
Uma performance que se autodenomina sem pretensão alguma: sem grandes digressões metalinguísticas sobre este ou aquele teórico das artes cênicas; sem lições políticas ou filosóficas; sem técnicas revolucionárias; sem tantas coisas que costumamos encontrar no teatro contemporâneo, em Porto Alegre. É assim que uma garota mineira, que vem parar na Sala Alziro Azevedo para contar sua história, que poderá ou não comover o público, apresenta a peça, citando tudo o que não haverá nela. Poderíamos nos perguntar por que parar para ouvir sobre uma menina comum. Existe a possibilidade de um tema distante das vivências de um grupo de amigos que tenha ido assistir se tornar o assunto da saída do teatro, é claro, pois relatos individuais também suscitam questões compartilhadas pela sociedade, mas este não é o objetivo primeiro da peça, seria apenas uma consequência. Talvez seja esta a proposta de Por de Dentro: ir além do sensível partilhável para uma camada mais profunda. A peça não tem um cunho social explícito, mas a autoficção de Naiany Agarb evoca diferentes sentimentos, inquietações e perguntas em cada indivíduo que se dispõe a prestigiá-la, nas sutilezas, e que podem ter desdobramentos, reflexões muito particulares.
O começo de uma jornada pela subjetividade da jovem se dá quando ela conta sobre como saiu da terra natal, com o propósito de “ser os olhos da mãe”, de lhe dizer o que existe fora de lá. Ocorre que, ao expandir seus horizontes nessa aventura, muda o olhar da garota para si mesma e para as vivências do passado no lugar de origem. Nem todas as transformações, nem todas as descobertas são compartilháveis com a mãe, ou porque são difíceis de descrever, ou muito íntimas. Algumas experiências podem soar familiares para certos espectadores, como um trauma de infância, a mudança para outra cidade, a manifestação da sexualidade, ou as descobertas numa viagem para um destino de contato com a natureza, como a praia. Para outros, elas podem não ter tanto significado, mas ainda assim, da maneira como são relatadas, demonstram que existe uma potência na vida comum para transformar pequenos acontecimentos, dores individuais e hábitos de uma cultura compartilhada em outra região do país em temas poéticos. Eleger apenas um deles e discorrer sobre ele seria assinalar o meu punctum, evocando ideias barthesianas1, ou seja, aquilo que atinge a minha subjetividade e que para muitos outros espectadores pode não ter a mesma importância.
Falando sobre a experiência sensível compartilhada, então, eu gostaria de comentar brevemente sobre elementos da montagem da peça. O figurino é simples, composto por peças casuais, e a troca de roupa é incorporada à cena (não como uma quebra do pathos, mas como uma gradual transição entre cenas, uma coreografia). Também não vemos uma produção de cabelo e maquiagem elaborada, construída especialmente para a peça, ao contrário: pele limpa e cabelo curto deixam à mostra a aparência real da atriz. O que temos diante de nós é sua presença modesta e alguns objetos que fazem parte do cenário, modificado por ela mesma (com o auxílio também de técnicas de iluminação, determinantes para criar a ambiência de tensão ou de festa, de acordo com cada cena) conforme ela nos narra suas experiências, com muita delicadeza, imaginação, às vezes beirando à brincadeira de uma criança que utiliza objetos diversos com criatividade, improvisando seu brinquedo.

Nesse sentido, a performance de Naiany Agarb, que dá a ver sua subjetividade, ao encontro da minha subjetividade como espectadora, me lembra do caráter lúdico que está na essência do teatro, que é uma atividade festiva, de brincadeira, que o deus do teatro é Dionísio, o mesmo das festas e do vinho. Ao mesmo tempo, é uma contação de histórias, lembrando que, não à toa, Shakespeare é conhecido como O Bardo. Duas palavras-chave para a montagem poderiam ser: presença e jogo. Naiany Agarb conta sua história utilizando poucos artifícios além da força de sua presença, da quebra da quarta parede, do contato visual, da expressão corporal. E assim, tentando sair pela tangente, evitando falar do que mais me comoveu na peça e compartilhar minha percepção segundo a vida privada, escrevendo sobre a forma, sem querer exponho também minha subjetividade quanto à recepção das escolhas estéticas, dos componentes estruturais da peça, como estudante das relações entre arte e linguagem. Por enquanto, na escrita, faço o movimento contrário da atriz, que precisou de coragem para compartilhar um pouco do próprio íntimo para criar uma peça no entrelugar da ficção e da biografia.
1 BARTHES, Roland. A Câmara Clara: Notas sobre Fotografia. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
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Ficha técnica:
Direção: Naiany Agarb
Atuação: Naiany Agarb
Dramaturgia: Vulpe Lisboa
Iluminação: Ana Carolina de David
Orientação: Luciana Éboli
Qorpo Qrítico – Vol. 02, n. 03, fevereiro a maio de 2020. ISSN 2675-4207.
