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Álgebra Linear - Um Livro Colaborativo

9.1 Comprimento, ângulos e o produto escalar


Se, na base canônica (isto é, no sistema de coordenadas usual) do espaço ℝ3, representamos um vetor por

v→ = v1 v2 v3 , (9.1)

então o seu comprimento (ou magnitude ou norma) é dado por

∥v→∥ = v1 2 + v2 2 + v3 2. (9.2)

Esta é uma instância do Teorema de Pitágoras1 .


PIC


A definição acima pode ser generalizada para dimensão n qualquer:

v→ = v1 v2 ⋮ v n ⇝∥v→∥ = v1 2 + v2 2 + ⋯ + vn 2. (9.3)

O produto escalar ou produto interno entre dois vetores v→ e w→ é um número (também dito escalar) associado com estes dois vetores. Em coordenadas, se v→ = (v1,v2,v3) e w→ = (w1,w2,w3) são vetores do espaço tridimensional ℝ3, temos

v→ ⋅w→ = v1w1 + v2w2 + v3w3. (9.4)

Vejamos que realmente o produto escalar tem a ver com o ângulo entre dois vetores. Isto é uma consequência da Lei dos Cossenos, que nos diz que

∥v→ −w→∥2 = ∥v→∥2 + ∥w→∥2 − 2∥v→∥∥w→∥cos𝜃, (9.5)

onde 𝜃 é o ângulo entre v→ e w→.

PIC

Escrevendo estes comprimentos em termos das coordenadas e fazendo os cancelamentos necessários, chegamos na seguinte identidade:

v1w1 + v2w2 + v3w3 = ∥v→∥∥w→∥cos𝜃, isto é,v→ ⋅w→ = ∥v→∥∥w→∥cos𝜃. (9.6)

Motivados pelos conceitos acima, consideramos

x→ = x1 x2 ⋮ x n ey→ = y1 y2 ⋮ y n (9.7)

vetores de ℝn representados na base canônica, e definimos o produto escalar ou produto interno entre x→ e y→:

x→ ⋅y→ = x1y1 + x2y2 + ⋯ + xnyn. (9.8)

O ângulo entre x→ e y→, para n qualquer, pode então ser definido pela equação

cos𝜃 = x→ ⋅y→ ∥x→∥∥y→∥. (9.9)

Embora abstratos, estes conceitos são bem fundamentados geometricamente. Dois vetores (linearmente independentes) de um espaço vetorial n-dimensional geram um subespaço vetorial de dimensão 2. Este pode, por sua vez, pode ser pensado como um plano que passa pela origem de ℝn. Assim, podemos imaginar o ângulo entre estes vetores naturalmente.

Proposição 78 (Principais propriedades do produto escalar). Para x→,y→,z→ ∈ ℝn e c ∈ ℝ um escalar, temos as seguintes propriedades

1.
x→ ⋅y→ = y→ ⋅x→
2.
(x→ + y→) ⋅z→ = x→ ⋅z→ + y→ ⋅z→
3.
(cx→) ⋅y→ = cx→ ⋅y→ = x→ ⋅ (cy→)
4.
x→ ⋅x→ ≥ 0 e x→ ⋅x→ = 0 se, e somente se, x→ = 0→;
5.
∥x→∥ = x → ⋅ x →;
6.
∥cx→∥ = |c|∥x→∥.

Estas propriedades são todas de fácil verificação (e são deixadas para o leitor verificar, como exercício).

Exemplo 79. Considere os vetores de ℝ5 escritos na base canônica:

x→ = −1 2 0 3 −1 ey→ = 4 3 −1 −11 1 (9.10)

Assim, temos

x→ ⋅y→ = (−1) ⋅ 4 + 2 ⋅ 3 + 0 ⋅ (−1) + 3 ⋅ (−11) + (−1) ⋅ 1 = −4 + 6 + 0 − 33 − 1 = −31. (9.11)

Da mesma forma, podemos calcular os comprimentos

∥x→∥ = (−1)2 + 22 + 02 + 32 + (−1)2 = 15e∥y→∥ = 42 + 32 + (−1)2 + (−11)2 + 12 = 148. (9.12)

Logo, o ângulo 𝜃 entre estes vetores satisfaz (utilizamos uma calculadora para calcular as raízes quadradas e a função inversa do cosseno):

cos𝜃 = x→ ⋅y→ ∥x→∥∥y→∥ = − 31 15148 ≃−0,65794⇒𝜃 ≃ 2,28887634 radianos ≃ 131,12o. (9.13)

Exemplo 80. Considere um vetor tridimensional

u→ = 2 3 −1 . (9.14)

Já sabemos a multiplicação de um escalar pelo vetor u→ muda o comprimeto (e talvez também o sentido) do vetor. Por exemplo, se multiplicarmos por 2, o comprimento será multiplicado por 2; se dividirmos por 3, o comprimento será dividido por 3. Se nós dividirmos pelo próprio comprimento de u→ nós obtemos um vetor unitário. Para verificar analíticamente, basta utilizar a Propriedade 6 acima:

c = 1 ∥u→∥⇒ u→ ∥u→∥ = ∥cu→∥ = c∥u→∥ = 1 ∥u→∥∥u→∥ = 1. (9.15)

Então se quisermos encontrar um vetor unitário na direção de u→ acima, calculamos

∥u→∥ = 4 + 9 + 1 = 14 ⇝v→ = u→ ∥u→∥ = u→ 14 = 2∕14 3∕14 −1∕14 (9.16)

é o vetor procurado. Este processo de obter um vetor unitário na mesma direção de um vetor previamente fixado é chamado de normalização. Observe que existem apenas dois vetores unitários na mesma direção de u→, a saber, v→ e −v→.

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