Enclausuradas e o dever que precisa ser recordado

Há um desafio implícito na escrita de qualquer gênero, uma responsabilidade, um dever inderrogável: dissertar sobre algo de forma sincera, organizada, construtiva. É nossa pedra de roseta. Nosso mandamento. Nossa Carta Magna. O pouco de uniformidade que entrelaça os artesãos da pena e do papel ao longo do globo. E não é um desafio fácil de ser executado. Dissertar sobre algo nos termos apresentados é como andar no escuro. Você sabe que está andando, sente seus pés moverem-se na escuridão, mas você, o transeunte cego, desconhece o resultado, o produto, o que é guardado na linha de chegada. Apenas sabe que está andando. Apenas crê que necessita continuar a andar no breu. E, então, sobrevém a queda. Ou o tropeço. Você enfurece-se. Soca o ar. Ergue a voz e tece um palavrão. E outro. E outro. Porém, você levanta e prossegue o caminhar. Com muita dor, mas continua. Afinal, você está andando e é isso que realmente importa. É isso que importa fazer. É isso que importa falar. É isso que importa escrever.

Recordo este dever neste momento. E há uma razão justa para isso: eu caí, eu tropecei e preciso continuar caminhando, pois é isso que importa. Lembra? É isso que importa escrever, dar tom, contorno, camada. É isso que merece ganhar a luz, a forma, a essência e a prioridade, mesmo frente a dor do cair, mesmo ante o joelho machucado. 

É a Caminhada. Em todos os seus sentidos. Amplos, parciais ou restritos. Dogmáticos ou heterodoxos. Sentidos dramatúrgicos. Sentidos cênicos. Sentidos físicos. Todavia, é por este último que começarei.

Estar no dia 09 de Março de 2023 no Teatro de Arena de Porto Alegre (TAPA) foi uma experiência única. Cada passo lançado naquele piso reacendia o aprendizado obtido nos bancos da faculdade. Lembrei de pesquisas. Lembrei de textos. Lembrei dos registros da celebrada apresentação de Mockinpott, de Peter Weiss, em 1975. Lembrei e me deixei tomar pela lembrança. Lembrei até do que nunca havia vivido. Da resistência dominante naquele espaço. A história de um território que suportou (no sentido mais árduo da palavra) e combateu o autoritarismo mundano-militar, tão conhecido por nós brasileiros. E voltei eufórico. Para a realidade e a promessa do que a noite ofereceria.

“Enclausuradas: uma reflexão para além das grades” é uma peça teatral de autoria e direção de Marcos Cardoso. O elenco é composto pelas atrizes Ana Valencio, Anelise Caldini, Daiana Alves, Luana Gonçalves, Karina Bublitz, Luísa Both, Mariana Ruduit e, também, pelo ator Rafael Sandoval. Segundo a ficha técnica, a assistência de produção e o figurino são assinados, respectivamente, por Thell Maia e Mariana Brocardo. Ao que consta, todas e todos partícipes do Grupo Teatral Ras Art. “Enclausuradas: uma reflexão para além das grades” foi a promessa da noite. Era a promessa que me trouxera da lembrança, do devaneio, do recordar. A segunda caminhada da noite. Uma caminhada e uma queda.

Não vou dizer que a obra foi ruim (em uma arte cênica cada vez mais líquida e avessa aos regramentos oitocentistas, um conceito como esse não se justifica). O que há são caminhos. Caminhos apropriados e caminhos equivocados. Locus de trânsito que corporificam o todo. Locus bem pensados e locus construídos sem a devida paciência. E eles são o ponto-chave. O truque. A carta oculta na manga do jogador. São eles que determinam o rumo, o meio e afetam o produto. Eles são a mesa e a carta. A banca e o ousado competidor.

E é neles que repousa o problema de “Enclausuradas: uma reflexão para além das grades” – ou, vulgo, a minha queda. Parte dos caminhos adotados pela peça necessitavam de uma maior paciência. Da direção ao jogo em cena. Da organização mais básica à sonoplastia, existiram trajetos pouco pensados.

Mas é preciso continuar caminhando. Lembra?

 

Maicon Matos/Arquivo pessoal

 

Apesar desse cenário, “Enclausuradas: uma reflexão para além das grades” mostrou potência e valor por abrir diante dos nossos olhos uma ferida muitas vezes oculta do perceber coletivo – a vida no cárcere. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para o ano de 2022, o Brasil é o terceiro país com a maior massa prisional do globo, figurando atrás somente dos Estados Unidos da América e da República Popular da China. O número é aterrador: longe dos nossos olhares e corações, residem mais de 905.000 detentos e detentas, empilhados e empilhadas em unidades prisionais distintas e, quase sempre, precárias – para dizer o mínimo.

Ainda segundo o Conselho Nacional de Justiça, dentre essa turba aprisionada, 44,5% são encarcerados provisórios. Em resumo, o Poder Judiciário do Brasil prende muito e prende mal, construindo, como resultado dessa obsessão punitivista, um oceano de vidas e liberdades cerceadas, presas no sonho de estar em liberdade novamente.

“Enclausuradas: uma reflexão para além das grades” captura esse absurdo estado de coisas e lança-o no centro do Arena. Claro. Conforme dito, do seu jeito e por muitos e muitos caminhos equivocados. 

Não obstante a esse cenário, o resultado tem sua validade: da semiótica por trás da efusiva comemoração de liberdade de uma das personagens à cena simplória e desinteressada sobre o uso de algemas em uma mulher grávida, ou até a discussão acerca da culpa que diariamente atravessa a alma de quem perdeu a liberdade do corpo,“Enclausuradas: uma reflexão para além das grades” invoca, vacilante, a realidade do sistema prisional brasileiro.

“Enclausuradas: uma reflexão para além das grades” convoca para o palco histórico do Teatro de Arena o imaginário da plateia e implora que este transporte-se para longe do muro, para os lugares que sempre rejeitamos. É um clamor. Uma súplica para que possamos erguer o olhar e conhecer a nós mesmos.

Conhecer o país onde, até muito recentemente, era praxe uma presidiária grávida ser algemada durante o início do parto e mantida assim no decorrer dele. Conhecer um país onde, por acaso ou descaso, uma fração volumosa das pessoas encarceradas provisóriamente não acessam um julgamento justo ou a resolução de suas pendências judiciais, permanecendo, mesmo findo o tempo de prisão, no cárcere. Conhecer o país onde a saúde do preso habita um lugar marginal no pensar governamental e somente após o início da nova década tornou-se consenso, dentro do próprio poder judiciário, a responsabilidade do estado para com a dignidade da pessoa presa. Conhecer esse país.

Conhecer o Brasil.

A peça conseguiu. 

Sim, ela conseguiu. Porém, para isso, ela precisou derrubar, levar à queda, nos levar ao chão.

E eu caí. Foi Feio. Foi Dolorido. O joelho segue ardendo enquanto escrevo estas palavras.

 

Qorpo Qrítico – Vol. 6 , n. 16 , agosto a novembro de 2024. ISSN 2675-4207