Laura Viana, Mirela Ferrari e Vivian Liz
Iremos falar sobre samba aqui, samba físico, se dá para dizer assim, o qual pode ser algo não tão comum para todas as pessoas, pois nem todos se identificam com a experiência que a roda de samba proporciona, aquela de sentir uma energia diferente só de estar dividindo o espaço com um aglomerado de pessoas em roda, cantando a mesma música, batendo palma de macumba e gritando algum refrão em uníssono, às vezes sofrendo por uma música de amor, mas quase sempre sendo muito feliz por dividir esse sentimento que essa música proporciona, com tantas pessoas. Entretanto, pelo samba ser um rítmo brasileiro, podemos pensar no cenário de sua composição, certo? Algo como um grupo em que alguns integrantes tocam instrumentos de percussão e outros cantam, músicas estas que muitas vezes retratam temas sociais, às vezes servem para objetificar mulheres, mas quase sempre falam sobre amor.
Pensando então neste cenário musical, a cidade de Porto Alegre apresenta muitas possibilidades e estilos de roda de samba, as opções são muitas por ser um campo em alta expansão e experimentação, então há uma diversidade de grupos de samba, grandes e pequenos, e dentre eles nós escolhemos por luz em um grupo específico chamado Roda Caçamba. O motivo de escolher o grupo vem exatamente desta diversidade presente na cena de samba da cidade, que serve em sua maioria para grupos compostos por homens, que faz com que toda a energia e felicidade geradas em momentos de roda de samba, sejam conduzidos quase que exclusivamente por corpos masculinos. A Roda Caçamba é um grupo de samba composto por mulheres LGBTs, que têm dividido espaço na cena da cidade com outros grupos grandes de samba composto em sua maioria por homens, como Volto pra te ver e Thiago Ribeiro e amigos, e que têm cada vez mais acessado espaços consolidados da cena de samba na cidade.

Roda Caçamba no Samba de segunda na Casa de Cultura Mario Quintana, importante espaço cultural da cidade. (Crédito: Marcos Vinicius @vini_fotosss)
Antes de ser Caçamba, era uma banda chamada Jurema, uma roda de samba que se reunia para estudar músicas, às vezes fazia algumas apresentações em bares, às vezes tocava em troca de cerveja, era algo bem informal, não era uma marca. Antes da pandemia, em 2020, Jurema virou Caçamba e teve um processo de criação de identidade visual e com produção cultural. Desde então, a roda começou a ser vendida para outros bares maiores, dentre eles, alguns administrados por mulheres, e por isso, havia um maior interesse em contratar bandas de mulheres.
Desde os tempos de Jurema, a Caçamba surge com a ideia de fazer um pagode sapatão, e devido à isso, sempre houve um público muito fiel de amigos e comunidade LGBT. Em 2023, a banda se firmou no mercado acertando fidelidade com bares, e contratos para eventos. Atualmente, o grupo se consolidou a partir do momento que as participantes passaram a ter a roda como um trabalho central em suas vidas: com maior dedicação de tempo e investindo no desenvolvimento de suas habilidades técnicas, o grupo atingiu uma maior qualidade sonora e coesão coletiva. Essa necessidade de evolução constante é necessária quando não se é um homens cis, pois para eles isto não é primordial para conseguir fazer samba e ter reconhecimento. Dentro desse regime patriarcal e misógino, esses homens não precisam ter muita qualidade musical para receber um espaço na cena de samba, alguns grupos grandes da cidade não tem a mesma qualidade musical da Roda Caçamba e chegam a lugares de mais prestígio do que elas, então, enquanto essas ações de homens são tidas como naturais, para mulheres, o ponto de partida exige um nível de qualidade muito maior para serem valorizadas. “Então, ter uma roda de samba onde todo mundo estuda e tá sempre praticando instrumentos, se desenvolvendo, é muito poderoso e emancipatório dessa lógica de não incentivo. Apesar de tudo contra, estamos aqui fazendo”, diz Amanda Gabana, vocalista da Roda Caçamba.
