Sobre andar em andaimes

Um Duo de bailarinos, sendo um homem e uma mulher em seus papéis usuais e normativos. Geralmente duos assim – pela própria imagem – trazem esse contexto da relação. Constantemente uma relação hetero e, que quando acontece, fica entre esse lugar do amor sublime e do desentendimento. Mais recentemente, tenho visto com frequência a abordagem dessa temática dos desentendimentos. Por vezes com foco nas questões cotidianas, outras vezes nesse lugar que passa do ponto. 

 

Se em outra hora essa abordagem se dava no âmbito do sublime nos nossos tempos ela aparece de uma forma mais concreta. A dor não é uma dor da perda e do afastamento de algo inatingível, é uma dor cotidiana, dessas gangorras de afeto e violência que se manifestam em palavras gestos e ações físicas todos os dias, em eventos, na construção de uma vida juntos…

 

Foi isso que se manifestou em andaime, em andares, em andares em e de andaimes. Um tema clássico e uma abordagem contemporânea tradicional com boas escolhas. Há uma liga entre os bailarinos, seus corpos amadurecidos se colocam entre si e no espaço com a desenvoltura necessária. O espaço é interessante, com uma limpeza de objetos que contam também essa história e oferecem elementos estéticos à proposta de duo. 

 

Ponto para a limpeza dessa dança, desses gestos, desse cenário e desses objetos. Sem excessos. Sem dramalhão. Ponto para essa espacialidade que se desenha em andares de corpos e de espaços, apesar de o tema não ser novidade e das escolhas não trazerem novas perspectivas sobre o tema. 

 

Como diz Cartola… preciso andar… A música que diz o gesto e dá o tom de adeus reforça o sentido dessa dança esse adeus.. Clássico como todo o tema, então funciona, mas também parafraseia. Será que precisa? Um ponto alto são as pérolas que dançam, saltitam, ocupam e atravessam o espaço se derramando…e acho que a gente fica esperando esse momento… 

 

Me lembrou uma cena que assisti em que os atores jogavam milhões de moedas em uma das atrizes que se vendeu para vencer a fome e pobreza. Tem uma força e uma potência no porquê daquelas moedas lançadas que encontram sentido. Tem tudo a ver.  

 

As pérolas … porque jogá-las de um balde? … É como se o colar dela se arrebentasse? Mas – como é ela que joga … – será que está querendo dizer “pérolas aos porcos”? … essas lacunas entra a poética e a estética para as quais talvez não haja uma resposta. 

 

De qualquer forma, segue sendo interessante ver os desenhos que se criaram nesse espaço e ver esses corpos maduros e bem colocados dançarem. Apesar de as abordagens e do tema serem um tanto batidos, as escolhas estão bem alinhadas e funcionam.

 

 

 

 

Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 18 – abril a julho de 2025. ISSN 2675-4207