Carolina Picetti, Eliana Vargas e Emilly Oliveira

Block Party no Bronx, NY, em meados dos anos 70 (Crédito: Rick Flores)
Imagine que você está agora em uma festa suburbana do Bronx, Estados Unidos, nos anos 70. O hip-hop gravita por todo o lugar, latas de cerveja e coca-cola preenchem os espaços não ocupados pelos corpos negros dançando. Um ponto seguro em meio a uma realidade social racista e excludente. Um local de criação e expressão da cultura e da identidade da comunidade negra. O que entra pelos ouvidos é puro sample.
Se você clicou no play da música anexada acima, você está experienciando agora Rapper’s Delight de The Sugar Hill Gang, lançada em 79 e um dos primeiros hits de grande sucesso do gênero de rhythm and poetry (rap), que em seus primórdios, era baseado na técnica de sample de mixar as batidas de músicas pré-existentes para criar sonoridades novas onde o rapper poderia fazer as suas rimas por cima. Esta técnica surgiu de forma experimental algumas décadas antes da gravação desta música em questão, com o compositor francês Pierre Schaeffer, em 1940, que utilizando da tecnologia da época, começou a fazer experimentos, manipulando os sons que gravava na cidade de Paris. Mas foi nas festas e com o movimento hip-hop surgido nos anos 70 que buscava a reafirmação cultural das comunidades afro-americanas (como já situamos), que o sample tomou popularidade e as características que conhecemos atualmente. Aqui, samplear não é mais usar um pedaço de um “original” para produzir uma “cópia”, a técnica é ressignificada como forma de expressão político-social como exploraremos mais a fundo ao decorrer do texto.
Obviamente o rap enfrentou inúmeras críticas, ancoradas nas ideologias racistas de setores conservadores da indústria musical, que utilizava do argumento de que os músicos deste estilo serviam-se de músicas já existentes, para menosprezar o movimento e o estilo musical. A questão é que a partir de discos já gravados, (gravação esta que envolve custos altos de produção e equipamentos), eles eram capazes de comunicar seus pensamentos mesmo com baixo orçamento. Mas não por isto esta produção era menos elaborada, os DJs analisavam as partes que mais engajavam as multidões nas festas, combinavam beats e manipulavam discos, modificando os samples que serviriam de base para as vozes dos MCs.
Falando da evolução tecnológica do sampleamento no movimento, podemos ver como esta técnica passou de um processo manual, fruto de adaptação aos poucos recursos, para então transformar-se em um processo sofisticado e característico. Kool Herc, um dos primeiros famosos nomes do movimento hip-hop, comprava discos de vinil idênticos para poder exercer suas manipulações nas festas do seu bairro Bronx. Já nos anos 80, com o lançamento do E-mu SP-12 (1985) e do icônico Akai MPC60 (1988), criado por Roger Linn, os produtores ganharam samplers com sequenciadores integrados. Hoje a maioria destas funções foram transferidas para softwares que podem ser baixados no computador e celular.
DUAS BASES: REAFIRMAÇÃO E RESSIGNIFICAÇÃO
A partir deste local, ou melhor, desta técnica, o sample serviu como ferramenta importante na formação de identidade das comunidades negras, atuando em duas principais bases: a reafirmação e a ressignificação. No surgimento do rap, era muito comum o sampleamento de discos de jazz, funk, soul e R&B, estilos musicais já bastante produzidos e ouvidos por pessoas negras. Ao reutilizar das produções de artistas negros que vieram primeiro e ajudaram a formar a base das vozes negras no mundo da música e da cultura, estes novos produtores e cantores reafirmavam seu espaço em um ambiente ainda hostil, denunciavam as injustiças, o preconceito e o racismo.
Não raras vezes, vimos artistas brancos roubarem e lucrarem em cima de vozes negras, como exemplificaremos mais adiante. A visão colonialista imperial não ficou restrita aos séculos passados, assim como explicita muito bem a autora Ariella Azoulay: “A reprodução é entendida nesse contexto como um procedimento neutro, pronto para ser usado por aqueles que dispõem dos meios, à revelia do desejo dos donos dos objetos expropriados.” (2019, pg. 120). As ações que muitos chamam de liberdade, por vezes feriram as outras formas de viver, deixando marcas profundas nas mais diferentes esferas sociais e culturais, como na fotografia, tema explorado em seu texto, mas também em outras formas de expressão que vão além do visual, na música por exemplo.
