Aceita um cafezinho?

Vó Mocinha é uma peça da escritora Ana Carolina Santana, a obra reúne as memórias de sua avó, uma figura peculiar e comum ao mesmo tempo. Quem dá vida e voz a essa e diversas personas é Roberto Corbo, um experiente multiartista que fez desses escritos seu primeiro monólogo.

 

Eu sou amiga desse cara, e muita gente também é. Ele dá aulas de teatro e tem um olhar atento e carinhoso para cada aluno. Toca todo tipo de instrumento e compôs as músicas da peça. Eu não consigo falar do Beto sem dizer que ele é meu amigo. Especialmente quando se trata de Vó Mocinha, uma peça cheia de afeto, como o café quentinho que ele leva pros alunos, mesmo que ele não tome café. Essa presença zelosa que ele tem na vida também se manifesta em cena. 

 

O público chega e encontra os lugares dispostos em arena, o cenário é simples: no centro uma mesinha com porta-retratos, também tem alguns potinhos de comida e uma garrafa térmica. Os últimos preparativos, o convite para um cafezinho e o início da peça se confundem. Assim como se mistura narração, música, atuação e interação com o público. 

 

O artista conta essa história evocando figuras que se diferenciam por meio da voz e da corporeidade, com transições fluidas. As canções amarram a narrativa e cativam a plateia, enquanto os diálogos com o público revelam o (mau) humor de Vó Mocinha.

 

Em suma, ela é uma senhora que, assim como tantas avós, superou adversidades e abdicou de muita coisa em prol dos filhos e netos. Na velhice, carrega algumas marcas do passado, que eventualmente vêm à tona, como teimosia ou o apego a algumas manias e objetos. Aos poucos a gente vai percebendo que Vó Mocinha sofre, poupa porque sua vida foi marcada por escassez, fala grosso porque não foi ouvida e, mesmo assim, consegue dar o carinho e orientação que não recebeu.

 

Essa é uma figura familiar, ao longo da encenação, sua história se mistura com outros relatos e é muito fácil identificá-la em outras mulheres, gerando comoção, nostalgia e afeto. 

 

Embora haja uma tomada de consciência, isso acontece de maneira muito leve, diluída entre risadas e aconchego. Conectar a idosa de temperamento um pouco difícil e o passado que ela enfrentou é um exercício importante. 

 

Vó Mocinha nos acolhe e nos faz acolher.

 

 

 

Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 19 – agosto a novembro de 2025. ISSN 2675-4207