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Álgebra Linear - Um Livro Colaborativo

9.2 Ortogonalidade


Como vimos na seção anterior, o produto escalar está relacionado com o ângulo entre dois vetores pela fórmula

cos𝜃 = x→ ⋅y→ ∥x→∥∥y→∥. (9.17)

Quando este ângulo 𝜃 é igual a π∕2 (que é equivalente a 90o), vale que cos𝜃 = 0 e logo x→ ⋅y→ = 0.

Nós vamos dizer que os dois vetores x→ e y→ são ortogonais quando satisfazem

x→ ⋅y→ = 0. (9.18)

Poderíamos também usar a palavra perpendiculares, mas por algum motivo esta terminologia é bastante menos comum quando lidamos com vetores em espaços vetoriais de dimensão maior do que 3.

Dizemos também que um conjunto de vetores é um conjunto ortogonal se todo par de vetores do conjunto for ortogonal. Em outras palavras, um conjunto {v→1,v→2,…,v→k} é um conjunto ortonogonal se, para qualquer escolha de índices i≠j, tivermos v→i ⋅v→j = 0.

Se, além de o conjunto ser ortogonal, todos os seus elementos serem unitários (estarem normalizados), então nós dizemos que o conjunto é um conjunto ortonormal. De outra maneira, um conjunto {v→1,v→2,…,v→k} é um conjunto ortonormal se, para qualquer índice i, ∥v→i∥ = 1 e, para qualquer escolha de índices i≠j, tivermos v→i ⋅v→j = 0.2

Exemplo 81. Os vetores

x→ = −1 2 ey→ = 2 1 (9.20)

são ortogonais, pois x→ ⋅y→ = (−1) ⋅ 2 + 2 ⋅ 1 = 0, enquanto que os vetores

w→ = 1 2 ez→ = 2 1 (9.21)

não são ortogonais, já que w→ ⋅z→ = 1 ⋅ 2 + 2 ⋅ 1 = 4. Nestes casos, podemso dizer que o conjunto {x→,y→} é um conjunto ortogonal enquanto {w→,z→} não é.

Exemplo 82. A base canônica do espaço ℝn:

e→1 = 1 0 0⋮ 0 ,e→2 = 0 1 0⋮ 0 ,e→3 = 0 0 1⋮ 0 ,⋯,e→n = 0 0 0⋮ 1 (9.22)

é um conjunto ortogonal, porque quando escolhermos i≠j, temos

e→i ⋅e→j = 1 ⋅ 0 + 0 ⋅ 1 = 0. (9.23)

É também ortonormal, já que, para todo i,

∥e→i∥ = 02 + 02 + ⋯ + 12 + ⋯ + 02 + 02 = 1. (9.24)

Uma primeira propriedade de ortogonalidade é uma versão para espaços vetoriais quaisquer do Teorema de Pitágoras, que aparece naturamente ao considerarmos vetores ortogonais.

Teorema 83 (Teorema de Pitágoras). Se dois vetores x→ e y→ são ortogonais, então

∥x→ + y→∥2 = ∥x→∥2 + ∥y→∥2. (9.25)

Demonstração. Esperamos que esta demonstração auxilie no compreendimento analítico e geométrico dos conceitos que introduzimos até agora. O vetor x→ + y→ pode ser considerado a hipotenusa do triângulo retângulo de catetos x→ e y→ (fazer uma figura!).

Pelas propriedades do comprimento e do produto escalar, temos que, para quaisquer dois vetores x→ e y→ (não necessariamente ortogonais), vale que

∥x→+y→∥2 = (x→+y→)⋅(x→+y→) = x→⋅x→+x→⋅y→+y→⋅x→+y→⋅y→ = ∥x→∥2+2(x→⋅y→)+∥y→∥2. (9.26)

De certa maneira, esta é uma forma de reescrever a Lei dos Cossenos. Quando os vetores x→ e y→ forem ortogonais, temos x→ ⋅y→ = 0, concluimos que

∥x→ + y→∥2 = ∥x→∥2 + ∥y→∥2. (9.27)

■

Notamos que, de acordo com a nossa definição, o vetor nulo é ortogonal a qualquer outro. Vejamos, no entanto, que vetores não nulos satisfazem propriedades adicionais.

Teorema 84. Todo conjunto ortogonal {v→1,v→2,…,v→k} formado por vetores não nulos é um conjunto linearmente independente (LI).

Demonstração. Considerando uma combinação linear
c1v→1 + c2v→2 + ⋯ + ckv→k = 0→ (9.28)

e fazendo o produto escalar com qualquer dos vetores v→j na equação acima, concluimos que

(c1v→1 + c2v→2 + ⋯ + ckv→k) ⋅v→j = 0→ ⋅v→j. (9.29)

Agora, a condição de ortogonalidade nos diz que v→i ⋅v→j = 0 sempre que i≠j. Portanto,

cj∥v→j∥ = cj(v→j ⋅v→j) = 0⇒v→j≠0→cj = 0. (9.30)

Isto é a definição de um conjunto ser LI: qualquer combinação linear que resulte no vetor nulo deve ter todos os coeficientes nulos.