Por isto, a ressignificação é outra das principais bases do sample como tecnologia para as vozes negras, os DJs também passaram a utilizar discos de artistas brancos que por anos se apropriaram das produções negras, para dar novo sentido, reconquistando uma história que foi interrompida pelas intenções imperialistas e unilaterais. Este texto explora a importância desta tecnologia para a população negra e a necessária compreensão das constantes expropriações às quais foram submetidos. Patricia Hill Collins, importante socióloga defensora do feminismo negro contemporâneo, descreve a relevância das práticas de resistência, onde aqui podemos inserir o sample e o hip hop, para a reafirmação e a resistência, assim desobjetificando as vozes negras.
Essas mesmas ferramentas de interseccionalidade também podem ser usadas para examinar a resistencia contra a desigualdade social. O movimento das mulheres negras no Brasil, o hip-hop como forma de política cultural e o ativismo digital sugerem que a resposta à desigualdade social não precisa ser uma capitulação. (COLLINS, 2020, pg. 277)
Atualmente o sample é amplamente utilizado na indústria da música e como é um processo que envolve inevitavelmente utilizar algo que já foi produzido por alguém, entra em discussão os direitos autorais e a moralidade. Apesar disto, esta é uma prática que ainda hoje desempenha papéis sociais fundamentais como veremos em exemplos mais adiante.
ARQUEOLOGIA DA MÍDIA E O SAMPLE
Para o teórico alemão Siegfried Zielinski (2006), um modo de descrever a arqueologia das mídias seria a escavação das ideias perdidas, das histórias alternativas e das condições de existência das mídias. A seguir, estabelecemos uma união entre esse conceito apresentado e o ato de samplear. Em um artigo sobre o tema, Jussi Parikka nos provoca a pensar sobre o fato de na sociedade pós-Segunda Guerra, existir uma apreciação pelo obsoleto, pelo velho e pelo analógico. Neste mesmo artigo há um complemento interessante a ser citado: “o novo é potencialmente menos interessante que as maneiras como o velho é adaptado, reciclado e representado de maneira recorrente.” (PARIKKA, 2017). Foi ao sermos impactadas por essas citações que escolhemos construir um pensamento crítico acerca de como samplear oportuniza a ascensão na cena musical e na mídia para outros artistas a partir do aproveitamento de um material sonoro já consumido anteriormente pelos ouvintes.
Agora uma questão: samples são cópias ou plágios? Essa declaração parece simples, mas origina um debate muito mais complexo. Mesmo que exista, em uma perspectiva legal, uma forma de definir isto, também existem diversos fatores que dificultam esta análise. Na realidade, a cultura e seus bens não seguem um modelo progressivo linear. Se questionar sobre que obra teria vindo primeiro é como criar um paradoxo, onde talvez nunca haja uma resposta definitiva. De nenhum modo poderíamos conseguir separar o “antigo” e o “moderno”, sempre encontraremos o “velho no novo” e o “novo no velho”. No meio musical também funciona dessa maneira, já que novos artistas se inspiram em outros que vieram antes, e estes mesmos já se inspiraram em outros mais antigos ainda. Usar obras já existentes como material de apoio para criar uma nova obra é um ótimo meio de se inserir, e isso vale muito para um artista iniciante. Mas como isso afeta artistas negros iniciantes?
Ao longo da história, as pessoas negras sempre precisaram mostrar o seu valor para a sociedade, como se o tom da sua pele te fizesse menos merecedor de algo. Por isso, essas pessoas sempre precisaram estudar o dobro, trabalhar o dobro, se esforçar o dobro em comparação a uma pessoa branca. Isto é algo internalizado, um pensamento que, mesmo não intencional, move quem nasce negro. Na música, quando se imagina artistas brancos, eles têm a liberdade poética de errar, aprender e tentar de novo, caso a carreira musical não tenha sucesso, e muitos podem encará-la como uma espécie de hobbie, algo que, se não der certo, não afetará sua vida privilegiada. Para uma pessoa negra, o peso é bem diferente. Nunca existe a possibilidade de falhar, fracassar não é uma opção, pois isso resulta em perda de tempo, algo precioso que quem não tem muitos privilégios não consegue usufruir. O artista negro, ainda mais se for independente, tem o dever de se mostrar como o melhor, logo de ínicio. Por mais que começar no meio musical seja difícil para todos, ainda mais sem os equipamentos de qualidade necessários, o peso de avaliação continua sendo desigual. Se um artista branco independente criar uma música na garagem de sua casa, sem auxílio de equipamentos, será considerado algo experimental, uma tentativa que poderá ser aprimorada. Agora esta mesma situação, sendo um artista negro independente, não será vista da mesma forma. Irão enxergar o som produzido como algo inferior. Negros não têm a oportunidade de experimentar. Logo, alcançar o estrelato e viver da arte não é uma missão simples.
