Reconstituição: o caso que esteve nas nossas mãos

Sábado à noite. Porto Alegre. Márcia e Regina (usaremos nomes fictícios para proteger a identidade dos envolvidos) procuram algo para fazer, elas querem uma experiência imersiva, misteriosa e revigorante. Buscam em sites e redes sociais. Até que encontram uma peça de teatro: O Assassinato de Santiago (não usaremos nomes ficcticios para proteger a obra), que promete ser um thriller gaúcho interativo, com crítica social, onde o público vota para decidir quem assassinou Santiago. 

 

Isso já é o suficiente para aguçar a curiosidade (fofoca) da dupla e levantar questões: Como funciona a interação? Como a votação será organizada? O quanto ela influencia no curso da peça? Quais são a(s) crítica(s) sociai(s)? O quão interativo é? (Márcia é tímida) E claro: quem vai matar Santiago?

 

Só há um jeito de saber. As jovens imediatamente garantem o ingresso meia entrada. No dia marcado, vão ao Teatro Renascença. Na fila, outros espectadores também comentam. Entramos no teatro e as especulações só aumentam, mas ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. 

 

Então finalmente somos interrompidos por um repórter sensacionalista, ele surge no meio da platéia, revelando fatos do caso a ser analisado. Esse prólogo já é bem interativo, o burburinho especulativo não é silenciado, é incluído na reportagem. Ao chegar no teatro, o jornalista nos instiga e diverte, porém ao entrar na cena do crime, ele interfere e atrapalha as investigações.

 

Para reconstituir o caso, a delegada nos ajuda a traçar o perfil das pessoas que estavam presentes na cena do crime, são arquétipos maciços e bem definidos, mas que surpreendem na relação com o assassinado e com a própria investigação. A noite do crime é revisitada pelo viés de cada um deles. Até que, no ápice da trama, o perfil de Santiago se desenvolve. 

 

As atuações dão vida a essas figuras com uma precisão magnética, a luz guia nosso olhar, recortando as passagens da investigação com o rigor que o gênero pressupõe. Aumentando nosso interesse pelos fatos a cada reconstituição da mesma noite.

 

O caso é retomado mais uma vez, pelo olhar técnico da delegada, que também conduz a votação. As instruções que chegam não interferem na atmosfera estabelecida, a dinâmica foi eficaz e envolvente. A expectativa pelo resultado toma conta do ambiente, na sessão em questão, a sensação é que os votantes escolheram quem gostariam que tivesse assassinado, não quem achavam que tinha realmente cometido o crime. Dos personagens, o mais cômico foi eleito e a resolução foi coerente com as características até então apresentadas. 

 

Em depoimento, as jovens Márcia e Regina afirmam ter encontrado mais do que procuravam. O prólogo midiático nos insere como investigadores e também nos faz refletir sobre nosso papel como combustível da mídia sensacionalista, essa introdução é um dispositivo de imersão e parte do discurso. Saber que seremos ativos na resolução do caso nos coloca em um estado de alerta, como se realmente estendêssemos uma lupa a cada aspecto da encenação. A dupla ainda comenta que se sentiu montado um quebra-cabeças, o suspense está presente no enredo e na expectativa de como o público ajudará a contar essa história.

 

 

FICHA TÉCNICA

Autor: Dennys D´Almeida

Direção: Dennys D´Almeida

Elenco: Anna Angelos, Dennys D´Almeida, Henrique Garcia, Isadora Fraga, Cassio Iribarrem, Júlia Estran, Dudu Xavier, Caio Lopes e Wagner dos Santos

 

Qorpo Qritico – Vol. 8, n. 21 – abril a julho de 2026. ISSN 2675-4207