A letra da música Comida de 1987 da banda Titãs nos remete a uma reflexão sobre as relações entre necessidade – desejo – vontade. O questionamento, em forma de melodia, introduz a pergunta: “você tem fome de quê, você tem sede de quê? ”.
Consumos exagerados – não apenas de alimentos, mas de substâncias psicoativas, compras, séries, jogos, entre outros – aparecem como uma resposta rápida e aparentemente fácil para aplacar outras faltas, vazios e sofrimentos de outra ordem, que não da necessidade fisiológica. Quando exagerado e compulsivo, o hábito causa prejuízos físicos e mentais.
Desde muito pequenos, os seres humanos são ensinados a “resolver” suas dores e anseios por meio da alimentação. Quem nunca viu uma mãe amamentar sua prole assim que escuta seu choro? Quando um bebê chora, instintivamente associamos à fome. Bebê e crianças pequenas ainda não conseguem expressar pela linguagem seus incômodos, os quais podem ser de várias ordens, não apenas pela falta de alimento. Buscar “traduzir” o sofrimento da criança significa compreendermos que ela não chora apenas quando tem fome, nem tampouco somente a comida garante o alívio dos desconfortos.
Agora, imaginem alguém que cresce tendo por referência o alimento como a única forma de atenuar o sofrimento? Certamente, o sistema de recompensa é ativado e o comer emocional se torna um hábito. Quem não tem aquele parente ou amigo que começa a mordiscar pipoca, doces e outras guloseimas de alta densidade calórica quando estão nervosos ou ansiosos, sendo que recém haviam realizado uma grande refeição? Isso sem falar em outras formas de adição como cigarro, bebidas e outras drogas.
O comer emocional, enquanto prática repetitiva, pode se tornar um hábito, um mecanismo de fuga emocional em que o indivíduo obtém prazer para escapar de sua dor, podendo trazer prejuízos como o ganho de peso indesejado, baixa autoestima, entre outros.
Diferente do comer emocional, o Transtorno de Compulsão Alimentar (TCA) se caracteriza como transtorno justamente pela ocorrência periódica de seus sintomas e pela sua gravidade. Apesar de ser o transtorno alimentar mais presente na população, o TCA é o menos estudado. Ele consiste de episódios de compulsão alimentar pelo menos uma vez na semana por, pelo menos, três meses sem o uso de métodos compensatórios como a prática de exercícios físicos extenuantes ou indução do vômito, com acentuado estresse e desconforto causado pelo episódio, além da sensação de falta de controle em relação à alimentação.
Ademais, para que o TCA seja diagnosticado também são necessários que estejam presentes pelo menos três ou mais dos seguintes comportamentos:
- Comer muito mais rápido do que o normal
- Comer até se sentir desconfortavelmente cheio
- Comer grandes quantidades de alimento quando não se sentindo fisicamente com fome
- Comer sozinho por vergonha
- Sentir-se nauseado, deprimido ou culpado depois de comer excessivamente
No caso do TCA, o tratamento se dá pela Psicoterapia, uma das formas de aprender a lidar com as emoções, além de tratamento com uso de medicamentos. Se você identificou algum sinal de comer emocional ou de transtorno de compulsão alimentar em você ou em algum conhecido seu, busque ajuda! Quanto antes tratar, melhor será a qualidade de vida das pessoas que são acometidas por esses episódios.
Enfim, lidar com as emoções pode ser um indicativo para nos conscientizarmos de que o alimento sirva apenas ao seu propósito de nutrir o corpo, propiciar momentos de prazer e fazer parte de momentos compartilhados.
O hit “Você tem fome de quê, você tem sede de quê?”, vem seguido de respostas: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, o que nos dá pistas para pensarmos que precisamos – e desejamos – outras coisas, pois somos seres sedentos e famintos de relações sociais, lazer, conhecimento, movimento, expressões artísticas e culturais. São inúmeras as possibilidades, mas precisamos ter acesso a elas e/ou nos permitir experimentá-las. Ler, caminhar, contemplar a natureza, aprender algo novo, visitar um museu, dançar, dar e receber um abraço, cultivar as amizades e até mesmo, fazer uma nova receita! Mas, e você, tem fome e sede de quê?
Texto elaborado por Luciana Francisca de Oliveira (Psicóloga CRPRS 13818) e Fabiana Tanabe (Nutricionista CRN 2 9727).
Referências:
ATTIA, E. e WALSH, B.T. Transtorno de compulsão alimentar. In: Manual MSD, versão para profissionais da saúde. Disponível em: <https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/transtornos-psiqui%C3%A1tricos/transtornos-alimentares/transtorno-de-compuls%C3%A3o-alimentar>.
CARVALHO, R.V.C. Autocuidado na obesidade em pessoas com e sem compulsão alimentar. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Florianópolis: 2022.
