11/02/2021

Descrição da imagem: Casal comemora na cozinha da casa seu natal em distanciamento. O uso da imagem foi autorizado por Janete e Camargo.

"Talvez possamos chamar esse período de isolamento “físico”, pois o social foi se reinventando no decorrer dos dias. Aulas, reuniões, formas de trabalho, de convivência… tudo precisou ser adaptado. As tecnologias digitais estão cada vez mais presentes no dia a dia. Cada um precisando aprender, precisando também ensinar dentro da própria casa."

 

Taciane Gabriela Jeske

Universidade Federal de Santa Maria

 

Janete tem 70 anos. Funcionária pública aposentada, mãe de três filhos biológicos e de sete adotivos. Sempre teve a casa cheia, panelas bem grandes e uma boa dose de paciência. Além dos dez filhos, também tomava conta da mãe. A casa não era de muito luxo, mas nada faltou aos que nela habitaram. Os aniversários, natais e páscoas, sempre populosos, reunindo a família em volta de mesa de madeira de quase cinco metros, preservada na família até os dias de hoje. Janete sempre gostou de “presentes alimentícios”, sendo os preferidos qualquer doce que envolvesse figo (em calda, cristalizado, figada, etc.). Já é uma tradição os filhos presentearem a matriarca com figos.

Luís, 61 anos. Ferroviário aposentado, conheceu Janete em 1986, mãe solo de quatro crianças, que havia viuvado recentemente. Luís é o mais velho de cinco irmãos. Assumiu a família, que só cresce nos últimos 34 anos. Hoje já com noras, genros e netos. Também é o responsável pela mesa que acomoda a família toda. Os filhos comentam que o melhor presente para se dar ao Seu Camargo (como é conhecido nas ferrovias e também chamado pela família), são agendas, blocos de notas e afins, pois ele anota tudo. Amante de história, gosta muito de livros e ao se aposentar, se encontrou no mundo da internet, onde lê sobre história, geografia e curiosidades madrugada adentro.

Os filhos e netos cresceram. Tomaram seus caminhos, espalhados pelo Rio Grande do Sul. Poucos se mantiveram na cidade de Cruz Alta. O casal gosta muito de viajar para ver os filhos, de passear nas cidades em que cada um deles mora e conhecer shoppings e supermercados. Porém, em março do ano de 2020, ao ser decretada a Pandemia de Covid-19 pela Organização Mundial de Saúde, as coisas precisaram mudar. Os dois se mantiveram isolados no interior do Rio Grande do Sul, longe da maioria dos familiares. Em meio a muitas incertezas, manter o afastamento físico é necessário e, por muito tempo, tem sido uma de nossas únicas certezas frente ao novo vírus.

Talvez possamos chamar esse período de isolamento “físico”, pois o social foi se reinventando no decorrer dos dias. Aulas, reuniões, formas de trabalho, de convivência… tudo precisou ser adaptado. As tecnologias digitais estão cada vez mais presentes no dia a dia. Cada um precisando aprender, precisando também ensinar dentro da própria casa.

Janete é quem mais demonstra a saudade dos filhos. Em alguns dias relatou ansiedade e uma sensação de nervosismo, em outros comentou sobre tristeza, porém sempre falando da saudade e também dos medos em romper o isolamento social. Luís já conversava mais pelo telefone e atualmente se ocupa no computador, sendo o responsável por fazer as compras. Assim, sentiu menos os efeitos do isolamento, mas está igualmente saudoso dos familiares.

Em um período tão atípico, a mesa não foi ocupada no Natal. A ceia foi consideravelmente menor do que o habitual. Sem abraços, poucos presentes e grandes distâncias. No final de 2020, em vez dos presentes frequentes como figadas e livros, o estreitamento de laços veio em forma de celulares. A felicidade está estampada no rosto! E, em mais um dia de pandemia, as distâncias vêm se fazendo menores, com um empurrãozinho da tecnologia. Ainda em adaptação e constante aprendizado, os dois fazem chamadas de vídeo, compartilham fotos, vídeos, áudios e tudo o mais que puderem.

A casa já não está tão cheia, mas o mesmo não se pode dizer da galeria do celular que agora os acompanha diariamente.

 

 

Agradecimento especial à Prof. Dra. Monalisa Dias de Siqueira pelos apontamentos, companheirismo e pelos incentivos constantes.

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