■

Exemplo 85. O conjunto

u→1 = 1 2 2 ,u→2 = 2 1 −2 ,u→3 = 2 −2 1 (9.31)

pois

u→1 ⋅u→2 = 2 + 2 − 4 = 0, u→1 ⋅u→3 = 2 − 4 + 2 = 0, u→2 ⋅u→3 = 4 − 2 − 2 = 0. (9.32)

Logo, pelo teorema acima, o conjunto {u→1,u→2,u→3} é linearmente independente. Neste exemplo, são todos elementos de ℝ3; portanto, formam uma base para ℝ3 que é também ortogonal (voltaremos a falar sobre bases ortogonais em breve).

Uma das aplicações mais importantes do produto escalar reside no fato de nós conseguirmos fazer projeções ortogonais em direções fixadas. Por exemplo, suponhamos que em um sistema físico, um vetor v→ representa a força aplicada em um ponto, como na figura abaixo.


PIC


Gostaríamos de encontrar a componente do vetor na direção da reta tracejada. Para isto, podemos considerar um vetor unitário u→ sobre a reta. Assim, a componente de v→ na direção de u→ é igual a ku→, onde k tem a ver com o cosseno do ângulo entre os vetores:

cos𝜃 = cateto adjacente hipotenusa = k ∥v→∥. (9.33)

Utilizando novamente que u→ é um vetor unitário (isto é, ∥u→∥ = 1), concluimos que

k = ∥v→∥cos𝜃 = ∥u→∥∥v→∥cos𝜃 = u→ ⋅v→. (9.34)

Assim sendo, definimos a projeção ortogonal de v→ em um vetor unitário u→ como sendo

proju→v→ = (u→ ⋅v→)u→. (9.35)

No caso onde u→ não está normalizado, devemos primeiramente normalizar o vetor, de modo que a projeção ortogonal é dada por

proju→v→ = u→ ∥u→∥⋅v→ u→ ∥u→∥ = u→ ⋅v→ ∥u→∥2 u→ = u→ ⋅v→ u→ ⋅u→u→. (9.36)

Exemplo 86. Considere vetores no espaço de quatro dimensões ℝ4. Vamos determinar a projeção do vetor v→ = 1 −1 3 4 na direção da reta que tem a mesma direção do vetor u→ = 1 1 1 −1 . Observamos inicialmente que ∥u→∥ = 4 = 2 não é unitário. Temos que

proju→v→ = u→ ⋅v→ ∥u→∥2 u→ = 1 − 1 + 3 − 4 4 1 1 1 −1 = −1 4 1 1 1 −1 = 1∕4 1∕4 1∕4 −1∕4 . (9.37)

A projeção de v→ sobre o vetor e→3 da base canônica de ℝ4 é (observe que ∥e→3∥ = 1)

proje→3v→ = (e→3⋅v→)e→3 = (0+0+3+0) 0 0 1 0 = 0 0 3 0 . (9.38)

Observe que a projeção sobre o vetor e→3 da base canônica apenas “enfatiza” a terceira componente do vetor v→. Isto é bastante natural, pois v→ ⋅e→3 deve fornecer o comprimento da projeção de v→ na direção do vetor unitário e→3, que deve ser igual a terceira componente do vetor. É justamente assim que usamos a base canônica para representar vetores geometricamente. De forma geral, podemos escrever

v→ = v→ ⋅e→1e→1 + v→ ⋅e→2e→2 + v→ ⋅e→3e→3 + v→ ⋅e→4e→4. (9.39)

Este tipo de represetação será explorado com mais detalhes na próxima seção.

As projeções ortogonais também podem ser utilizadas para o cálculo de distâncias de ponto à retas que passam pela origem: Pela interpretação geométrica da subtração de vetores, obtemos um vetor perpendicular à reta com a direção de u→ e que termina onde termina o vetor v→ (ver figura).


PIC


Desta maneira, o comprimento deste vetor, a saber ∥u→ − proju→v→∥, é a distância procurada.3

Exemplo 87. Calcular a distância do ponto P = (0,2,3) e a reta que passa pela origem e tem a direção do vetor u→ = 1 2 1 .

Para isto, consideramos o vetor v→ cujas componentes são as componentes do ponto P. Assim, estamos na situação da discussão acima e vale que

proju→v→ = 7 6 1 2 1 ⇒u→−proju→v→ = 0 2 3 −7 6 1 2 1 = −7∕6 −1∕3 11∕6 . (9.40)

Portanto,

d = ∥u→ − proju→v→∥ = 49 + 1 + 121 6 = 171 6 ≃ 2,18. (9.41)

Exercício 7. Como poderíamos fazer se a reta não passasse pela origem? O mesmo raciocínio funciona?

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Exercícios


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