Acorda y Canta: prenúncios e potenciais

Poucas coisas na realidade de um ser humano são capazes de servir como prenúncio de uma vivência. Poucas. Pouquíssimas. Temos a chuva. Temos o sol. O preticor que se faz presente após a queda inesperada de um temporal. Temos a palpitação inexplicada no peito ansioso de alguém. A intuição imotivada. A dúvida persistente. Mas também temos a música. A canção. O som ordenado e vocalizado. Talvez, o melhor de todos os prenúncios. Quem de nós não experimentou algo após o irradiar daquela música preferida? Quem de nós não atravessou a própria humanidade depois do tocar de uma canção? É quase um fardo. Um fardo positivo, obviamente. Lembro, por exemplo, que nos primeiros momentos de meu relacionamento atual cada carícia, cada carinho, ocorria frente ao término de alguma música. Às vezes, uma música de minha preferência. Às vezes, uma da preferência da minha companhia. Era como um informe do que iria acontecer. Um anúncio do próprio afeto humano. Um arauto. E isso não foi diferente em Acorda y Canta, espetáculo-produto do Estágio de Atuação de Luana Milidiu junto ao Departamento de Arte Dramática da UFRGS.

A música em questão: uma mostra do dom de Jota.pê. Uma ode, antes de tudo, à brasilidade, mas acima de tudo à humanidade. Garoa. Eu nunca mais esqueceria essa canção, que ecoava enquanto os angustiados espectadores ocupavam as poltronas da Sala Alziro Azevedo. Uma garoa que molhava e anunciava, sem pudor ou reserva qualquer, a potencialidade que se desvelaria diante de nossos olhos.

Eu já conhecia Luana. Dos corredores do departamento, da rotina acadêmica. Da vida. Era evidente, mesmo que de longe, sua capacidade e dedicação às artes cênicas. Em Acorda y Canta, o que era distante converteu-se em próximo e o apreendido apenas se confirmou, ao mesmo tempo que os espectadores presentes, entre os quais me incluo, eram convidados a mergulhar na obra.

A peça teatral, composta por muitos integrantes do Departamento de Arte Dramática da UFRGS, além da própria estagiária e protagonista, detinha um convite particular: conduzir a plateia a discutir a mais ancestral das dualidades existentes no ser humano – a tristeza e a alegria. Contudo, não era uma discussão nos moldes semânticos ou acadêmicos, onde o objetivo do proposto diálogo é a tomada de decisão ou o alcance de algum grau de saber. A discussão criada pelo espetáculo repousava na vontade única da contemplação dessa dualidade. Em termos mais simples, quem ocupasse uma daquelas cadeiras estava convidado a discutir a tristeza e a alegria, mas sem compromisso de produzir algum juízo sobre elas. A única demanda era contemplar tais sentimentos.

Serei ousado em dizer, apesar deste não ser um espaço de sentenças definitivas, que sem esta máxima, sem este caminho, Acorda y Canta não seria o que se transformou. Sua extraordinariedade abrigava-se na sua função, na escolha de rumo, no norte que tomara para si. Claro. Outro cenário não seria de todo ruim. Uma mescla do já citado talento de Luana com um espetáculo bem construído não seria uma má aposta. Pelo contrário. Seria algo ímpar. Porém, entre o ímpar e o extraordinário há um incômodo precipício.

A discussão instada por Acorda y Canta movia o mais rígido dos observadores. Não havia quem, naquela sala tão emblemática para o teatro gaúcho, mantivesse-se incólume diante da produção catártica. Não havia como preservar alguma solidez esvaziada de emoção naquele espaço. A certa altura, quando vozes gravadas se misturavam com o mover silencioso de braços e pernas, qualquer isenção ou tentativa de assim manter-se constituía um crime de lesa-humanidade.

Para alcançar esse cenário, a peça teatral precisou expandir o conceito de dualidade para além da função-mor de sua existência. Era preciso transbordar os limites do compromisso e ser dual em tudo: nas ações, nas palavras, nas escolhas. O mise-en-scène, portanto, não ficou de fora. A disposição em palco deveria refletir essa dualidade. Tudo, visando conduzir as trocas para a fronteira das possibilidades. A dualidade transformar-se-ia, então, em um paradoxo, no qual, no palco, uma parte anularia a outra, em um movimento de repulsa e aproximação típico das desventuras físicas.

“Créditos: Luana Milidiu/Arquivo Pessoal”

Este foi Acorda y Canta. Uma experiência sem-par, no melhor sentido deste termo. Não à toa escolhera Garoa para anunciar-se ao mundo. Consciente ou inconscientemente, tinha ciência de seu potencial. Sabia que ganharia nossos risos, choros, corpos e almas.

 

ACORDA Y CANTA

Estágio de Atuação de Luana Milidiu
Orientação: Professora Doutora Cláudia Sachs
Datas das apresentações: dias 24, 25 e 26/11, quinta, sexta e sábado
Horários das apresentações: dias 24 e 25/11, às 20h; dia 26/11, às 17h
Local: Teatro Alziro Azevedo (Avenida Salgado Filho, 340 – Centro Histórico, Porto Alegre)
Ingresso: entrada franca
Classificação indicativa: 12 anos
Fotos de divulgação: Renê de Palma

Sinopse:Distintas, iguais, amigas, amantes, confidentes, parceiras e opostas, imersas em uma colcha de retalhos-histórias que dá vazão às diversas formas de amor possíveis entre duas mulheres. Um olhar através dos pontos, costurados com músicas, palhaçadas e lágrimas, revelando as dores e delícias de ser o que se (quer ser) é.

Ficha técnica
Elenco: Luana Milidiu e Lara Vitoria
Direção: Luiza Escandiel
Orientação cênica: Eduarda Ouriques
Dramaturgia: Luiza Escandiel, com colaboração de João Pedro da Cunha
Voz: Laureana Brayer
Iluminação: Bathista Freire, com colaboração de Lara Vitória
Cenografia: Maria Carolina Aquino e Marcelo Neves, com colaboração do grupo
Indumentária: Marcelo Neves
Produção: Eduarda Ouriques, com colaboração de Luana Milidiu
Trilha sonora: o grupo
Operação de luz: Bathista Freire e Henrique Strieder
Operação de som: Duda Rhoden e Marcelo Neves
Arte do banner e divulgação: Júlia Terra
Gravação voz: Kelvin Machado


 
Qorpo Qrítico – Vol. 05, n. 12, março a julho de 2023. ISSN 2675-4207.