O Palavra Mironga, projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, constitui uma ação de produção e difusão de narrativas da tradição oral afrodiáspora em formato de podcast, orientada por uma perspectiva decolonial e de valorização do patrimônio cultural imaterial de matriz africana. Ao articular saberes ancestrais e contextos formativos da universidade, o projeto busca ampliar o diálogo intercultural entre a comunidade acadêmica (graduação, pós-graduação e docentes) e a sociedade em geral, convertendo a escuta qualificada de relatos orais em experiência pública de educação, memória e cidadania cultural.
No âmbito dessa proposta, a iniciativa prevê a disponibilização de uma série com 10 episódios dedicados a narrativas sobre orixás — como Oxum, Iemanjá, Exu e Xangô — narradas por 10 informantes selecionados por sua legitimidade e vínculo com religiosidades de matriz africana. Favorecendo práticas de ensino antirracistas e decoloniais, alinhadas à Lei 10.639/2003.
Foi concebido com prazo de execução estimado de quatro meses, organizando-se em etapas interdependentes que asseguram tanto o rigor científico quanto o cuidado ético no tratamento das narrativas afro-diaspóricas.
O processo envolve pesquisa de campo, roteiro, captação, edição e publicação em plataforma de acesso aberto (Spotify), garantindo ampla circulação, gratuidade e acessibilidade do conteúdo. Ao fortalecer a memória afro-brasileira e difundir repertórios simbólicos e cosmológicos historicamente subalternizados, o projeto reafirma o compromisso extensionista da universidade com os direitos culturais, a pluralidade epistemológica e a justiça cognitiva.
Pesquisa de campo
Realizou-se o mapeamento e convite de dez contadores de histórias vinculados às tradições orais de matriz africana (candomblé, umbanda e congêneres), priorizando diversidade regional, de gênero e de linhagens religiosas. O processo foi conduzido com mediação coletiva e protocolos de consentimento, respeitando a legitimidade e a representatividade dos narradores.
A equipe realizou mapeamento de fontes vivas da tradição oral afro-diáspora, priorizando diversidade geracional, de gênero e de nações (Ketu, Angola, Jeje, entre outras). Foram identificados dez narradores com reconhecida legitimidade para contar histórias sobre Oxum, Iemanjá, Exu e Xangô. A curadoria evitou exotização e essencialismos, privilegiando narrativas situadas em contextos comunitários, rituais e cotidianos, bem como variantes locais e cruzamentos com memórias familiares.
Roteiro
Para cada episódio, a equipe produziu um roteiro sonoro contendo: apresentação do tema e do narrador, contextualização histórica e cultural, créditos institucionais, bem como abertura e fechamento padronizados. Essa etapa assegurou coesão narrativa, clareza comunicativa e respeito ao ritmo próprio da oralidade.
Captação
As gravações foram realizadas tanto em campo quanto em ambientes controlados, com equipamentos de captação de qualidade, buscando equilíbrio entre fidelidade à voz, clareza técnica e preservação da atmosfera ritualística do contar uma história.
Edição
A pós-produção seguiu fluxo padronizado:
Escuta analítica e indexação temática;
Montagem dos episódios em roteiro sonoro (abertura, apresentação contextual, narrativa principal, fecho e créditos);
limpeza de ruídos, equalização corretiva e compressão leve para inteligibilidade;
Inserção de paisagens sonoras não invasivas (quando autorizadas) para sustentar a atmosfera da narrativa ;
5. Masterização visando consistência de loudness entre episódios. Cada episódio foi submetido à devolutiva comunitária (escuta com o/a narrador/a ou liderança indicada) para ajustes de forma e conteúdo antes da publicação.
O material bruto passou por processo de edição e montagem, incluindo limpeza de ruídos, equalização e sonoplastia discreta. Foram inseridas vinhetas e trilhas sonoras de domínio público ou licenciadas, sem comprometer a centralidade da performance vocal. O princípio norteador foi manter a fidelidade e a dignidade da voz .
Publicação em plataforma
Os 10 episódios foram disponibilizados no Spotify e em plataformas de acesso aberto, com identidade visual própria e descrições acessíveis. A difusão foi articulada por meio de redes acadêmicas, escolas, coletivos culturais e mídias sociais, ampliando o alcance e a circulação pública das narrativas. Acesso em:
https://open.spotify.com/show/76LQawtCzppyWRifvy4W9T?si=dcc88e24be0446b1
Spotify : Palavra Mironga
Transcrição
Todos os episódios foram acompanhados de transcrições integrais, que incluíram marcação de pausas significativas, risos e ênfases, além de glossário de termos iorubanos/bantos, quando necessário, e notas explicativas mínimas para o contexto cultural. Cada episódio foi integralmente transcrito, revisado e disponibilizado em acervo digital aberto. As transcrições constituem material didático e patrimonial, permitindo usos pedagógicos, pesquisas comparativas e preservação da oralidade em sua dimensão textual. Esse processo reafirma o compromisso com a acessibilidade e com a constituição de um arquivo de memória viva das tradições afro-brasileiras.
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O Palavra Mironga estruturou-se como uma programação coerente e viável, integrando práticas de pesquisa etnográfica, produção sonora e difusão digital, articuladas em um ciclo de produção, salvaguarda e circulação de saberes, em consonância com os princípios extensionistas de relevância social, cultural e científica.

FICHA TÉCNICA
Coordenação : Adriana Jorgge e Patrícia Leonardelli
Transcrição: Isá Bavaresco e Mariana Bruni
Edição: Estúdio JR Studio – Niser Fontoura e Juliermes Araújo; Adriana Jorgge e Rodrigo SanCarlo.
Paritcipações:
Episódio 1 – Marlon Drummond
Episódio 2 – Zaira
Episódio 3 – Juliana Ferrari
Episódio 4 – Marlon Drummond
Episódio 5 – Juliana Ferrari
Episódio 6 – Zaira
Episódio 7 – Zaira
Episódio 8 – André Augusto Araújo
Episódio 9 – Mariana Bruni
Episódio 10 – Rodrigo SanCarlo
Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 19 – agosto a novembro de 2025. ISSN 2675-4207
