Bruna Silveira, Dorian Ali Canello Padilha, Kerolyn Grasel Ferreira e Manuela Vilagran da Silva
Não sei exatamente como começar este texto. Afinal, nunca fui em uma festa com discotecagem em vinil. Mas talvez seja exatamente isso que estamos querendo pontuar aqui.
Sair para festas é um verdadeiro ritual para mim, desde a arrumação ao esquenta com os amigos. Minha noite sempre começa com músicas melancólicas, são elas que escuto enquanto me arrumo. Depois de um tempo, vou me animando e colocando músicas que (DE FATO) irão tocar na festa ou no rolê de rua que vou. As festas/rolês geralmente tem uma pegada mais eletrônica/funk/pop, algo bem variado e que me identifico bastante. Talvez a identificação seja o fator principal para me levar aos lugares que vou, ou talvez o fato de me sentir muito sozinha morando num apartamento de 50m² sem um gato para me fazer companhia… Enfim, voltando pro assunto, estar num lugar onde vou ouvir músicas que gosto, conversar com amigos, beber algo bem duvidoso, dar muita risada e me sentir minimamente atraente são fatores que me induzem a sair de casa para curtir um rolê. Agora, quais são os rolês que me sinto à vontade? Majoritariamente aqueles onde não vejo somente casais de mulheres brancas, cabelos lisos e loiros, de vestido tubinho e salto alto acompanhada de homens brancos, de camiseta preta e calça skinny com um copo na mão, e algum DJ que só toca hits do TikTok em sequência, sem qualquer mixagem. Vejam bem, NADA CONTRA os vestidos tubinhos, salto altos, cabelos lisos e loiros — características sempre acompanhadas de mulheres gatíssimas. Mas compreendem a vibe? Uma festa cis-heteronormativa não tem a mesma vibe de um rolê organizado por e para pessoas queer. E isso está alinhado, também, à música, aos corpos presentes nesses lugares, às pessoas que realizam a festa e às materialidades de mixagem (sim, elas estão presentes e nós temos um ponto).
Depois das aulas de semiótica da faculdade, parece que todas as questões de gênero ficam ainda mais evidentes. Digo “ainda mais evidente” porque, sendo mulher, algumas coisas são escancaradas mesmo… Mas essas questões também me influenciam a ir em certos rolês. Um exemplo disso é o último rolê universitário que fui, a Viadage, festa organizada pelo Diretório Acadêmico da Geografia da UFRGS, onde a DJ era uma mulher, e uma amiga minha se sentiu genuinamente feliz por ver uma pessoa como ela ocupando esse espaço. Talvez o ambiente também seja um espaço convidativo, mas o DJ é quem faz a festa acontecer. Se não tem música, não tem festa. E quando tem rolê sem música, o primeiro pensamento que passa pela cabeça é: “bah, podiam colocar uma música aqui”.
Como disse anteriormente, nunca fui em uma festa de discotecagem em vinil. É meio vergonhoso da minha parte estar escrevendo um TEXTÃO sobre esse assunto, sem nunca ter prestigiado uma. Engraçado pensar que em todas as festas que vou funcionam com uma CDJ ou DDJ à disposição do DJ. E os corpos que ocupam esse espaço são variados, dissidentes e, portanto, queer. Nunca prestei atenção se haveriam mulheres tocando, porque isso sempre foi uma realidade. Todos os rolês que vou existem mulheres tocando os mais variados gêneros de músicas, mas sempre com DDJs e CDJs, aparelhos consideravelmente modernos em relação aos toca-discos.
O ponto que queremos chegar é: caso eu (Manu) fosse para uma festa, em que a mixagem é feita a partir de toca-discos, os corpos que ocupam o espaço do DJ seriam os mesmos das festas que já costumo frequentar?
