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Álgebra Linear - Um Livro Colaborativo
Agora que temos definido um produto de matrizes, é natural de nos perguntarmos quais das propriedades usuais do produto entre números reais se mantém válidas.
Por exemplo, a matriz identidade é a matriz quadrada de ordem que tem na diagonal principal e nas demais posições. No caso , temos
| (4.16) |
Esta matriz satisfaz para qualquer matriz de ordem . Da mesma forma, temos para qualquer matriz de ordem (observe atentamente os índices!). O nome identidade vem desta propriedade, que é parecida com a propriedade da unidade nos números reais: .
Existindo a matriz identidade, outra pergunta natural é se existe um inverso multiplicativo. Para números reais, qualquer número não nulo possui:
| (4.17) |
isto é, satisfaz .
Vamos procurar por matrizes inversas: dada uma matriz , queremos encontrar uma matriz de modo que
| (4.18) |
Escrevemos de duas formas diferentes acima, pois o produto de matrizes não é comutativo. A matriz é chamada a matriz inversa de . Observe que deve ser quadrada (por quê?).
Vamos procurar pela inversa de
| (4.19) |
Escrevemos
| (4.20) |
e queremos descobrir os valores que satisfazem
| (4.21) |
Pela interpretação que demos anteriormente ao produto de matrizes, encontrar
| (4.22) |
é equivalente a resolver ao mesmo tempo os dois sistemas
| (4.23) |
A ideia é então resolver por escalonamento os sistemas cuja matriz aumentada associada é:
| (4.24) |
Tem-se
| (4.25) |
| (4.26) |
| (4.27) |
Daí concluimos (depois colocar em evidência o fator que está dividindo) que:
| (4.28) |
Nesta última expressão, definimos o determinante de uma matriz de ordem :
| (4.29) |
e, como foi necessário dividir por este valor, concluimos que:
| (4.30) |
Observação 26. Veremos na seção seguinte que o processo que utilizamos para inverter a matriz funciona para matrizes de qualquer ordem, mas é trabalhoso. No caso de uma matriz , talvez seja interessante memorizar a fórmula, já que não é tão complicada. Podemos pensar da seguinte maneira:
Atenção! Este método apenas funciona para matrizes quadradas de ordem !
| (4.31) |
Calculamos
| (4.32) |
Logo, possui inversa e temos
| (4.33) |
(trocamos de lugar os elementos da diagonal principal e de sinal os elementos da outra diagonal).
Façamos o mesmo para a matriz :
| (4.34) |
Logo,
| (4.35) |
(trocamos de lugar os elementos da diagonal principal – neste caso eram iguais – e de sinal dos elementos da outra diagonal).
Já para a matriz , temos
| (4.36) |
e portanto não é invertível (isto é, não existe a matriz inversa )
Considere uma matriz de ordem :
| (4.37) |
Para obter a matriz inversa, devemos ter:
| (4.38) |
Da mesma forma que na seção anterior, isto é equivalente a resolver simultaneamente os sistemas:
| (4.39) |
onde são as colunas da matriz inversa . Assim, devemos escrever a matriz aumentada associada a estes sistemas lineares:
| (4.40) |
ou, de forma mais sucinta,
| (4.41) |
E este é o algoritmo de resolução: Deixar a matriz em forma escalonada reduzida (até chegar na matriz identidade) de modo que as soluções obtidas já serão a matriz inversa de :
| (4.42) |
Observação 28. Para que seja possível encontrar as soluções, como indicado acima, a forma escalonada da matriz deve possuir posições de pivô (caso contrário, algum dos sistemas acima seria impossível), de modo que todas as colunas de são colunas pivô.
Se possuir alguma coluna sem posição de pivô, podemos parar imediatamente o algoritmo, pois isto significa que a matriz não é invertível.
Exemplo 29. Vamos decidir se a matriz abaixo é invertível e, em caso afirmativo, determinar a inversa:
| (4.43) |
De acordo com o algoritmo, devemos escalonar
| (4.44) |
Caso a matriz seja invertível, conseguiremos deixar a matriz identidade do lado esquerdo desta matriz aumentada. Começamos eliminando os termos da primeira coluna (abaixo do que está na posição de pivô):
| (4.45) |
| (4.46) |
| (4.47) |
Concluimos que
| (4.48) |
Verifique como exercício que esta matriz é de fato a matriz inversa de , isto é, calcule o produto e verifique que resulta em .
Notamos que, caso nosso único interesse fosse decidir se é invertível, sem necessariamente calcular sua inversa, poderíamos ter feito o escalonamento de (nem precisa ser da matriz aumentada ) e parado o processo quando chegamos em
| (4.49) |
pois já está claro que todas as colunas possuem posição de pivô.
Exemplo 30. Vamos decidir se a matriz abaixo é invertível e, em caso afirmativo, determinar a inversa:
| (4.50) |
De acordo com o algoritmo, devemos escalonar
| (4.51) |
Temos
| (4.52) |
Portanto, a terceira coluna não possui posição de pivô e a matriz não possui inversa.
Sistemas lineares de ordem
| (4.53) |
cuja matriz associada é invertível, são sistemas que possuem exatamente uma solução, para qualquer vetor (ver Subseção 4.3.4).
A existência da matriz inversa permite-nos multiplicar ambos os lados do sistema por para obter Logo,
| (4.54) |
Exemplo 31. Resolver o sistema
| (4.55) |
Já calculamos a matriz inversa no Exemplo 27:
| (4.56) |
Segue que a solução é
| (4.57) |
Embora nossa solução do sistema possa parecer “elegante” ao utilizar a matriz inversa, este método é muito ineficiente. Na verdade, escalonar a matriz aumentada associada ao sistema exige um custo computacional muito menor do que calcular a inversa da matriz e, portanto, em geral se usa o escalonamento.
Matrizes inversas têm uma importância mais teórica no nosso curso, como veremos na subseção abaixo.
Vamos, nesta subseção, verificar (provar de forma rigorosa) que
“a matriz é invertível se, e somente se, o sistema linear possui exatamente uma solução, para qualquer vetor .”
Se é invertível, então conseguimos resolver todos os sistemas
| (4.58) |
concomitantemente. De fato, qualquer vetor pode ser escrito como
| (4.59) |
e daí verificamos que se pode construir uma solução pela fórmula
| (4.60) |
já que pela linearidade do produto da matriz por vetores, temos
Reciprocamente, suponhamos que o sistema possua exatamente uma solução, para qualquer vetor . Em particular, podemos resolver os sitemas
| (4.61) |
e escrever a matriz inversa de acordo com o nosso algoritmo:
| (4.62) |
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