Desse modo, elas acabaram se tornando referência na música de rua porto alegrense, o público se sente confortável e representado, para além de curtir o repertório. Durante nossas observações enquanto frequentadoras desta roda de samba, e comparando às rodas de samba masculinas da cidade, percebemos uma diferenciação na energia do público, onde ele interage com as integrantes da banda, cantando junto, conversando, pedindo música e fazendo coreografias, tendo uma intimidade maior com o repertório, coisa que acontece com menos frequência nestas outras rodas.
Para trazer uma idéia do que, e de quem, estamos falando, vamos disponibilizar os vídeos a seguir de uma das apresentações da roda, onde podemos observar a relação do público com a roda e a relação das integrantes com seus instrumentos.
Então, a partir da ideia de “apesar de tudo contra” que a Amanda nos trás, é que desenvolvemos nossa análise, identificando como podemos entender a Roda Caçamba como um processo de resistência na cena do samba na cidade de Porto Alegre. Mas antes de falarmos sobre nossas percepções, vamos pensar sobre o lugar das mulheres no samba historicamente.
O samba surge nos subúrbios e favelas do Rio de Janeiro, cantando a vivência da população negra, e os encontros para fazer música e celebrá-las comumente ocorriam nas casas das Tias Baianas. Essas casas funcionavam como redutos de guarda do samba e as Tias representavam a “ponte com a ancestralidade, com a pátria longínqua, com a reverência aos mais velhos e com o sagrado na cultura africana” (Dias; Madeira, 2024, p. 8 apud Pacheco, 2021, p. 26)
É importante ressaltar, que foi na casa de uma mulher negra, a Tia Ciata (como Hilária Batista de Almeida era conhecida) que se fez o que é considerada a primeira música de samba: “Pelo Telefone”. Por isso, ela é vista como a genitora do samba. Porém naquela época, as mulheres não tinham direito a voz ativa no samba cantando e compondo, e acabavam assumindo papéis coadjuvantes, se tornando musas inspiradoras, performistas de dança e sedutoras – refletindo o olhar masculino à elas.
Dona Ivone Lara foi a primeira mulher a compor um samba-enredo, mas ela se mantinha anônima e compunha pelo pseudônimo de seu primo, Mestre Fuleiro, porque nos anos 40 ainda era proibido que mulheres ingressassem oficialmente em rodas de samba. Temos um vislumbre, então, do que era ser mulher e querer fazer samba: uma experiência de apagamento e de exclusão sem justificativa alguma, apenas uma cultura machista vivida nestes lugares. Dessa forma, podemos entender que o samba sempre teve vozes femininas, desde Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso e Clementina de Jesus até Beth Carvalho, Clara Nunes, Teresa Cristina, e muitas outras. Então, temos a participação das mulheres no samba (especialmente mulheres negras) sugerindo protagonismo feminino. Protagonismo esse que não costuma ser acentuado na historiografia do samba, que tende a enfatizar a presença dos sambistas, dos “pais do samba”, dos homens. (Dias; Macedo, 2024, p. 3)
Atualmente, o protagonismo feminino no samba já é mais reconhecido. A partir da Lei N° 14.834, comemora-se dia 13 de abril o Dia da Mulher Sambista – data escolhida como uma homenagem ao aniversário de Ivone Lara, a rainha do samba. O Gov.br diz: “Essa data não apenas reconhece, mas também amplifica a visibilidade das mulheres sambistas, destacando seu protagonismo e sua importância na construção e perpetuação do samba como parte integrante da cultura brasileira.”
Sendo assim, a Roda Caçamba produzir um samba com representatividade feminina e LGBT, é fazer um movimento de resistência, fomentando a importância que as mulheres sempre tiveram com essa cultura musical, indo contra os padrões da indústria, uma vez que esta indústria, fez continuamente um trabalho de apagamento de corpos femininos no protagonismo das rodas de samba, o que é sentido até hoje, e que podemos identificar ao ir nas rodas de samba da cidade.