Agora falando em nome de todos nós, a presença do DJ é indiscutível para uma festa acontecer. Ele tem o papel de protagonista nos rolês: dita o ritmo, as músicas e a energia que a pista irá receber. As pessoas decidem se irão ou não dependendo da line-up de cada festa. Para estar nesta posição de importância não é preciso apenas referências, pesquisa, técnica e conhecimento mas, também, um equipamento.
A materialidade em que o DJ articula para a produção de sets também recebe esse papel de destaque. Entretanto, parece que as mesas de disco ficam restritas a um grupo específico de pessoas, diferentemente das CDJs e DDJs. Em algumas conversas sobre este trabalho, Dorian chegou a comentar que frequenta a cena do Hip-Hop em Porto Alegre e que participou de duas batalhas de mixagem em vinil. Em ambas, ele era o único participante não-homem cis presente na cena.

DJ Canello na Batalha de DJs de 1 ano do Museu do HipHop (Créditos: Cristiano Rangel)
Na primeira batalha em que foi, ele foi parabenizado por muitos ali presentes, principalmente por DJs já consolidados na cena, porém a sua identidade de gênero foi invalidada ao ser reconhecido como a “única mulher” a batalhar — mesmo sendo transmasculino e a produção do evento tendo noção disso. Dorian, que é uma pessoa transmasculina, foi anunciado e deixado reverberar como uma mulher cis.
Além disso, ele relata que a presença de corpos não-cismasculinos é escassa na produção desses eventos. Em uma festa em que foi chamado para tocar antes de uma das grandes referências dos vinis, o DJ KL Jay, integrante dos “Racionais”, havia apenas ele e mais uma MC mulher nesta função. Isso nos fez notar a falta da presença de corpos queer na cena da discotecagem em vinil. Afinal, seria ela inexistente ou invisibilizada?
Resgate histórico da discotecagem: isso explica tudo?
A discotecagem em vinil teve sua origem no contexto das rádios, onde os discos eram utilizados, principalmente, como meios de reprodução musical, sem a realização das técnicas que hoje associamos à figura do DJ. Os toca-discos eram operados de forma muito funcional, sem intervenções significativas.
Entretanto, a partir da década de 1970, os discos e os toca-discos passaram a ser vistos de outra maneira. Começam a enxergar esses dispositivos como instrumentos de criação sonora. Então, a partir disso, DJs começam a manipular fisicamente os vinis, tocando, movimentando e explorando suas possibilidades expressivas para produzir novos sons, além daqueles já comportados nos vinis. A prática da mixagem em dois toca-discos surgiu de forma espontânea. Essas técnicas de manipulação são atribuídas a DJs homens, como o DJ Kool Herc e o DJ Grand Master Flasher. Além disso, em uma pesquisa super-rápida, encontramos uma listagem de outros nomes considerados referências nesta área em que todos são masculinos.
A partir dessas experimentações, uma nova forma de produção musical se consolidou e extrapolou o âmbito sonoro. Novos estilos de dança, roupas, linguagem visual e formas de sociabilidade passaram a se desenvolver em torno dessas práticas, contribuindo para a formação de uma cena cultural própria que, posteriormente, seria reconhecida como a cultura Hip-Hop.
Embora a discotecagem e mixagem em vinil tenham desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento da cultura Hip-Hop durante a década de 70, essas práticas também estavam presentes em diversos contextos musicais e festivos, como nas cenas de Disco, House e, posteriormente, Techno. Lembrando que essas cenas surgiram em comunidades negras e gays dos Estados Unidos (GARSON, 2018), contextos marginalizados e expressões consideradas restritas a estes públicos.
