: <https://toaz.info/doc-view>
6Refugiados em si mesmos: O isolamento humano na dramaturgia de Caio Fernando Abreu. Twyne Soares Ramos. FURG, 2016.Pg. 77.
7Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Peça em um ato. ABREU, Caio Fernando (1973). Disponível em: <https://toaz.info/doc-view>
8Estereótipo e Stanislavski na construção da personagem Carla em 3×4 (2015). Da Silva, Yasmin Barroso.
9 Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. Peça em um ato. ABREU, Caio Fernando (1973). Disponível em <https://toaz.info/doc-view> pg. 17.
10Crítica de Rodrigo Monteiro em 24 de jan. De 2011 no http://teatropoa.blogspot.com/2011/01/pode-ser-que-seja-so-o-leiteiro-la-fora.html
11https://www.sympla.com.br/evento/pode-ser-que-seja-o-sol-mostra-tpe-2022/1675171
Qorpo Qrítico – Vol. 04, n. 10, julho a outubro de 2022. ISSN 2675-4207.



