
O ESPELHO QUEBRADO DA MASCULINIDADE SUFOCANTE
Para ler escutando A Voz, dos Gilsons.
Quando criança escutei uma frase. O autor hoje sequer me recordo. Não lembro seu tom de voz, seu semblante ou seu eventual parentesco comigo. Mas lembro das palavras, da frase sendo articulada e ganhando vida diante de mim. Ele dizia: Maicon, o mundo é uma performance.
Eu não sabia o que significava performance quando escutei essa frase. Tinha pouco mais de dez anos e meu cérebro se ocupava mais das simplicidades típicas da infância do que qualquer outra coisa. Porém, pesquisei o sentido por trás do termo e, então, pronto. Acabei rendido a uma frase dita aleatoriamente.
Entendi a razão dessa rendição anos depois, quando o florescer da minha orientação sexual e os primeiros passos em direção a uma militância política lançaram meu corpo físico contra a realidade tangível. O mundo, realmente, era uma performance. Uma performance que insistia em rejeitar sua natureza substancial e dizia ser rígida, estática, não maleável.
Ao assistir O Espelho Quebrado, de Alexandre Azevedo, senti essa frase e sua verdade retornarem como ondas, quase tsunamis. O texto de autoria de Alexandre Azevedo e Guadalupe Casal foi, inicialmente, apresentado na Mostra Anual de Teatro do Departamento de Arte Dramática da UFRGS, em Novembro de 2023, enquanto produto do Estágio de Atuação de Azevedo.

Créditos: Arquivo Pessoal/Maicon Matos
Na obra, autor-ator personifica diversas existências masculinas e denuncia as dores por trás do que é vendido como uno, sólido, viril e inquebrável para uma sociedade vacilante e errática, que almeja (ou diz almejar) uma vida diversa, mas pressiona pela preservação do já
existente. Com a crueza comum apenas no divã, Azevedo abraça o que aperta o peito de todos nós: a possibilidade de ser muito, mas a pressão de ser nada.
O mundo é masculino. As relações de poder ancoram-se na masculinidade. O sistema econômico vigente depende da masculinidade dos moldes atuais. A divisão do trabalho protege e financia a masculinidade idealizada. O monopólio do uso da força é masculino-estatal. Negar isso é errado. Então, falemos a verdade.
Em um mundo assim, podemos quase tudo. Mas, na realidade, não podemos tanto. A masculinidade idealizada reduz as diversas masculinidades, intimida outras formas de caminho. Pode-se resistir, grita o texto. Mas até resistindo encontram-se as marcas dessa masculinidade idealizada.
Com uma iluminação que tenta transformar o palco e as palavras ditas por Azevedo em pensamentos de cada espectador, bem como o uso indiscriminado de caixas de papelão – que busca reforçar a fragilidade do que é vendido como firme e sustentado, O Espelho Quebrado atesta as mentiras ditas por toda uma sociedade. A masculinidade idealizada, caracterizada pela unidade e pela virilidade, não existe e seus transeuntes estão em constante choque com ela.
O mundo é uma performance. E o mundo masculino é uma performance sufocante.
Mas o que fazer nesse cenário?
A mera queixa é suficiente?
Não.
É preciso fraturar. E deixar a fratura ganhar luz. É preciso socar o espelho e deixar revelar as verdadeiras e distintas partes que existem nesse forjado e impositivo todo.
É preciso fitar esse espelho em frangalhos e assistir a nova forma que nosso reflexo ganha.
É preciso fazer desvanecer a ideia de unidade e aceitar a vastidão de masculinidades.
Assim.
Talvez.
Muito talvez.
Imensamente talvez.
A performance termine. A cortina feche.
A luz se apague.
E a lágrima legítima.
E o sorriso real.
E a gargalhada rouca.
E o gosto alternativo.
Ganhem espaço.

Qorpo Qrítico – Vol. 6 , n. 16 , agosto a novembro de 2024. ISSN 2675-4207