A partir da década de 1990, novas tecnologias começaram a transformar a prática da discotecagem. Entre elas destacam-se as CDJs mencionadas anteriormente, equipamentos desenvolvidos para a reprodução de músicas armazenadas em dispositivos digitais, como pen drives, por exemplo. Diferentemente dos toca-discos, que dependem da leitura mecânica de um disco de vinil, as CDJs realizam a leitura digital dos arquivos sonoros. Assim, algumas funcionalidades expressas nas CDJs reduziram as limitações técnicas associadas ao uso do vinil, como maior portabilidade de músicas e uma praticidade inigualável, tendo em vista o tamanho de uma mesa de discotecagem em vinil em comparação a uma controladora. Isso contribuiu para a ampla adoção desses equipamentos em clubes, festivais e eventos de grande porte — tirando o fato de que o custo monetário de um CDJ é consideravelmente menor ao custo de uma Pick Up (mesa de discotecagem em vinil), o que também influencia essa aderência aos aparelhos.
Bom, algumas questões nos deixaram bem inquietos ao longo dessa contextualização. A cultura do DJ surgiu, principalmente, em espaços marginalizados, protagonizados por corpos dissidentes, como pessoas negras e homossexuais, atuando nela. Mas, apesar dessa origem, as referências que temos hoje de pessoas que utilizam mesas de disco de vinil para mixar são, em sua maioria, composta por homens cis-heteronormativos. O que há afinal, na prática da mixagem que se aproxima da masculinidade? Por que, mesmo tendo emergido em um contexto dissidente, essa técnica passou a ser tão fortemente associada a um determinado gênero? Estaria essa relação ligada a alguma noção de autenticidade? Ou haveria uma fascinação pela materialidade e pela sonoridade do vinil que dialoga com certos imaginários masculinos, assim como ocorreu com os equipamentos Hi-Fi, cuja promessa de alta fidelidade sonora mobilizou formas específicas de consumo e de desejo tecnológico na década de 70 (CONTER, 2016)? Talvez essa presença masculina tão marcante não seja uma coincidência, mas um sintoma de processos mais amplos de generificação das tecnologias sonoras. Afinal, o que tudo isso tem a ver com identidade de gênero?
Seria a discotecagem em vinil um ritornelo tecnológico da autenticidade?
Tocar em vinil é frequentemente associado a uma prática de maior legitimidade e autenticidade artística. Isso acontece tanto fora da cultura DJ — eu (Manu), por exemplo, que não faço ideia de como montar/mixar um set de uma hora ininterrupta, também associo a prática a isso —, quanto dentro dela. Através do Dorian, conseguimos entrevistar a DJ Lais Regina, reconhecida atualmente como a única mulher do estado do Rio Grande do Sul a mixar por meio de discos de vinil. É muito curioso pensar que, até aqui, a Lais seja o segundo corpo não-cismasculino a ser citado como alguém que trabalha com esse tipo de expressão cultural. Em entrevista, ela afirma optar por essa prática porque, por meio dela, consegue “sentir a música”, ressaltando a dimensão material física ao contato direto com os discos.
Gostaríamos de ressaltar o relato do Dorian, como uma pessoa que está inserida dentro da cultura DJ e que acompanhou algumas discussões em grupos de DJs e em conversas informais sobre o uso de CDJs e DDJs. Nessas interações, o debate se voltava principalmente para a legitimidade da discotecagem em vinil em comparação às tecnologias mais modernas, posicionando os toca-discos como instrumentos “mais autênticos” e que exigem maior bagagem prática do ponto de vista técnico.
Nesse contexto, acreditamos que o culto ao vinil parece estar ligado a uma certa dedicação, ao investimento financeiro e ao conhecimento cultural/musical que ele pode simbolizar. Essa discussão nos faz lembrar de alguns assuntos que tratamos em aula, sobre autenticidade e como a valorização do “obsoleto” prevalece sob materialidades “modernas”. O capítulo 4, de “Lo-Fi: música pop em baixa definição”, de Conter (2016), inicia com a seguinte citação: “Uma coisa é certa: antes que este século acabe, o tão poderoso iPod vai soar tão primitivo e exótico quanto o fonógrafo de cilindro de Edison soa hoje. Tudo o que vai, volta.” (p. 127). Os toca-discos parecem representar esse primitivismo, fato que faz com eles “voltem” para a atualidade. Mas para quem eles estão voltando? Quais identidades estão aptas a prestigiar esta volta?
