RE RE RECOMEÇAR

RE RE RECOMEÇAR

Foto: Vivian Gradela

 

 

  As chuvas e enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul iniciaram ainda no final de abril, duraram semanas e deixaram a população abalada por tempo indeterminado. Alguns artistas e grupos de teatro também foram afetados em diversos aspectos, seja em suas sedes, materiais de trabalho, ou pela suspensão de seu ofício nesse momento sensível.

  Atendo a esse contexto, e acreditando no potencial transformador da arte, o SESC Alberto Bins promoveu a mostra “Recomeça Teatro” que conta com oito apresentações de artistas gaúchos, entre os dias 08/06 e 21/07. A entrada é 1kg de alimento ou um produto de limpeza que serão encaminhados para o Sindicato dos Artistas. No primeiro dia do evento, foi apresentado o espetáculo “Manifesto de uma mulher de teatro”, monólogo da multiartista Tânia Farias, construído pelo grupo Ói Nóis Aqui Traveiz. 

  No manifesto, a atriz trata das violências que ameaçam, ferem, matam e culpam tantas mulheres. Sozinha no palco, com sua voz em primeira pessoa, é capaz de sensibilizar profundamente o público: é importante que, enquanto mulheres, possamos nos apoderar de nossas narrativas. 

  Ela também passa por mulheres que contribuíram para sua construção como alguém que se recusa a estar de acordo com as expectativas de uma sociedade conivente com essas violências. O trabalho de Tânia traz canções de Violeta Parra (1917), que foi porta-voz dos trabalhadores, mulheres e da memória do povo chileno; faz suas as palavras de Gioconda Belli (1948), poeta e guerrilheira; revisita a personagem Ofélia de “Hamlet Máquina” que, mesmo com sua figura radicalmente objetificada, segue denunciando as desigualdades de seu tempo (a peça de Heiner Muller foi escrita em 1977 e montada pelo Ói Nóis Aqui Traveiz em 1998). E homenageia, também, a dançarina e amiga Magó que, em 2020, foi violentada e assassinada, gerando comoção e luta na mobilização “Magó Presente”.

  Tânia denuncia, canta e dança em memória de sua amiga com carinho e fraternidade, e ao estender sua ação às mulheres da plateia em arena, a atriz ressalta a união e mobilização como caminhos para termos voz. Manter essa voz ativa, mesmo com as adversidades que se apresentam nesta sessão, dá uma nova camada ao teor político do manifesto. 

  Ao final, ela entoa “Ni una a menos”, e na plateia repetimos juntas, como uma prece.

  É preciso falar sobre feminicídio, violência de gênero, sobre as agressões que persistem no tempo e nas nossas histórias, que são evocadas e re-evocadas a cada notícia de que mais uma mulher foi vítima dessa cultura de ódio e controle que recai sobre nossos corpos. Dói ouvir, dói falar, dói escrever, dói ser, mas é preciso que tenhamos a nossa persistência, que tenhamos espaço para repetir quantas vezes for preciso: PAREM DE NOS MATAR.

  A atuadora ainda comenta sobre as dificuldades e satisfações de retornar aos palcos nessas circunstâncias. O Ói Nóis Aqui Traveiz, grupo do qual faz parte, teve sua sede intensamente atingida pela enchente e, para essa apresentação, precisaram se reinventar mais uma vez.

  Naquele dia, havia uma atmosfera de comunhão e reencontro, público e artistas ocuparam e acreditaram nesse lugar sobrevivente, marcado por inúmeras reconstruções, refúgio sagrado: teatro.

  A programação seguiu com os espetáculos: Peter Pan (Cia Ronald Radde); Trivial – um espetáculo de bboys – pocket (Coletivo N Mostra Urbana); As Gineteadas do Valente Toninho Corre Mundo na Estância de Cidão Dornelles (Grupo Tia); Histórias de encanto e alumbramento (Barbara Catarina); Pulí-pulá (Grupo Cerco); A máquina do tempo (Grupo Oigalê); Mu e Malu: dando asas à imaginação (Cia Luminosa). O festival oportunizou a união de artistas de diversas linguagens, que têm em comum o objetivo de recomeçar e continuar existindo.

 

 

Foto: Vivian Gradela

 

 

 

 

Foto: Vivian Gradela

 

 

 

Ficha Técnica

Criação da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz.

Atuação: Tânia Faria.

Operação de vídeo, som e luz: Lucas Gheller.

 

Qorpo Qrítico – Vol. 6 , n. 16 , agosto a novembro de 2024. ISSN 2675-4207.