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Álgebra Linear - Um Livro Colaborativo

10.4 Fatoração QR e matrizes ortogonais


Como passamos a discutir abaixo, o método de Gram-Schmidt permite fatorar uma matriz A cujas colunas são linearmente independentes em um produto

A = QR, (10.48)

onde Q é uma matriz cujas colunas formam um conjunto ortonormal e R é uma matriz triangular superior. Tal fatoração é muito importante do ponto de vista computacional, como veremos em breve, quando usarmos a fatoração QR como uma alternativa para resolução de sistemas lineareas por mínimos quadrados. Também é a base de um eficiente método numérico para encontrar autovalores de uma matriz quadrada.

Matrizes cujas colunas formam um conjunto ortonormal são muito úteis e por isso recebem um nome especial: são chamadas de matrizes ortogonais. Aqui cabe uma observação relevante: este é um exemplo de uma situação onde a terminologia clássica está longe de ser satisfatória: matrizes cujas colunas formam um conjunto ortonormal são chamadas de matrizes ortogonais.

Faremos agora uma exposição da fatoração QR usando uma matriz inicial A que tem 3 colunas, observando que a construção abaixo é facilmente generalizada para uma matriz de qualquer dimensão (desde que tenha colunas LI).

Dada uma matriz A = v→1v→2v→3 cujas colunas são LI e são denotadas pelos vetores v→1, v→2, e v→3, o processo de Gram-Schmidt começa com a construção de uma base ortogonal formada pelos vetores u→1, u→2, e u→3, para o espaço-coluna da matriz A. Para isso, definimos

u→1 = v→1 u→2 = v→2 − proju→1v→2 u→3 = v→3 − projSpan{u→1,u→2}v→3 (10.49)

Desta forma, existem coeficientes b1, c1 e c2 ∈ ℝ tais que

u→1 = v→1 u→2 = v→2 − b1u→1 u→3 = v→3 − c1u→1 − c2u→2 . (10.50)

Estes coeficientes são justamente aqueles que aparecem nas fórmulas (10.33) e (10.35). Apenas denotamos desta forma para não poluir as equações e facilitar o entendimento.

Em um segundo momento, cada um dos três vetores u→1, u→2, e u→3 pode ser normalizado, ou seja, podemos dividir cada um deles pelo seu comprimento para obter uma base ortonormal. Assim, u→1, u→2, e u→3 formam uma base ortonormal para o espaço coluna de A, e existem coeficientes α1, β1, β2, γ1, γ2 e γ3 ∈ ℝ tais que2

u→1 = α1v→1 u→2 = β2v→2 − β1u→1 u→3 = γ3v→3 − γ1u→1 − γ2u→2 (10.52)

Podemos agora inverter estas equações (que são do tipo triangular – faça as contas!) para escrever as colunas da matriz A em função dos vetores da base ortonormal {u→1,u→2,u→3} que acaba de ser obtida:

v→1 = α1−1u→1 v→2 = β2−1β1u→1 + β2−1u→2 v→3 = γ3−1γ1u→1 + γ3−1γ2u→2 + γ3−1u→3 (10.53)

Matricialemente, estas equações podem ser escritas como

| | | v → 1v→2v→3 | | | = | | | u → 1u→2u→3 | | | α1−1β2−1β1γ3−1γ1 0 β2−1 γ3−1γ2 0 0 γ3−1 , (10.54)

visto que cada coluna do produto da direita é definido como a combinação linear das colunas da primeira matriz com pesos dados pela respectiva coluna da segunda matriz.3 Assim, definindo

Q = | | | u → 1u→2u→3 | | | eR = α1−1β2−1β1γ3−1γ1 0 β2−1 γ3−1γ2 0 0 γ3−1 , (10.55)

obtemos

A = QR, (10.56)

que é o que queríamos obter.

Note também que R é invertível, já que sua diagonal principal contém apenas termos não-nulos.

A construção acima é facilmente generalizada para matrizes quaisquer e nos permite enunciar o seguinte fato (lembre que uma matriz ortogonal é uma matriz cujas colunas formam um conjunto ortonormal):

Teorema 98. Qualquer matriz A cujas colunas são linearmente independentes pode ser fatorada na forma A = QR, onde Q é uma matriz ortogonal e R é uma matriz triangular superior invertível. Ainda, o espaço coluna das matrizes A e Q é o mesmo, ou seja, as colunas de Q formam uma base ortonormal para o subespaço gerado pelas colunas de A.

Note que a fatoração QR está para o processo de Gram-Schmidt assim como a fatoração LU está para o método de eliminação gaussiana à forma escada

Bem, vimos que a matriz Q tem como colunas a base ortonormal gerada pelo processo de Gram-Schmidt. E como podemos calcular a matriz R no caso geral ?

Usando o seguinte fato surpreendente:

Teorema 99. Uma matriz ortogonal é sempre invertível e sua inversa é dada pela sua transposta, ou seja Q−1 = QT.

Demonstração. A prova deste teorema é uma simples verificação:
QTQ = — u→1 —   —  u → 2  —   — u→3 —  | | | u → 1u→2u→3 | | | = u→1 ⋅u→1u→1 ⋅u→2u→1 ⋅u→2 u→2 ⋅u→1 u→2 ⋅u→2u→2 ⋅u→3 u→3 ⋅u→1 u→3 ⋅u→2u→3 ⋅u→3 = 100 0 1 0 001 = I. (10.57)

■

Assim, se A = QR, basta multiplicar ambos os lados desta equação por QT pela esquerda para obtermos:

QTA = QTQR⇒R = QTA. (10.58)

No último exemplo da seção anterior, obtemos através do método de Gram-Schmidt uma base ortonormal para ColA onde

A = 12−51 4 6 167 −68 −4 24 −41 . (10.59)

Vamos definir a matriz Q como a matriz formada pelos vetores desta base ortonormal:

Q = 6∕7 −69∕175−58∕175 3∕7 158∕175 6∕175 −2∕7 6∕35 −33∕35 (10.60)

Vimos que R = QTA e portanto

R = QTA = 6∕7 3∕7 −2∕7 −69∕175158∕175 6∕35 −58∕175 6∕175 −33∕35 12−51 4 6 167 −68 −4 24 −41 = 14 21 −14 0 175 −70 0 0 35 . (10.61)

Finalmente podemos escrever

A = 12−51 4 6 167 −68 −4 24 −41 = 6∕7 −69∕175−58∕175 3∕7 158∕175 6∕175 −2∕7 6∕35 −33∕35 14 21 −14 0 175 −70 0 0 35 = QR. (10.62)

Creative Commons License Este texto é disponibilizado nos termos da licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada (CC-BY-SA 3.0). Página gerada em 19/8/2020 às 17:34:13.

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