Achamos peculiar pensar como a aderência a essas materialidades está associada, principalmente, à autenticidade que elas podem simbolizar. O fato das mesas de vinil serem aparelhagens que marcaram os primórdios da cultura do Hip-Hop, consideradas “vintage”, caras e robustas, para nós, está ligado ao “parecer autêntico”. O relato da DJ Lais, sobre sentir a música através do tato, expande ainda mais essa discussão. Parece que tem algo místico em torno do vinil. Um culto ao vinil, retrô, antigo, diferente, ultrapassado, “eu sinto a música e você não”, capital, “eu tenho dinheiro para gastar com muitos vinis e você não”.
Não queremos, de forma alguma, desmerecer ou criticar as formas de se relacionar com a arte, pelo contrário, todos os relatos apresentados são vistos como caminhos que nos ajudam a refletir sobre a forma como nos relacionamos com as mídias sonoras, o que pode resultar, inclusive, em formas de exclusões sociais.
Durante nossas pesquisas, percebemos que a cena porto-alegrense da discotecagem em vinil é protagonizada majoritariamente por homens cisgêneros, que frequentemente dispõem de maior reconhecimento e legitimidade para ocupar esses espaços. Diante desse cenário, achamos interessante investigar de que maneira as materialidades da discotecagem em vinil articulam como marcadores de gênero e participação social, contribuindo para a invisibilização de corpos queer nessa cena.
Binarismo brega. Afinal, disco é coisa de mulher?
Essas questões também nos levam a questionar se o reconhecimento dessa prática como mais “genuína” ou “autêntica” está relacionado apenas às especificidades técnicas e materiais ou se também se articula a questões de gênero e sexualidade. É fato que a cena da discotecagem em vinil de Porto Alegre é marcada por uma predominância masculina e, por isso, torna-se relevante investigar os motivos de corpos dissidentes que ocupam estes espaços não serem amplamente conhecidos.
Ainda sobre a entrevista, a DJ Lais Regina destaca que os homens — aqueles que se encaixam nos padrões cis-heteronormativos — encontram maior facilidade para ingressar na discotecagem em vinil, tendo em vista a disponibilidade de referências e modelos de identificação dentro da própria cena. Esse relato nos fez pensar na relação com a reflexão de Vilutis (2009), para quem a escolha e a participação cultural só se tornam possíveis por meio da “práxis” e da experimentação. Em outras palavras, é necessário ter acesso prévio aos espaços, aos equipamentos e às experiências que possibilitam a construção de territórios de pertencimento.
Em uma pesquisa sobre música e gênero, Dias e Farias (2020) apontam uma discussão formulada por Straw (1997) sobre a construção da masculinidade, lida a partir do colecionismo. Para ele, a coleção de discos vai além do sentimento autoritário de posse e se configura como uma forma de produção de gênero: “[…] os discos e a afirmação de poder através das coleções são apenas resíduos físicos de uma estrutura social complexa que articula ideias de masculinidades.” (Dias; Farias, 2020, p.7). Essa forma de produção de gênero, ao nosso ver, está muito ligada ao que falamos anteriormente sobre autenticidade, o que restringe um grau de “alternatividade” e importância ao corpo normativo que atua nesta cena. Assim como o colecionismo, a discotecagem em vinil parece uma expressão atrelada ao gênero masculino, criando um apagamento histórico de corpos dissidentes que também ocupam a cena.
Nesse contexto, a baixa presença — ou invisibilidade pública — de corpos queer na cena da discotecagem em vinil é vista, por nós, como parte de uma grande questão estrutural e cultural, que é atravessada pela distribuição desigual de oportunidades, referências e formas de reconhecimento. Dessa forma, a legitimidade atribuída ao vinil parece estar vinculada tanto a sua autenticidade, quanto às relações de poder que historicamente definem quais corpos podem e devem ocupar, com maior facilidade, espaços de visibilidade dentro da cultura de discotecagem.