E então, nos perguntamos o porquê de estas mulheres precisarem reafirmar que são mulheres LGBTs que ocupam este espaço, e não apenas ocuparem ele da mesma forma com que os homens fazem. Primeiramente temos que reforçar e entender que, apesar de ter a presença de mulheres desde seu surgimento, o samba é visto como um gênero predominantemente masculino e, à luz disso, a existência de uma roda composta somente por mulheres LGBTQIAPN+ é como já citamos, ir contra esse padrão que culturalmente associamos ao samba. Assim, Judith Butler entende que “um discurso restritivo sobre gênero que insiste no binarismo de homem e mulher como forma exclusiva de compreender o campo do gênero desempenha uma operação de poder regulatório que naturaliza a instância hegemônica e impede a capacidade de pensar sua disrupção.” (Butler, 2022, p. 77). Ou seja, a performance do gênero feminino na Roda Caçamba pode ser entendida como a disrupção desse protagonismo masculino. Através disso entendemos que ocupar um espaço sendo mulher já é desafiador, quando este espaço é de maioria masculina, se torna mais difícil ainda e portanto, enfrenta muita resistência – que nem sempre é proposital, mas sim cultural – de forma que um esforço contínuo é necessário para garantir espaço.
O regime de diferenciação social imposto faz com que o samba, assim como a sociedade, seja “regido por questões de desigualdades de sexo/gênero, raça e classe social – inclusive, a divisão sexual e racial das atividades” (Dias; Madeira, 2025), isto é algo que vivemos fisicamente no nosso cotidiano, então sob esse viés, um indivíduo que não se encaixe nessa lógica machista e patriarcal, e que produz ou consome samba, – a Roda Caçamba, o público e os locais de apresentação – resiste e tende a mudar a forma de viver a arte e cultura, construindo um espaço emancipatório. Dentro da cena LGBT da cidade de Porto Alegre há diversas formas de se fazer arte e contar com apoio de público para isso, justamente por ser entendida essa dinâmica social e necessidade de construção de espaços emancipatórios para esta população. Estar presente em eventos de samba de grande proporção e eventos culturais da cidade, as insere no cotidiano cultural da população, sendo então, a forma de comunicar e se enunciar, fundamental no sentido de relembrar as pessoas que elas existem e continuam neste lugar. Através disso, consegue-se ter um espaço onde se torna viável a possibilidade da enunciação de as integrantes do grupo serem mulheres LGBTs, de poderem afirmar isso e terem orgulho desta afirmação. O conceito de identidade e diferenciação é o que torna elas sujeitos autônomos, diferente das estruturas simbólicas, que segundo (Bourdieu, 1959) fazem parte de um sistemas de crenças, valores e significados que são difundidos e aceitos pela sociedade, pensando no cenário brasileiro, esses valores e significados sociais têm gerado a idéia na maioria das vezes, de dizer que samba é coisa de homem ou de pessoas com a voz mais grave. Sendo assim, as integrantes da Roda Caçamba precisam se reafirmar enquanto sujeitos, como uma forma de existir, e é nesse sentido que as pessoas Queer são condicionadas à passar por este desgaste de reafirmação frequente como forma de resistência.
Identificamos em comentários de pessoas frequentadoras do samba em Porto Alegre que o fato de elas reafirmaram sua subjetividade enquanto mulheres LGBTs, seria o motivo de sua visibilidade, pensando também em seu marketing atrelado à roda, como a venda de camisetas e outros ítens com a sua logo, e fomentando o seu uso. Como estudantes de comunicação nós entendemos a necessidade de reafirmar uma marca com publicidade, então não acreditamos que este tipo de crítica seja gerada de algo limitante para elas, pois além de suas subjetividades, essas mulheres têm todo o aparato técnico para produzir música de ótima qualidade e enredo para construir seu repertório, até mesmo coreografias que são performadas nas apresentações pelo seu público.
Mas mesmo tendo essa capacidade artística, elas são afetadas pelo significado que carregam: mulheres LGBTs fazendo samba da mesma forma e até melhor do que homens. A ideia de mulheres LGBTs produzirem arte, que não uma roda de samba, pode ser direcionada a outros segmentos, nesse cenário, estão condicionadas a produzir a partir da performatividade de gênero e territorialidade, porque a condição dos interlocutores é associada ao consumo de produtos da cultura da mídia (Nascimento; Pedro, 2020). Então, ver elas neste lugar, pode criar uma percepção sobre elas não como indivíduos separados, mas sim como um objeto específico com uma característica específica, tirando a subjetividade delas enquanto sujeitos e as desumanizando, como se mulheres LGBTs não pudessem ocupar este espaço apenas por serem indivíduos que gostam de fazer samba, sem precisar reafirmar sempre que são mulheres LGBTs, se colocando sempre nesta caixa.
