Ao longo da vida, as pessoas comumente passam por situações difíceis que trazem sofrimento e desafiam seus recursos individuais. Acolher e oferecer suporte a quem sofre nem sempre é uma tarefa simples, mesmo quando existe uma relação próxima de afeto. Felizmente, existem algumas estratégias que podem tornar esse processo mais fácil e proveitoso. Essas estratégias podem ser empregadas em diferentes contextos, como nas relações entre amigos, colegas de trabalho e estudos ou entre servidores e estudantes da universidade.
Qual o ambiente adequado para o acolhimento?
Procure um local tranquilo que preserve a privacidade da pessoa que você está acolhendo e que permita uma conversa sem interrupções ou interferências indevidas. Fique atento às condições de segurança e evite lugares propícios a acidentes ou com objetos que possam causar ferimento.
Caso a pessoa esteja muito agitada e agressiva, não fique sozinho com ela em espaços fechados. Se for necessário conduzir a conversa em um local público, você pode gentilmente pedir que indivíduos não relacionados à situação se retirem para evitar a exposição de quem você está auxiliando.
Como iniciar a conversa?
Apresente-se, caso seja seu primeiro contato com aquela pessoa. Diga seu nome e função no setor onde trabalha, se for o caso. Pergunte como ela gosta de ser chamada e trate-a de forma condizente.
Você pode iniciar a conversa com perguntas simples, como: “o que te angustia?”; “o que está acontecendo?”; “como posso te ajudar?”. Nem sempre as pessoas têm clareza de antemão de que tipo de auxílio precisam, mas isso pode ser construído ao longo da conversa.
Como favorecer uma conversa acolhedora?
Crie condições para que a pessoa lhe conte o que está acontecendo: mantenha a calma, permita que ela fale livremente com suas próprias palavras e evite interromper. Tolere os silêncios, pois pequenos intervalos são normais e frequentemente servem para refletir sobre o que se está vivendo ou sobre como se expressar a respeito.
Se você não compreender algo que foi dito, pergunte. Resuma o que você escutou e verifique se entendeu corretamente. Caso necessite de alguma informação adicional, solicite. Entretanto, não pressione a pessoa a falar mais do que tem condições e não insista para que ela forneça detalhes irrelevantes ou que não lhe dizem respeito. Lembre-se: é um acolhimento, não um interrogatório!
Respeite o ponto de vista do outro e não julgue suas crenças, comportamentos ou sentimentos. As pessoas têm trajetórias e contextos de vida diferentes. O fato de você não compreender ou não concordar com algo não significa que aquilo não faça sentido na realidade dos demais. Demonstre empatia reconhecendo o ponto de vista do outro e valide seus sentimentos. Você pode dizer frases como: “faz sentido que você se sinta dessa forma nessa situação”, “você não está ficando louco(a)”, “é normal sentir-se assim”.
Seja honesto e não faça falsas promessas. Não use clichês como: “vai passar”; “tem gente que enfrenta problemas piores”. Falas desse tipo criam a impressão de que você não entende ou não leva a sério o que a pessoa está enfrentando. Além disso, ao prometer que “tudo vai ficar bem”, você pode colocar em risco a relação de confiança caso o desfecho da situação seja negativo.
Procure falar de forma simples, sem jargões ou termos técnicos. Use frases curtas e preste apenas as orientações necessárias. Se a pessoa com quem você está conversando estiver muito ansiosa ou preocupada, ela poderá ter dificuldades para compreender e memorizar tudo que foi abordado. Nesses momentos, excesso de informações pode ser prejudicial. Detenha-se naquilo que é realmente importante!
Seja cuidadoso com a privacidade da pessoa a quem você está auxiliando. Caso seja necessário compartilhar com mais alguém a situação relatada por ela para obter ajuda adicional ou para preservar a segurança dos envolvidos, converse previamente sobre isso. Explique porque é preciso, quem terá acesso às informações e com qual objetivo.
Aprenda a reconhecer os limites e a fazer conexões!
Acolher e auxiliar não é o mesmo que resolver os problemas pelo outro. É sempre importante incentivar a autonomia e respeitar o direito de escolha das pessoas. Tenha em mente que as decisões devem ser tomadas por elas e não por você.
Caso a pessoa esteja enfrentando problemas complexos, ajude-a a identificar as prioridades. Nem sempre é necessário ou mesmo possível resolver tudo de uma vez só. Não hesite em buscar ajuda adicional quando for preciso.
Pergunte pela rede de apoio. Incentive-a a falar sobre as figuras de suporte que a auxiliaram em outras situações. Interrogue sobre que tipo de ajuda elas poderiam dar neste momento. Sugira outros serviços que possam contribuir frente a demandas específicas, como outros setores da universidade, rede de saúde, entre outros.
Seja realista com suas próprias expectativas. Nem todos os problemas têm soluções simples e imediatas. O fato de as dificuldades persistirem não significa que o acolhimento não tenha funcionado. Oferecer um espaço de escuta respeitoso pode propiciar o alívio do sofrimento e da solidão diante dos desafios da vida!
Texto elaborado por Thais Ferrugem Sarmento, psicóloga (CRP 07/17106), mestre em psicologia social e institucional pela UFRGS.
REFERÊNCIAS
Benjamin, A. (2004). A entrevista de ajuda. São Paulo: Martins Fontes.
Organização Pan-Americana da Saúde [OPAS]. (2015). Primeiros cuidados psicológicos: guia para trabalhadores de campo. Brasília, DF: OPAS.