A performance do “DJ legítimo”
A presença da figura do DJ pode ser entendida como um dos pontos centrais de uma festa, o que concede certo “poder” àquele que está tocando. Parece haver uma marcação física muito potente em mesas de toca-discos, tendo em vista o tamanho delas, os numerosos materiais — sendo os dois toca-discos, o mixer e, em alguns modelos, o notebook e cabos — que envolvem o seu funcionamento, possuindo uma imposição ainda maior que as CDJs. Dessa forma, também nos questionamos se essa potencialidade, voltada para a complexidade material das mesas, exige um certo afastamento de corpos dissidentes.
Lais Regina oferece um exemplo dessa dinâmica. Ao relatar sua experiência como DJ de vinil, ela destaca que muitas pessoas não associam mulheres ao domínio desses equipamentos: “As pessoas, ainda hoje, acham que tu é qualquer parte de uma produção menos a pessoa que vai ser a DJ (…)”. Seu relato evidencia como determinadas expectativas de gênero influenciam a percepção sobre quem é considerado capaz de ocupar a posição de autoridade técnica representada pela figura do DJ.
A partir dessa perspectiva, é possível pensar a figura do “DJ legítimo” como uma construção cultural sustentada por signos semióticos que associam competência técnica, autoridade musical e domínio tecnológico a formas específicas de masculinidade. Dias e Farias (2020) apresentam como a música, juntamente de seus símbolos e discursos, é um dos instrumentos que moldam construções e noções de identidades nas “dimensões de poder” exercidas por elas. Assim, compreendemos que, por meio da performatização de gênero, esses signos foram socialmente vinculados ao masculino, produzindo efeitos concretos sobre quem é reconhecido como apto a ocupar espaços de prestígio e visibilidade dentro da cultura da discotecagem.
Invisibilidade ou inexistência? Acesso à discotecagem
Nos últimos anos, surgiram iniciativas como o projeto O Giro Delas, idealizado pelas DJs Lais Regina e Luizza, em Porto Alegre. Destinado a discotecagem exclusivamente para mulheres, o projeto nasceu com o propósito de enfrentar a desigualdade de gênero nesse meio. Dessa forma, ele busca capacitar através de oficinas, mentorias e oferecendo conhecimento para ampliar a participação feminina, possibilitando que mulheres DJs desenvolvam habilidades técnicas, conquistem oportunidades e alcancem maior visibilidade na cena musical.

O Giro Delas (Fonte)
Outro projeto que encontramos voltado a mulheres na discotecagem é o coletivo Uh!ManasTV, formado pelas DJs Carlu, Mary e Vanessa, em julho de 2020. Com o objetivo de combater a misoginia presente na indústria cultural e promover a representatividade feminina nesses espaços. Importante ressaltar que essa iniciativa se iniciou e ocorre no estado de São Paulo, uma das principais capitais culturais do Brasil. Além de oferecer oportunidades de aprendizado e profissionalização, iniciativas como essas contribuem para a construção de ambientes mais acolhedores e a formação de redes de apoio entre mulheres que dividem experiências semelhantes. O projeto apresenta essa trajetória de resistência e valorização, destacando a importância da representatividade feminina e tornando a discotecagem mais diversa e plural.
Quando mulheres assumem o papel de educadoras, mentoras e referências dentro da cultura do vinil, elas desafiam estruturas já consolidadas de reconhecimento e legitimidade, desconstruindo estereótipos de gêneros associados à competência técnica e ao domínio dos equipamentos de discotecagem.
