Com uma população de quase um 1,5 bilhão de habitantes, o continente africano abriga a língua e a cultura de mais de três mil grupos étnicos. Diante de toda essa riqueza cultural, é incompreensível o quão distantes estamos do ilimitado manancial criativo de sua música.
Mais raro ainda é o nosso contato com a música clássica africana. Lembro do meu arrebatamento quando ouvi pela primeira vez Pieces of Africa, do sempre aventuroso e explorador Kronos Quartet, com obras de sete compositores africanos contemporâneos.
Sete importantes compositores africanos foram reunidos no recém lançado African Pianism, da pianista nigeriano-romena Rebeca Omordia. “Pianismo africano” é um conceito criado pelo compositor Akin Euba que abarca as múltiplas formas de fusão entre as estruturas da música de concerto ocidental e as composições do continente africano. O compositor ganense Joseph Hanson Kwabena Nketia (1921-2019), um dos principais musicólogos da África, na introdução de sua obra African Pianism: Twelve Pedagogical Pieces (quatro das delas estão incluídas na gravação de Omordia) explica:
“O Pianismo Africano refere-se a um estilo de música para piano que deriva seu idioma característico dos procedimentos da música de percussão africana. (…) Pode usar motivos rítmicos simples ou extensos ou o lirismo de canções tradicionais e até mesmo da música popular africana como base de suas frases rítmicas. É aberto no que diz respeito ao uso de materiais tonais, exceto que pode se basear nas características modais e cadenciais da música tradicional.”
Muitas das estruturas rítmicas – e polirrítmicas – que ouvimos nas obras dos compositores gravados por Omordia já nos são familiares através, por exemplo, da música brasileira, estadunidense e cubana, produtos do encontro diaspórico africano com a tradição europeia. É curioso, no entanto, e agradavelmente estranho, apreciar de um ponto de escuta completamente diferente tudo que é, e não é, europeu na música destes compositores.
Escritor por Juliano Fontanive Dupont