Burlesquemo-nos – por onde tudo começa?

As coisas começam de umas formas engraçadas né? Quando a gente menos espera, tá lá fazendo uma coisa que nem era uma super ideia e se deixa invadir e é levado.

O burlesco entrou na minha vida meio por acaso, assim… Gosto e tenho cada vez gostado mais de pensar o erótico, a transgressão, o sexo, o underground… e na matrícula do semestre da faculdade de Arte Dramática tinha lá uma cadeira: laboratório de práticas cênicas, fui ler e estava lá a intenção de desenvolver experimentações de burlesco e cabaré. Opa! A pulguinha já se instaurou atrás da orelha.

Acontece que sou mulher. E como nós sabemos, o corpo é uma questão. Sou atriz, ok, a gente se experimenta em personagens e estórias e tramas… mas a minha primeira ideia quando se falava em burlesco é: vou ter que tirar a roupa. Um breve pânico se apossou na minha respiração. Tenho um histórico difícil de aceitação com meu corpo. Aquela história que nós, mulheres, conhecemos bem. Todo mundo diz que tá tudo certo, que tá tudo bem…. Mas levamos uma enxurrada de padrões nos nossos corpos desde muito cedo (sim, as coisas estão mudando, eu acredito que sim mesmo…mas também, 2023 gurizada, demorou!) e mesmo no inconsciente ficam várias flechinhas sendo lançadas em diferentes formas.

Depois de muitos anos, inclusive nem aceitando que eu realmente tinha problemas com essa questão, afinal, sou feminista, mulher, empoderada. Não posso me deixar levar por padrões estabelecidos por uma sociedade doente. No fundo mesmo, isso me atravessava e me gerava muito sofrimento. Ao longos dos anos, graças a leitura, terapia, conversas, mulheres fodas que conheci fui finalmente amadurecendo nesse processo e voilá. Vou fazer essa cadeira. Quero mesmo é tirar a roupa, ficar pelada e experimentar como é me expor numa das minhas maiores fragilidades.

O professor Henrique Saidel, orientador dessa disciplina tem uma condução muito generosa e leve, faz com que nada seja um susto ou um grande desafio. Faz desafiosinhos, pequenas conquistas, vamos aprofundando tema. Vamos estudando o porque da importância de ter um lugar de burla, de questionamento desses padrões que nos impõem e como fazer para encará-los de frente.

Muitos exercícios, muita leitura, muita diversão. Porque também é sobre isso, rir de si mesmo, rir das coisas, rir do que dá errado, rir, afinal. Mas, né. O final do semestre chega e temos que apresentar uma cena burlesca. Aí o buraco é mais embaixo. Tô fudida. Não sei o que fazer. Quero dizer tanta coisa, quero fazer tudo, quero colocar todas as opções de coisas que quero burlar, me afirmar, me experimentar… choro, dúvida, angústia.

Ideia. Vou pro Guarda-roupa. Sim, lá no departamento temos um grande e enorme guarda-roupa com muitos figurinos, peças e adereços que os estudantes utilizam nos exercícios, ensaios, peças gerido pela guru dos figurinos Gisela Habeyche. Fui pra lá com a guardiã-mor do Guarda-roupa, a perfeita da Thais Diedrich e resolvi ver o que tinha por lá pra ver se surgia alguma fagulha de ideia pro número.

Experimenta, cata, roupa muito grande, roupa detonada demais, roupa que não entra. Pá. Um puta de um vestido de noiva gigante. Amei, vou experimentar, ficou perfeito. Thais perfeita diz que eu sou obrigada a fazer a Madonna, então. BRILHO. Sou envolvida por uma nuvem imaginária de glitter e acho a ideia genial.

Fui então pra sala de ensaio, pensei em casa, mostrei em aula. Fui no centro, adquiri uns badulaques em lojas duvidosas. Meio que temos então.

A ideia do número então começou assim. Começa tocando Ave Maria, com o “Pavarotti”, vou entrando lentamente pelo espaço, pedi pros colegas me jogarem arroz, levo um buquê de flores na mão. Em dado momento há uma indecisão que culmina na desistência do dito casamento, pausa, joga as flores no chão e começa a tocar “Like a Virgin”. Muda a energia da performance e começo a me despir, rolo no chão, fico de lingerie e coturno, no final jogo o buquê pra plateia e chuto a porta de saída.

 

Bom, isso é como foi a primeira vez que apresentei esse número, na Alziro Azevedo, lá no DAD, na mostra de exercícios cênicos do final da cadeira. Depois disso vieram oportunidades para apresentar em outros lugares, formamos um grupo de burlesco experimental, o BURLESCAGENS, e o número foi se modificando, alteramos algumas partes, fui dirigida pela Julia Kieling, onde chegamos em outras camadas, apresentamos e meio que agora tem duas versões da performance, com participação especial (da Thaís Diedrich, André Daitx e Franco Mendes) quando rola e a versão totally alone.

Claro que assistir é mais interessante que ler sobre, mas enfim, o lance do número é bem obvio. Dizer não, que não aceitamos mais padrões patriarcais impostos, que nem toda mulher quer a mesma coisa, que às vezes o que a gente quer é chutar essa porta do que esperam que a gente faça nesse imaginário senso comum antiquado.

Tudo pra dizer que essa performance veio a partir de uma coisa aparentemente aleatória, mas que me levou pra lugares de descobertas incríveis a respeito de mim enquanto mulher, como artista, como pessoa. O burlesco entrou na minha vida aqui, mas fui mordida. Tenho levado muito a sério a história de me divertir. Ainda quero seguir nesse caminho por um tempo. Saber pra onde me leva e trilhar os caminhos que quero seguir.


 
Qorpo Qrítico – Vol. 05, n. 12, março a julho de 2023. ISSN 2675-4207.