A presença de figuras femininas neste papel representativo também declara uma importância grande para que dissidências de gênero vejam possibilidades de pertencimento a essa forma de expressão. Em Porto Alegre, bimestralmente ocorrem oficinas de DJs com toca discos, focado na cena Hip Hop. Nelas, percebe-se a grande presença de mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ nas aulas. Em contrapartida, no município de Esteio, ocorrem exatamente as mesmas oficinas, de mesmo formato, entretanto, a presença de corpos dissidentes não é tão comum. Essa análise se deu não apenas em buscas por mídias em redes sociais, mas por participações próprias do grupo nas aulas.
Há fatores em que acreditamos que sejam essenciais para essa mudança: a territorialidade e a identidade dos professores. Na capital, quem ministra as aulas é uma mulher e em Esteio, um homem. Além disso, a própria territorialidade exerce esse papel de diferenciação. A migração de pessoas queer para a capital em busca de oportunidades e lugares de acolhimento é algo constante. Assim, é até esperado que a normatividade esteja mais presente em um município conhecido por “cidade dormitório”. As aulas, principalmente quando feitas de maneiras gratuitas, são formas de deixar a cultura e o fazer discotecagem mais acessível, uma vez que, os materiais — extremamente caros — são postos à disposição dos participantes.
Considerações Finais
Ao longo deste texto, buscamos investigar a invisibilidade de corpos queer na cena da discotecagem em vinil de Porto Alegre, partindo do questionamento acerca da predominância cis-masculina nesse universo. Observamos, principalmente, que as materialidades, os discursos de autenticidade e as formas de reconhecimento que estruturam a cultura do vinil estão profundamente atravessados por relações de gênero, poder e acesso.
Gostaríamos de pontuar que essa predominância é sustentada por uma visão normativa sobre as formas de performar a masculinidade. Embora a cena seja majoritariamente ocupada por homens brancos, cisgêneros e heterossexuais, ela também é composta por corpos dissidentes que, apesar de presentes, permanecem frequentemente invisibilizados. Os relatos de Dorian e de Laís evidenciam como os espaços destinados à expressão desses corpos são limitados e como as violências que atravessam suas experiências assumem contornos distintos. Enquanto Laís tem sua legitimidade como DJ constantemente colocada em xeque, Dorian enfrenta a invalidação de sua própria identidade de gênero.
O que nos resta aqui são apenas inquietações e perguntas que permanecem em aberto. Como uma cena que teve sua origem em um contexto marginalizado passou a invisibilizar, em sua própria atuação, os corpos dissidentes que contribuíram para a sua constituição? Por que, mesmo tendo sido historicamente construída por pessoas negras, LGBTQIAPN+ e outros grupos subalternizados, a cena contemporânea de Porto Alegre é predominantemente representada por homens brancos e cis-heterossexuais?
Referências
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FURLAN, Pedro. Legado e resistência: mulheres contam suas histórias com a discotecagem de vinil. 2025. Disponível em: https://www.noize.com.br/mulheres-djs-discotecam-com-vinil.
GARSON, Marcelo. Música eletrônica, a formação de uma cultura. Latitude, Maceió-AL, Brasil, v. 12, n. 1, p. 130, 2019. DOI: 10.28998/lte.2018.n.1.5169. Disponível em: https://periodicos.ufal.br/latitude/article/view/106.
MORENA MELO DIAS; DANIEL OLIVEIRA DE FARIAS. MÚSICA CONSTRÓI GÊNERO?. In: ANAIS DO 29° ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, 2020, Campo Grande. Anais eletrônicos…, Galoá, 2020.
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OLIVA, Gabriela. Uh!Manas: projeto aposta em combater misoginia na indústria cultural garantindo visibilidade de mulheres DJs. Disponível em: https://oglobo.globo.com/celina/uhmanas-projeto-aposta-em-combater-misoginia-na-industria-cultural-garantindo-visibilidade-de-mulheres-djs-24617897.
VILUTIS, Luana. Cultura e juventude: a formação dos jovens nos Pontos de Cultura. 2009. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009. Disponível em: <doi:10.11606/D.48.2009.tde-23092009-132908>.