Porém mesmo com a crítica à forma de se apresentar como roda de samba sapatão, é a forma com que elas têm espaço para fazer música, pois, como já conversamos anteriormente, o espaço do samba é um ambiente excludente para mulheres, e sendo mulher LGBT, é necessário enfrentar além do machismo, a homofobia. Portanto, elas fazem seu trabalho e reafirmam sua identidade sem a possibilidade social que é dada a elas, que é a de não fazer.
A pedagogia do oprimido (Freire, 1968), retrata bem a ideia de que a forma que as minorias têm de se humanizar, é indo contra o que costuma ser o tradicional, que na maioria das vezes vem da estrutura patriarcal, então estas mulheres vão contra a lógica do lugar que o samba dá à elas, lógica esta que foi construída sobre esta mesma estrutura. Elas são resistência cultural pois fazem o movimento que grupos e minorias precisam fazer para preservarem sua identidade, valores e tradições contra opressão, exclusão social e/ou dominação, e usam da arte e da cultura como ferramentas para conscientização política e transformação social. Esse movimento é a ruptura de padrões machistas dentro da indústria a partir de produtos elaborados por minorias, que age quando questiona as estruturas fixas, que dizem quem deve cantar o samba e quem deve ser a musa inspiradora. A Roda Caçamba, sendo assim, é uma banda que reafirma a música como um campo que possibilita o compartilhamento e o fortalecimento desses grupos, quando adentra um universo pouco explorado por pessoas como elas, mulheres LGBTs.
A vocalista, tendo a voz ativa da roda, mostra a resistência cultural que este grupo produz, uma vez que as mulheres são colocadas como sujeitos passivos no samba, na maioria das vezes, servindo como musas inspiradoras e dançarinas, e a Amanda se coloca como a mestre da roda de samba, conduzindo seu público e a harmonia da banda.
Na performance, a presença da voz é a presença de um corpo, isso nos leva a realizar uma reflexão sobre os atributos culturais que o atravessam. A explicação biológica (que delimita as características anatômicas sexuais dos corpos) é apenas um aspecto a ser considerado no contexto de sexualidade e gênero – aspectos sociais, políticos e culturais devem ser investigados na formação de gênero. Atualmente, ainda nos é imposto um padrão vocal “natural” (voz masculina e voz feminina), porém a profundidade da discussão sobre a vocalidade se dá no campo da estética, da ética e do social. A ligação sonora entre voz e gênero não passa de um fator construído social e culturalmente, logo “a figura de uma mulher que compõe, toca, canta e conta histórias em cena carrega em si informações capazes de suplantar, ameaçar um projeto estético, perdendo um importante espaço de ação poética para diversas convenções já consolidadas da presença da voz feminina em performance” (Biscardo, 2004).
No contexto da existência Roda Caçamba é evidenciado o “processo de invisibilização dessas mulheres e de seus fazeres no samba (especialmente aqueles diretamente musicais – composição e execução de instrumentos), um processo que expressa o peso das desigualdades sociais de sexo/gênero, étnico-raciais e de classe que caracterizam estruturalmente a sociedade brasileira”(Dias; Madeira, 2025). Assim, tocar instrumentos de percussão, atuar como instrumentista e compositora, são exemplos de práticas que, historicamente, são dominadas por corpos masculinos. Dessa forma, é possível perceber no samba, a divisão e a hierarquia (baseadas em gênero e cor) de atividades. O ambiente é “sexista” e, “de algum modo, desvaloriza a potência de muitas mulheres que comumente não acessam lugares de exercício de poder” (Dias; Madeira, 2025). Logo, a atuação da banda contesta essas estruturas de poder, e vem conquistando espaços de expressão cultural, política e social: ao usar esta forma alternativa de comunicação quando usam o espaço tradicional de roda de samba para reafirmar a voz condutora vinda de um corpo feminino, e de mostrar a sua arte, mostram que estão vivas e que tem direito de ocupar este espaço. Portanto, a enunciação que fazem sempre que possível (que são elas uma roda de samba sapatão), afirma que estes corpos ocupam este lugar, e acaba por ser um incentivo e espelho para que outras mulheres acreditem que é possível o seu corpo também ocupar o mesmo espaço, que até então era “feito” para homens cisgêneros.
