Existem dois tipos de medo. Um é o paralisante, que congela suas entranhas e inibe qualquer reação positiva. É o medo comum, tradicional, fruto de infinitas transformações genéticas e evolutivas. O outro é o medo impulsionador, fomentador. É ele que, quando acionado, instala a consciência da realidade fática e possibilita respostas positivas mesmo em momentos difíceis, mesmo em contextos fatais. É ele, esse medo, que preserva a nossa humanidade quando o previsível, o normal, o esperado, o meticulosamente calculado dá lugar ao caos simples e puro.
Este é um medo constante. Não à toa, quando notícias acerca dos rumos catastróficos da espécie humana avolumam-se, textos e mais textos irrompem, corajosos, dissertando sobre o que faríamos durante e após o tão temido fim. Estamos com medo. Esta é nossa realidade. Com medo, mas instados. Acuados, mas de pé. Prontos para falar de nós e de nossos sentimentos enquanto o relógio dá sua volta derradeira. E é nesse cenário permeado pela risco existencial e pela necessidade de falar que surge Se eu tiver um amor no fim do mundo, por favor não me acorde, peça que compôs, no último dia 17 de Abril, a Mostra de Cenas de Atuação IV, do Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Totalmente original, de autoria dos próprios atores – Damiel Brocker e Endrius Nu, a peça foi apresentada na Sala Qorpo Santo, no Campus Centro da UFRGS, em uma noite fria, tão fria quanto um episódio de uma série apocalíptica daquelas que jazem aos montes em plataformas de Streaming. A obra, construída em muito pouco tempo e frente a adversidades diversas vividas pelos artistas envolvidos, contava uma história simples: dois atores, dois namorados, refugiam-se na Qorpo Santo quando o mundo assiste, como dito em cena, seus “sistemas materiais e simbólicos” caírem ao chão, pesados, mortos.

Era uma peça teatral com sabor de final de festa. E a festa era a nossa. Contudo, não tratava-se do final normal, atravessado por intensas luzes estroboscópicas e por músicas que, despedindo-se, iniciam um progressivo baixar de volume. O final em questão era o pior de todos. O mais indesejado: o término abrupto, intenso, vazio. O findar que deixa como rastro apenas a luz inexistente e um oceano de balões dispersos.
Nesse fim de festa, conhecemos Damiel e Endrius (Sim, os dois preservam seus reais nomes – uma feliz tática que revestiu a dramaturgia de mais realidade).O casal de atores, de amigos, de namorados, conduz a plateia, risonha e chorosa, por uma caminhada ora dos dois e ora individual. Uma caminhada sem ponto de chegada, limitada pela impossibilidade de saída e pelo igualmente proporcional desejo desesperado de permanência. Uma caminhada imposta. Uma caminhada amedrontada. Uma caminhada de sobrevivência.

Com uma cenografia econômica, usuária de elementos tão simplórios quanto o texto, como balões, pistolas de água, flores, cadeiras e mesas, a história se desenrola. Em um primeiro momento, conhecemos a fase inicial de toda perda – a insistente alegria. Damiel e Endrius narram seus primeiros dias após o fim de tudo. Nessa fração da obra, o amor dos dois é desnudado, dominando o ambiente e escamoteando o armagedom. As cenas nascem e são ritmadas pela paixão que une os dois jovens. Não sentimos dor. Não notamos que a festa acabou.
Então, o degrau seguinte. O mal exterior invade o santuário construído, lançando o casal na realidade. Há medo, ansiedade. Vontade de sair e medo de permanecer só. Um cabo de guerra ergue-se no meio da dupla, afastando e aproximando-os.. A insistente alegria desvanece frente a um novo cenário. Ao finalíssimo cenário. O fim exterior também pode ser o fim interior.
E o término nos atinge. Rápido. Potente. Agressivo. Um salto para frente e fitamos o abandono. A solidão. A sensação de desnorteamento. A saudade que exala na ausência de alguém amado. Endrius desperta no palco e não encontra mais Damiel, seu parceiro de vida e refúgio. “Ele se foi há muito”, diz o texto. Ao mesmo tempo e em complemento, a obra grita: “ele era real”. A festa tinha seu encerramento.
Quando as luzes da Sala Qorpo Santo retomam a normalidade, há êxtase no ar. Se eu tiver um amor no fim do mundo, por favor não me acorde havia, como diz o velho ditado, mirado no que visualizara e acertado o que não enxergara. Erguida a partir do medo que circula na sociedade humana sobre um eventual final de tudo o que tomamos como nosso mundo, a peça teatral foi além. Convertera o mote principal em uma premissa secundária, porém igualmente essencial e reflexiva da macroestrutura. O findar vigente deixa de ser somente global, coletivo, social ou comunitário. O fim, o final, o término, torna-se também algo do campo pessoal, individual, restrito. Não apenas o risco de extinção física ou semiótica constitui uma espada de dâmocles. Há o risco de se perder e de perder alguém. Há o risco de perder o amor. E há, por consequência, medo. Medo de perdermos. Um medo que nos afeta, nos alerta e nos faz avançar.

Sinopse: A saída está, expressamente, proibida! Lá fora, no mundo, um caos… aqui dentro, no teatro, dois atores apaixonados um pelo outro se inventam todos os dias como sobrevivência. Até quando essa invenção pode durar? Até quando esse ninho aguenta? Se o ser humano, natural como é, nasce, cresce e morre, todas coisas que partem dele não compreendem o mesmo ciclo? Entre amor, medo e saudade, o casal dança e brinca num intenso jogo de olhares que se contradizem e se complementam. Aliás, eu sou Valquíria! A consciência artificial desse teatro.
Ficha Técnica:
Elenco: Damiel Brocker, Endrius Prates e Nairim Tomazini.
Direção: O grupo.
Dramaturgia: O grupo.
Iluminação: Bathista Freire e Li Pereira.
Operação de Som: Laura Fensterseifer.
Fotos: Renê de Palma
Orientação: Patrícia Leonardelli
Qorpo Qrítico – Vol. 05, n. 13, agosto a novembro de 2023. ISSN 2675-4207.
