EUREKAKAKA ou o riso pelo suspense ou um título absurdo

[alerta de spoiler: esse texto contém spoilers] aviso para não estragar o suspense divertido que a divulgação do espetáculo  “Ricardo Júnior” promete.

 

Tudo começa com Ângela e Ricardo, um casal de idosos que chegam amarrados um ao outro em uma sala com objetos cotidianos como sofá, televisão, ventilador, rádio, só que todos são muito antigos, quebrados e/ou fora do lugar. Ao lado do sofá ainda tem uma escada de obra aberta que não dá para lugar nenhum, aliás, em algum breve momento tenho essa impressão em relação a trama, digo porque os idosos começam a delirar com um passado que parece ser bem clichê, a versão  jovem do casal entra em cena, cada um tem uma revelação para fazer, ele está desempregado e ela está grávida. Apesar dos obstáculos, o futuro papai se vê animado e otimista. Os idosos assistem e comentam o passado, até que memórias, traumas e alucinações se confundem e a sensação de familiaridade com a fábula que nos trouxe até aqui só intensifica a surpresa e o absurdo que virão. Ricardo sai para procurar emprego e chega com os amigos para fazer uma festa (?), Ângela fica a parte limpando a sujeira enquanto os homens decidem o nome do bebê, que dará continuidade ao seu legado (??), se chamará Ricardo Júnior. A esposa surge com uma nova revelação: decidiu que vai abrir uma empresa para VENDER este e outros bebês (???), o marido pondera e depois… vibra com a ideia (????). 

No presente, os idosos sentam-se no sofá e tentam elucidar suas memórias quando surge mais um mistério, aparece um homem mascarado com movimentos frios e calculistas, que expõe seu rosto e o fato de ser aquele bebê, com muita calma ele afia uma faca, amarra e ameaça o casal, mas é interrompido por um policial atrapalhado que bate a porta várias e várias vezes, a cada uma delas chega um pouquinho mais perto de desvendar o caso, e então diz a que veio, investigar uma denúncia de maus tratos… à criança (?????) e os idosos é que vão presos.

A peça foi escrita por Gabriel Goulart no Departamento de Arte Dramática da UFRGS, e por lá fez sua estreia, retornando em cartaz no bar ocidente, através do grupo “Uma Pira”. Em ambas pude assistir um teatro vivo que incorpora o entorno, com atores disponíveis e irônicos. Na trama há um suspense divertido, assimilação de traumas por meio de um metateatro e exposição de padrões sociais através do absurdo. 

Ricardo Júnior cumpre suas promessas e vai além, nos lembra que a memória é abalada por sentimentos, interesses, limitações e que estamos constantemente criando uma narrativa sobre nós mesmos. Essas estórias se chocam e se entrelaçam em nós, passado e presente só se desatam pela relação de causalidade mostrada no final da encenação, quando tudo se elucida. A sensação de eureka com o desfecho justifica as expectativas criadas, tudo faz sentido, e até mesmo a escada de obra que parecia não levar a lugar nenhum é super integrada à ação de uma maneira bem absurda.  

 

 

Ficha Técnica:

Direção: O Grupo

Elenco:

Bruno Inácio Geraldi 

Giulia Cecília 

Rafael Dorneles

Raffael Silvestrin 

Gabriel Goulart 

Paloma Sanchez 

Dramaturgia: Gabriel Goulart

Cenário: O Grupo

Figurino: O Grupo

Arte Gráfica: Paloma Sanchez

Redes Sociais: O Grupo

Iluminadora: Alícia Froener

Sonoplasta: Artur Wais

 

Qorpo Qrítico – Vol. 6 , n. 16 , agosto a novembro de 2024. ISSN 2675-4207