Meretrizes – a Arte da Putaria

O Coletivo Gompa tem surpreendido a cidade de Porto Alegre ao produzir nos últimos anos um teatro inteligente, instigante, feroz e profundamente vinculado às questões sociais, mesmo que de forma metafórica, como é o caso de Instinto, de 2023. Estreado no mesmo ano, o espetáculo Meretrizes surgiu de um processo diametralmente oposto, mas com um resultado igualmente impactante, que nos faz rever conceitos e preconceitos relativos à prostituição.

Neste trabalho extremamente bem articulado, a diretora Camila Bauer e a atriz Liane Venturella se uniram numa pesquisa de campo realizada entre as profissionais do sexo da capital riograndense. Durante aproximadamente um ano, entrevistaram e registraram experiências, conhecendo e conversando pessoalmente com mais de trinta mulheres cuja profissão de acompanhante ou prostituta as torna uma espécie de párias sociais. Com respeito e cuidado, construíram a partir desses relatos uma obra sólida e consistente, feita de faces distintas de mulheres reais e fragmentos de suas vidas.

Tenho tido o prazer de acompanhar a carreira de Liane Venturella há décadas, e ela mesmo na peça nos conta que trabalha no teatro há 40 anos. Sempre impecável, uma atriz dedicada, versátil, que transita da tragédia à comédia, acostumada aos palcos, nos oferece em Meretrizes um trabalho maduro, que parte não mais da ficção, e sim das vozes vivas de prostitutas da cidade. Corajosa, ela sozinha em cena nos apresenta uma infinidade de personagens diferentes com suas narrativas, por vezes engraçadas, outras dolorosas, e vai tramando histórias ao som do piano, que a acompanha durante todo o espetáculo, numa performance magistral da pianista e compositora Catarina Domenicci.

Ambas criam um clima de cumplicidade desde o início, quando Liane, no papel de uma cafetina poderosa, com um longo robe de chambre de cetim vermelho com detalhes em preto, recebe o público fazendo brincadeiras quanto à presença de homens na plateia, e fala um pouco de si e da pianista, que também faz parte de suas “meninas”, como ela as chama. Ali, Catarina passa a ser Cati, uma prostituta pianista. Com muitas piadas, num clima descontraído de cabaret, a peça começa.

A montagem, construída a partir de depoimentos e improvisação, conta com projeções de profissionais do sexo que falam diretamente ao público sobre suas trajetórias, e momentos em que a protagonista quebra a parede ilusória e tece comentários, dá explicações, e inclusive faz um relato direto sobre sua própria experiência neste universo. A sensação é a de que o “submundo” vai-se diluindo e misturando ao cotidiano, perdendo sua aura de tabu e se tornando menos distante, mais familiar.

Prostitutas não são um tema novo na arte, Van Gogh tem desenhos de Sien, a prostituta com quem viveu por algum tempo, que até hoje nos emocionam, e a literatura, desde Lolita até Plínio Marcos, têm apostado nos conflitos destas mulheres que, na maioria das vezes, rendem grandes dramas. O diferencial em Meretrizes é que o resultado partiu da escuta de vozes verdadeiras, e não da ficcionalização de personas criadas ao gosto da época ou do estilo. E talvez exatamente essa inversão no processo tenha tornado esse trabalho tão especial: há uma sensibilidade e um respeito no tratamento do tema que transforma a experiencia do relato em um momento de reflexão e aprendizado.

E é impossível não pensar sobre o assunto depois de assistir um trabalho assim: afinal, desde quando o sexo se tornou algo tão separado da experiência comum, que teve que ser afastado do mundo cotidiano, e delegado a outra instância, a outro corpo social (literalmente). E aqui, na esfera do sexo pago, sexo e prazer se amalgamam, pois o sexo para a procriação é doméstico. As mulheres foram divididas, e assumiram papéis e cuidados distintos – coube à mulher doméstica conviver e procriar com o homem, e à mulher “da rua” oportunizar momentos de prazer. O prazer foi afastado da casa, do lar, e passou a ser buscado nas ruas, no escuro, escondido.

No entanto, num percurso genealógico, vamos para trás reencontrar em reinos orientais da antiga Suméria, e nos impérios assírio, acádico e babilônico, relatos e documentação da presença das sacerdotisas sagradas da deusa Ishtar, ou de Inanna, para os sumérios, equivalentes à ideia que temos das prostitutas. Naquele contexto, eram figuras muito respeitadas das cidades, reverenciadas como sacerdotisas da deusa do amor-sexo-guerra, Inanna-Ishtar.

Destruir o imaginário de um povo é fórmula certa para derrotá-lo, os judeus já haviam sido escravizados pelos assírios e, depois, pelos babilônicos. Para eles, essa religião de uma deusa que fazia sexo através de suas mulheres sagradas com qualquer homem que tivesse algum dinheiro e desejo era devastadora. Fortemente patriarcais, quando o judeu-cristianismo se espalhou, trataram de demonizar as antigas religiões, derrubaram seus templos, jogaram suas sacerdotisas nas ruas, e ali elas ficaram, muitas até hoje. É uma longa digressão histórica, mas permite que vejamos a moldura do fenômeno com mais precisão. Uma profissão degradada de uma matriz sagrada, altamente remunerada, de mulheres reverenciadas e temidas. Diz-se que os conselhos de guerra, depois de deliberar, consultavam o Templo de Ishtar, e só depois, com a aprovação delas, eles notificavam o povo sobre a guerra. Neste sentido, a diretora Camila Bauer e a atriz Liane Venturella, criadoras da dramaturgia, prepararam um grand finale para esta peça tão profundamente documental, que vasculha a história: chamam ao palco duas profissionais do sexo que fizeram parte do projeto e que são apresentadas, conversam com o público, respondem perguntas e expõem suas perspectivas, muitas vezes bem diferentes, sobre a profissão. Soila Mar é uma profissional do sexo que trabalha na rua, tem 60 anos e segue na ativa. Paula Assunção é uma acompanhante que trabalha através de sites de encontros. Brincam em cena que uma é analógica e a outra, digital.

É num deslizamento de sentido que passamos da ficcionalização do drama para a crônica de costumes. O espetáculo, embora tratando de temas pesados, como abuso, miséria, violência, alcança um equilíbrio com humor, delicadeza e inocência. A putaria assume o ar de festa, de diversão, de alegria que merece neste trabalho único, que dá voz a esta parcela tão desejada da população, as Meretrizes.

 

 

 

 

 

FICHA TÉCNICA

Direção: Camila Bauer

Elenco: Liane Venturella

Trilha sonora original e piano ao vivo: Catarina Domenici

Participação especial em Porto Alegre: Paula Assunção e Soila Mar

Dramaturgia: Camila Bauer e Liane Venturella, a partir dos relatos de diferentes profissionais do sexo

Pesquisa em História Oral/ Entrevistas: Juliana Wolkmer

Ambientação cenográfica, iluminação e videografia: Isabel Ramil

Figurino: Liane Venturella

Consultoria: Paula Assunção, Monique Prada e Soila Mar

Voz na canção Figueira Maldita: Lívia Itaborahy

Arte gráfica: Mitty Mendonça

Assessoria de imprensa: Léo Sant’Anna

Mídias sociais: Natália Severo

Fotografia: Laura Testa

Direção de produção FAC: Fabiane Severo

Assistente de produção FAC: Silvia Duarte

Realização e produção geral: Projeto Gompa

 

Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 17 – dezembro de 2024 a março de 2025. ISSN 2675-4207.