A partir do entendimento de que estas mulheres criam a possibilidade de abertura para outras mulheres e pessoas Queer, mostrando a possibilidade de fazerem som e também participarem da roda de samba, abre a possibilidade de esta população viver o samba. Dessa forma, podemos tratar esse ritmo como um projeto de integração pois envolve não somente performance de dança, mas também tange ao sentimento e vibração corporal. É como se esta experiência sensorial e sonora, antes não fosse acessível para esta população específica, e agora existe ao menos a possibilidade de sua experimentação. Nesse sentido, a partir de nossas observações, a roda de samba que estas mulheres produzem, gera um conjunto de significados, os quais não atendem ou afetam somente mulheres ou pessoas LGBTs, mas sim reconstrói um entendimento social sobre o que significa o samba em si, e dentro disso, o que significa mulheres LGBTQIAPN+ produzirem samba.
O “sujeito de samba”
Trazendo novamente a ideia de que as mulheres sempre estiveram presentes no samba, mas não tocando instrumentos ou cantando, este ritmo musical acabou por se criar através de um rosto e sentimento masculino, as letras das músicas são feitas para mulheres e não por mulheres, muitas vezes são músicas machistas e ofensivas, mas que não necessariamente são problematizadas ou descartadas das rodas de samba até hoje. Nesse sentido, a Roda Caçamba traz um repertório diferenciado, onde as músicas tem uma temática mais amorosa ou são feitas por pessoas Queer, por exemplo, quando trazem músicas da cantora Liniker, onde há uma coreografia específica para a música Baby 95, e também músicas de cantoras como Ludmilla e Gloria Groove, além de usar homens cantores que são tradicionais das rodas de samba, mas que falam de amor sem objetificar os corpos femininos, como faz Arlindo Cruz em Será que é amor? e Jorge Aragão em Lucidez. Elas conseguem fazer a desconstrução do que é uma roda de samba tradicional, e talvez daí que venha também, a resistência por uma parte do público com esta roda, baseados na idéia de existir uma “voz de samba”, e esta resistência é percebida em falas que dizem que “voz suave é para cantar música calma de MPB, e não para conduzir uma boa roda de samba”, falas essas que já nos atravessaram algumas vezes, vindas de pessoas que frequentam rodas de samba na cidade. A questão aqui, é que a voz de samba nada mais é do que uma voz que canta samba, porém culturalmente através da apropriação masculina deste gênero musical, ela foi dominada e difundida pela voz masculina, ou por vozes de mulheres que fossem mais graves, vozes que “parecem masculinas”.
Podemos entender então que através de uma cultura que não é dita explicitamente, mas vivenciada por nós, que reproduzimos este poder simbólico, que segundo (Bourdieu, 1959) é a capacidade de impor significados e definições da realidade de forma natural, sem questionamento e por isso é tão complexo o público idealizar e apoiar uma roda de samba que fuja deste tradicional inventado.
É importante ressaltar que a condução da roda de samba se faz de várias formas, pelos instrumentos mas principalmente pela intérprete da roda, que é a cantora. Através do volume e condução da voz, é que se obtém a atenção e sentimento do público, conforme repertório e dominação técnica dos instrumentos é que se faz uma roda de samba funcionar. Neste sentido, a Amanda conduz a roda do início ao fim, incentivando seu público a bater palma, cantar mais alto e até mesmo a encenar coreografias. A Amanda, como vocalista da banda, produz o som de samba da mesma forma como qualquer outro artista também o produz, o que a difere de muitos dos homens que cantam samba na cena de Porto Alegre, é somente a sua técnica vocal e seu estudo de aperfeiçoamento. O fato de sua voz ser aguda não impede Amanda de fazer uma roda de samba ser vivida como deveria, conectando o público com a melodia e sentimento que o samba proporciona, em sua letra e em sua interpretação, Amanda inclusive consegue deixá-la melhor, justamente por possibilitar uma diversidade maior de pessoas que frequentam a roda, diversidade esta que permite trazer pessoas tão conectadas com a banda, que viram fãs e as seguem em quase todas as apresentações.
