As ações afirmativas e a exclusão digital: qual a relação entre elas e como afetam o ingresso dos estudantes pretos e pardos nas universidades?

A falta de acessibilidade à internet está diretamente relacionada em como as universidades perdem e não absorvem os estudantes que não conseguem se inscrever no vestibular, não conseguem passar na prova, pois o estudo não é facilitado, não conseguem passar na auto verificação racial, pois o acesso à essa informação é dificultado pelo grande número de informações nos sites das universidades, e assim, exaltando as mazelas da exclusão digital que afetam diariamente a população e o desenvolvimento socioeconômico brasileiro.

Em meio à pandemia da Covid-19, mergulhamos de vez no mundo digital e descobrimos como ele pode ser útil em nosso dia a dia. O uso das redes sociais, dos aplicativos de chamada de vídeo e de streaming nunca foram tão grandes. No entanto, um dos principais problemas advindos desse crescimento se mostrou presente na vida de muitos brasileiros: a exclusão digital.

Indiretamente, podemos dizer que essa exclusão tem cor e endereço fixo. Segundo uma pesquisa feita, em 2022, pelo Instituto Locomotiva em parceria com a PwC, 45% da população adulta (a partir dos 16 anos) não possuem acesso à internet ou estão‘’subconectados’’ (possuem um acesso restrito a certos aplicativos, como whatsapp, por exemplo) e, de maneira mais esclarecedora, cerca de 81% dos brasileiros com mais de 10 anos possuem acesso à internet, porém somente 19% têm um acesso de qualidade. Entre pessoas negras e pardas os que possuem total acesso são cerca de 8%, já os subcontratados passam dos 60%.

Dessa maneira, a exclusão digital não diz respeito apenas aqueles indivíduos que não possuem acesso a web, mas também aqueles que possuem aparelhos eletrônicos e não sabem manuseá-los. Nosso país, desde sua colonização, é antro de desigualdades e sofre das consequências dela até os dias atuais, portanto não basta apenas que todos tenham acesso à internet, mas que também todos saibam como usá-la e quais os benefícios elas adicionam na vida de cada um.

Ainda nessa pesquisa, durante o pico da pandemia, em 2021, a evasão escolar, na rede pública, foi cerca de 3 vezes maior que na rede privada. Tais fatores são, em suma, uma representação direta do que aflige a população periférica brasileira. Mesmo com a implementação do 5G nas capitais do país, as iniciativas de ampliação do acesso à internet, que abrangem desde as Políticas Públicas de Telecomunicações e o Novo Marco Legal das Telecomunicações, entre outros meios de dispersão da rede no Brasil, as mazelas perante a falta dela ainda são palpáveis.

Um desses momentos, onde ela é palpável, é na época dos vestibulares, pois muitos adolescentes periféricos não possuem meios de estudos, do mesmo calibre que aqueles que vivem em regiões onde a internet chega e funciona sem problema. A praticidade que a internet oferece para que a possui é enorme, uma vez que, por exemplo, caso o estudante não entenda certa explicação ou exercício, ele pode, basicamente, pesquisar na internet meios que ofereçam a resposta para essa dúvida. Assim, visivelmente, os vestibulandos que possuem total acesso à rede já saem em vantagem, em comparação com os que não possuem, no vestibular. A relação entre esses dois fatores fica bem mais íntima ao entender de que lugar esse problema surgiu: as mazelas do colonialismo, da perificação da sociedade e da exclusão digital se encontram novamente e afetam a vida desses estudantes, ou seja, que são, principalmente, negros ou pardos, de baixa renda e que não possuem todos os seus direitos, pré-estabelecidos pela constituição, ofertados.

É nesse momento que as cotas entram em ação. Desde a sua implementação em2001, as ações afirmativas, no Brasil, têm gerado uma grande transformação nas universidades brasileiras, principalmente públicas. As cotas não se limitam a pessoas de cor, como também a pessoas com baixa renda e deficientes, qualquer uma que ela seja; e seus impactos dentro das universidades são de extrema importância para o desenvolvimento socioeconômico brasileiro.

Como atestado no estudo proposto por Pinheiro, Pereira e Xavier, as ações afirmativas têm se mostrado satisfatórias, pois o acesso à universidade tem sido cada vez mais justo com as populações inferiorizadas, bem como tem mostrado resultados importantes para a permanência dessa política pública. De acordo com os pesquisadores, o rendimento dos cotistas se equiparam com os não cotistas, o que mostra o interesse de ambas as partes dentro de seus cursos. No entanto, na evasão dos cursos a história é outra; o número de evasões é cerca de 15% maior entre os não cotistas, fato esse que indica a perseverança e constância dos cotistas dentro de seus respectivos cursos. E como dado final, a diplomação pode variar cerca de 10% à 20% a favor dos cotistas, ressaltando mais uma vez a importância das ações afirmativas dentro das universidades.

De tal modo, fica claro a correlação entre ambos os fatores e como a vida de estudantes pretos e pardos seria mais fácil caso fossem adotadas medidas mais eficazes de distribuição de internet no país, e assim, esses estudantes, ainda mais os periféricos, teriam seus direitos, do ponto de vista constitucional, garantidos e efetivados, ocasionando no crescimento estudantil, científico e socioeconômico brasileiro.

Esse texto foi elaborado por João Vitor Simão de Freitas, acadêmico do curso de Psicologia da UFRGS, como trabalho final da disciplina eletiva de Divulgação Científica e Educação Continuada, oferecida pelo curso de Psicologia da UFRGS.

Referências:
Almeida, L.B., Paula, L. G., Carelli, F. C., & Genestra, M. (2005) O retrato da exclusão digital na sociedade brasileira. In: JISTEM J.Inf.Syst. Technol. Manag; 2 (1). Disponível em: <https://www.scielo.br/j/jistm/a/7BZxyCX73JT9tJbBmsbfZ8w/?lang=pt>


Franco, A, H. C. (2021) Políticas públicas de informação: um olhar para o acesso à Internet e para a inclusão digital no cenário brasileiro. In: Em Questão; 27 (4). Disponível em: <https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=465668631004>


Lima, M. & Campos, L. A. (2020) A inclusão racial no ensino superior: impactos, consequências e desafios. In: Novos estudos CEBRAP; 39 (2). Disponível em: <https://www.scielo.br/j/nec/a/3FkB7JMFqyTbxNkLZnXLxZf/>


Meirelles, R. (2022) O abismo digital no Brasil. In: Revista PwC Brasil (versão online); Disponível em:
https://www.pwc.com.br/pt/estudos/preocupacoes-ceos/mais-temas/2022/o-abismo-digital-no-brasil.ht
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Pinheiro, D. C., Pereira, R. D. & Xavier, W. S. (2021) Impactos das cotas no ensino superior: um balanço do desempenho dos cotistas nas universidades estaduais. In: Revista Brasileira de Educação; 26. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rbedu/a/pJbNpfcXxbkPtzwg3CWrSMD/>

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