Retomando o aspecto de senso de pertencimento, na cena musical os artistas negros tendem a se apoiar, criando uma rede de amparo entre eles, e é por conta desse apoio que aqueles que já alcançaram o sucesso levam junto artistas pequenos. Como uma pessoa negra que nasceu em uma região periférica, é fácil notar como existem diversos incentivos ao consumo da cultura em bairros de classe mais baixa, e mesmo na universidade me sinto mais próxima de outros estudantes que compartilham de vivências similares por aspectos raciais e geográficos. Eu vivo a experiência do senso de comunidade diariamente, e ao consumir músicas de artistas negros esta arte se conecta em mim num lugar mais profundo. Por isso me considero um exemplo de como se sentir pertencido no ambito musical é muito importante e fazer com que cada vez mais artistas negros tenham reconhecimento é uma vitória para a nossa comunidade.
E para que esses novos artistas tenham mais reconhecimento, o uso dos samples é uma porta de entrada. Para explicar melhor, uso como exemplo a cena de rap feminino brasileiro, composta por mulheres negras, atravessadas pela interseccionalidade. Artistas como Ajuliacosta, Duquesa, Ebony, Nanda Tsunami, Tasha & Tracie participam de projetos juntas, sobem no mesmo palco e demonstram apoio umas às outras sempre que podem. Estas e outras artistas já participaram do projeto da produtora Pineapple Storm, intitulado “Poetisas no topo”, uma edição composta apenas por mulheres criada após o surgimento e sucesso do “Poetas no topo”. O projeto segue o formato de cypher, que seria uma roda de improviso onde vários MCs ou cantores rimam ou cantam em sequência, sobre a mesma batida. Mas nesse caso, o cypher sofre algumas alterações. Aqui o improviso sai de cena e dá lugar a letras previamente elaboradas e beats de produção de extrema qualidade. Curiosamente, a primeira edição, que lançou o projeto de maneira oficial, fez uso de um sample. A música que leva o mesmo nome do projeto, composta por Mariana Mello, Karol de Souza, Drik Barbosa, Azzy, Nabrisa, Souto e Bivolt usou o sample da música ‘Diamonds Are Forever’ da cantora britânica, Shirley Bassey.
- ‘Poetisas no Topo’ – (part. Mariana Mello, Karol de Souza, Azzy, Souto, Bivolt e Drik Barbosa)
- ‘Diamonds Are Forever’ – Shirley Bassey
Esta música cria uma história alternativa em cima de uma batida já existente. O fundamento segue o mesmo, mas a narrativa criada em cima, ou seja, a letra, contam coisas diferentes. É um casamento perfeito entre a inovação da nova letra e a nostalgia da batida, mostrando que o novo e o antigo não precisam se opor e se separar, mas podem caminhar juntos na criação de algo nunca visto. As rappers, ao se inspirarem na canção de Bassey, utilizam a sonoridade já conhecida por uma parcela do público como oportunidade de transmitir uma nova mensagem e criar uma conexão com os consumidores do seu gênero musical. O projeto por si só poderia ter feito sucesso, já que a proposta dele é inovadora no cenário nacional, mas sem dúvidas, a utilização do sample é um fator importante a ser considerado. As cantoras não apenas beneficiam a si mesmas, mas também o legado da cantora Shirley Bassey, difundindo o talento dela para um novo público que poderia não a ter conhecido antes.
Estas últimas gerações têm como costume resgatar itens do passado e glorificá-los, e isso torna a adaptação às novas tecnologias e formas de expressão artísticas um processo lento. Tudo que surge de novidade estoura na mídia e some na mesma velocidade. É necessário estar sempre se reinventando e criando novas fórmulas para se manter no topo. Mas o ato de samplear se torna quase um respiro na atualidade. Mostra como a reciclagem do velho pode ser tão interessante quanto a inovação “pura”. Mas os samples não agem apenas como uma base para a criação de algo novo. Há aspectos importantes sobre samples que serão vistos a seguir.
O QUE É A RESSIGNIFICAÇÃO, A REAPROPRIAÇÃO E SUA IMPORTÂNCIA
Durante a escravidão, a música compunha uma parte importante da rotina dos escravizados, era por meio dela que eles fortaleciam seus laços familiares e expressavam suas emoções. Assim, a música foi um dos bens culturais mais importantes para a construção de comunidades afro-americanas. Através dela, os escravizados conseguiam se comunicar entre si e com seus opressores, as músicas cantadas durante as horas de labuta e à noite, quando finalmente conseguiam descansar, deixavam uma mensagem clara àqueles que se achavam no direito de ter controle sobre os corpos de pessoas negras: de que eles estavam lá e que iriam lembrar seus opressores disso, de que poderiam tirá-los de suas famílias e seu continente, mas que iriam se reerguer e criar novas comunidades, apesar de tudo.