A roda de samba da Roda Caçamba é um espaço vivo feito por mulheres. Mas mesmo com todas estas habilidades, para as mulheres iniciarem no samba, precisam de uma “qualidade” muito maior do que os homens, quando, para obter credibilidade no meio do samba, as mulheres instrumentistas e que compõem a roda, precisam constantemente comprovar que sabem o que estão fazendo, diferentemente dos homens que naturalmente são incentivados a tocar instrumentos e montam grupos de samba e pagode com muito mais facilidade. Por isso se dá a importância de elas estarem inseridas e se apropriarem desta cena cultural.
Enquanto instrumentistas, as integrantes da Roda Caçamba tem uma relação com os instrumentos quase que familiar, uma vez que ele faz parte do seu corpo em suas performances, e a mesa de som que pode também ser considerada uma condutora de som da roda, é administrada de forma coletiva por elas. A apropriação, feita por mulheres, de instrumentos que elas viam ser tocados na maioria por homens, torna um gesto muito mais perceptível e valorizado por elas, por isso a ideia de coletividade do som é tão presente, pois são mulheres acessando algo tão negado à esta população.
Mas mesmo com esta apropriação, sabemos que a maioria dos condutores de mesa de som são homens, portanto os espaços que as contratam que já tem seu técnico de som, utilizam eles ao invés de dar este espaço para elas. Entendendo que a mesa de som atua organizando a métrica e rítmica da música, controlando então a altura e timbragem de voz da cantora e também a equalização dos instrumentos, podemos compreender o poder que quem está operando a mesa tem de deixar a sonoridade conforme seu gosto. Daí então voltamos para a lógica da “voz de samba” onde é difundido que precisa ser uma voz mais grave e mais encorpada, conforme é culturalmente construído, ou seja, se não forem as próprias integrantes da banda conduzindo a mesa de som, este som pode ser alterado conforme a métrica internalizada pelo condutor oferecido à elas. A Amanda relata a seguinte situação “Quando tem técnicos normalmente são homens, e as experiências oscilam entre caras muito arrogantes que já dizem que sabem o que estão fazendo e não escutam coisas que a gente gostaria que melhorassem: o cavaco está muito estridente, ou queria mais brilho na minha voz” em um lugar de dizer que fizeram o que deveria ser feito, independentemente se elas gostaram ou não “Ou os caras são legais mas são muitos demorados para montar e passar o som, que é o que acontece na maioria dos lugares que a gente tem tocado atualmente.” Então às vezes eles escutam o que elas pedem mas não tem o conhecimento necessário para fazer um som de qualidade e agradável à elas.
Com este cenário tomamos a idéia de que por acontecer esta apropriação sonora por parte destes condutores, a Roda Caçamba acaba perdendo uma porcentagem da sua essência, já que não consegue produzir um som 100% idealizado por elas. Esta problemática se dá mais uma vez na falta de apropriação instrumental por corpos femininos, lembramos de uma dinâmica em sala de aula ministrada pela cantora Viridiana, onde foi disponibilizada uma controladora MIDI e um microfone, onde a maioria da turma era de mulheres mas nós tivemos uma certa relutância em tomar o controle destes equipamentos de produção e reprodução sonora. Podemos pensar nisso como um reflexo deste condicionamento quase que invisível, e também quase que inexplicável por nós mesmas, quando fomos indagadas do motivo pelo qual não tivemos mais pró atividade em nos apossarmos dos instrumentos. Este condicionamento é cultural, imposto, vivido e não questionado normalmente, o que só continua dando espaço para este tipo de situação que a Amanda nos relata, continuar acontecendo: mulheres não mexem na mesa de som, mesmo se elas forem a principal atração do evento.
Portanto, entendendo as formas de organização e delimitação social que são intrínsecas ao samba, concluímos que a forma com que as integrantes Amanda, Lívia, Carine, Shay e Davi expressam a sua arte, resistindo aos lugares impostos à elas, criam uma abertura muito potente nesta cena musical e cultural da cidade de Porto Alegre, a qual acessa os mais diversos públicos, tanto quem vai até elas para vê-las, quanto quem só está buscando um samba para curtir, e acessa este momento de protagonismo feminino LGBT, que além de expor para eles a sua forma de viver, impõe seu lugar e o respeito que merecem, neste espaço que não lhes é dado de forma alguma, e sim conquistado à duras penas de resistência.
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