O que é liberdade paradoxal?

O autor Byung-Chul Han aborda o tema da liberdade em seu livro A Sociedade do Cansaço (2017) ecompartilha suas percepções acerca do tema em nossa sociedade. 

A partir do momento em que começamos a nos relacionar com os dispositivos eletrônicos conectados móveis, passamos a ter acesso a uma quantidade infinita de possibilidades. Essa relação nos proporciona a sensação de que temos uma liberdade sem fronteiras. 

O autor refere uma passagem da coerção externa para uma coerção interna, enquanto uma violência neuronal. É como se os sujeitos fossem convocados a uma produtividade exacerbada a partir das infinitas possibilidades ofertadas. Han fala sobre a internalização da coerção proposta pela sociedade do desempenho. Diferente da sociedade disciplinar, em que a submissão é proposta pelo elemento externo, a sociedade do desempenho convoca as pessoas a uma coerção interna em direção à produtividade. 

Na passagem do sujeito da obediência, produzido pela sociedade disciplinar, para o sujeito do desempenho, convocado pelo contexto atual, que consequências podemos esperar? 

Nos dias de hoje, vivemos uma relação de adoecimento que está diretamente relacionada aos processos neurológicos: burnout, ansiedade, depressão, déficit de atenção e hiperatividade, etc.

Com o deslocamento dos mecanismos disciplinares em direção à liberdade coercitiva, surge um imperativo de que as características do empresário de si mesmo devam alcançar o seu desempenho máximo. Em um retorno ao sujeito, a impossibilidade de alcançar o desempenho máximo gera sentimentos de culpa e de fracasso. Na sociedade do desempenho o que predomina é o convite a uma auto exploração. Assim, as ações de melhoramento cognitivo por meio de estratégias e substâncias devem ser um ponto de atenção muito importante. 

Mas como podemos resistir a todo esse contexto? Han oferece alguns caminhos como uma relação menos acelerada com o tempo. Ainda, comenta sobre a potência que os encontros e as festividades oferecem, em um fortalecimento do coletivo. O tempo de festa e de descanso são tão importantes quanto o tempo do desempenho e da produtividade. Somos convocados ao sentimento de culpa pelo ‘tempo perdido’ quando não estamos em produção, mas não podemos desconsiderar a importância desses momentos.

Texto elaborado pelo Psicólogo e Mestre em Psicanálise: Clínica e Cultura (UFRGS), Raul Oliveira Jung, Diretor da Divisão de Promoção da Saúde Discente – DPSD/PRAE/UFRGS.

Referências:

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Giachini, Enio Paulo. 2. 2017. Vozes, Petrópolis: 128

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