Porém, mesmo após a abolição da escravatura, o povo negro continuou passando por uma insistentente exclusão de corpos e invisibilidade sociocultural. Eram livres, mas não possuíam um lugar para reivindicar para si. Que espaço ocupam quando nunca lhes foi dado um espaço para chamar de seu? A música continuava sendo uma de suas principais formas de expressão, mas mesmo assim, a sua entrada e permanência na indústria fonográfica era dificultada tanto pelos produtores quanto pelo público branco racista. Com o passar das décadas, pessoas pretas conseguiram se instalar na indústria musical devido a popularidade que o soul, rock n’roll, R&B e o jazz (gêneros musicais nascidos dentro de sua comunidade) ganharam. Infelizmente, esses gêneros só conseguiram ter notoriedade na medida em que foram apropriados por produtores e artistas brancos, com o rock n’roll sendo um dos maiores exemplos: você consegue se lembrar de alguma banda de rock mainstream que tenha algum integrante negro, que dirá uma formada apenas por pessoas negras? Pessoas negras ao longo do tempo tiveram que se reinventar, criar algo próprio. Mas mesmo assim essas propriedades eram tomadas. Não era incomum nas décadas de 1950 e 1960 que uma música de um artista negro fosse regravada por um cantor branco e, assim, ficasse mais popular que a original (como veremos em um exemplo a seguir). É aqui que o sample entra, após tanto tempo sendo esquecidos e apagados, vários artistas negros agora recebiam a sua devida atenção ao serem sampleados por outros músicos.
O sampleamento nasceu no movimento hip-hop e usou de base músicas de soul, jazz e R&B do começo do século XX, que foram extremamente marginalizadas em sua época. A partir do sample, começa o processo de ressignificação e reapropriação. Ressignificar e reapropriar se referem a oportunidade que artistas negros tiveram de ressignificar o padrão de música imposto na indústria e criar algo próprio e, ao mesmo tempo, introduzir ao público músicas e artistas menos conhecidos/esquecidos ao se reapropriar do seu legado musical enquanto comunidade. Samplear é uma forma de resgatar a música e fazer com que a memória de artistas de eras passadas continue viva, mantendo suas obras ainda no imaginário coletivo. É por meio dele que a espaço musical negro consegue se fortalecer: artistas vão referenciando uns aos outros, mostrando que mesmo que a grande indústria fonográfica se esqueça ou não preste atenção neles, sua comunidade os irá dar a devida atenção. Um exemplo de resgate musical e preservação da memória de artistas esquecidos pela indústria é ‘Vegas’ de Doja Cat, a música foi feita pela rapper para o filme biográfico de Elvis Presley de 2022, onde ela usa a música ‘Hound Dog’ de sample. Porém, a versão da música que Doja usou de sample não é a de Elvis, mas sim a de Big Mama Thornton, uma cantora negra de blues e R&B dos anos 50. Ela foi regravada por Elvis alguns anos depois de seu lançamento. Ao ouvir essa música pela primeira vez, é fácil de se identificar o sample, afinal, ‘Hound Dog’ se tornou uma das músicas mais famosas do século XX devido a regravação de Elvis, mas pelo fato de público associar muito essa música a ele – e muitas vezes, não saber que sua versão não é a original –, não é de se admirar que existam questionamentos em meio aos ouvintes sobre quem é a mulher que está cantando (uma vez que é bem identificável o fato de não ser a Doja Cat, suas vozes são bem diferentes). Por isso, ao samplear a versão original de ‘Hound Dog’, sentimos que Doja não só reapropria a música original para a comunidade negra dando voz para Big Mama depois de tantos anos, e ressignifica a versão regravada ao montar uma crítica sobre a apropriação de artistas brancos da música e voz negra, como também instiga a curiosidade do público sobre quem é Big Mama, fazendo com que mais pessoas conheçam sua carreira e legado.
- ‘Vegas’ – Doja Cat
- ‘Hound Dog’ – Big Mama Thornton
- ‘Hound Dog’ – Elvis Presley
Ademais, o sampleamento também ressignifica o padrão musical imposto na indústria fonográfica ao desafiar as normas convencionais de criação musical e o conceito de originalidade. Nos primórdios do sample, DJs amadores usavam discos e fitas cassetes para gravar uma parte da música que achavam interessante e depois as usavam em seus remixes e músicas autorais. Como o músico e produtor Jason O’Brian coloca em uma entrevista ao Abbey Road Institute:
Eu acho que a era de ouro do sampleamento deixou um legado massivo para os produtores de hoje em dia, principalmente por sua ética DIY (do it yourself), uma atitude punk rock de que tudo é possível, a sua natureza rebelde e ilegal e sua disposição a explorar, apreciar e reimaginar artistas obscuros. Ele demanda que você mixe e misture gêneros e incentiva você a ser independente e liberto musicalmente. (O’Bryan, 2020)
A técnica de samplear fez muitos pensarem sobre o que é original ou não na esfera musical. Por mais que usassem diversas músicas de outros artistas (na maioria das vezes sem autorização, já que eram DJs amadores) os precursores do sampleamento dentro do movimento Hip-Hop criavam novas obras a partir daquelas usadas de base. Não só novas músicas eram criadas, como um novo gênero musical inteiro foi criado a partir de samples: o rap. Acaba que a tão debatida “não originalidade” do sample originou todo um gênero musical que se tornaria um dos maiores símbolos da cultura negra em todo o continente americano.
Além disso, o sampleamento é importante para a conexão da comunidade artística negra em geral, não apenas à estadunidense. Por mais que a técnica e os gêneros relacionados a ela (jazz, soul, R&B, blues, rap e etc.) tenham surgido nas periferias norte-americanas, o uso de samples e seu papel na resignação ainda são extremamente importantes para outros gêneros musicais de origem negra e periférica do resto do continente americano, como é no caso do funk brasileiro. O funk tem o sampleamento como sua base, assim como o rap, porém, eles se diferem nos quesitos de batidas, temáticas e focos: “O rap tradicional sempre foi sobre versos conscientes, rimas afiadas e histórias da quebrada. […] O funk, por sua vez, tem aquele rebolado, batida dançante e letras que falam de relacionamentos, festas e cotidiano da favela.” (Mendes, 2025)
A ressignificação de músicas através do sample no funk é bem diferente da que o rap possui. Isso se dá em virtude das origens sócio-culturais divergentes de cada um desses gêneros. O rap é um gênero musical que foi muito marginalizado durante a época de sua criação – como falamos no início do texto –, mas que conseguiu obter sucesso internacionalmente muito mais rápido do que o funk, por conta da indústria musical estadunidense ser mais forte e consolidada que a brasileira. O funk também começou com o uso de samples de soul e R&B, fazendo com que o uso de músicas norte-americanas no sampleamento seja o mais comum dentro do gênero. Assim, um artista negro brasileiro sampleiar a música de um artista negro estadunidense mostra que mesmo que não possuam a mesma fama e reconhecimento internacional, ainda fazem parte da mesma comunidade artística. Por meio das referências musicais, músicos ressignificam a produção estadunidense trazendo ela para um contexto totalmente latinoamericano. Um bom exemplo desse tipo de ressignificação é a música ‘Sou Má’, de Ludmilla com participação da dupla Tasha e Tracie, um Funk que sampleia ‘Nice’ de Beyoncé e Jay-Z. Conseguir a aprovação para o uso de uma faixa de uma artista tão grande quanto Beyoncé não é algo fácil. Esse sampleamento é fruto do árduo trabalho que as artistas brasileiras fizeram durante seus anos de carreira. E, também, símbolo da admiração de Ludmilla pela cantora estadunidense (que no começo da carreira tinha o nome artístico de MC Beyoncé) e prova concreta de que mesmo após tanta luta e opressão em todo o continente, a comunidade artística negra consegue ser unida e passar a sensação de pertencimento para todos, mesmo que estejam geograficamente distantes.
- ‘Sou Má’ – Ludmilla feat. Tasha e Tracie
- ‘Nice’ – The Carters (Beyoncé e Jay-Z)
REFERÊNCIAS
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Ariella Azoulay Na Zum 2020 | PDF. Scribd. Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/695944342/ariella-azoulay-na-zum-2020>. Acesso em: 11 jun. 2026.
COLLINS, Patricia Hill. Interseccionalidade. São Paulo, SP: Boitempo, 2021.
PARIKKA, Jussi. Arqueologia da mídia: interrogando o novo na artemídia. Intexto, Porto Alegre, n. 39, p. 201–214, 2017. DOI: 10.19132/1807-8583201739.201-214. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/index.php/intexto/article/view/71569>. Acesso em: 11 jun. 2026.
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Como o funk surgiu no Brasil e quais são suas principais polêmicas? | Politize! Disponível em: <https://www.politize.com.br/funk-no-brasil-e-polemicas/>. Acesso em: 11 jun. 2026.
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