Sextante

58 Editoriais

comissão editorial

pela memória

Em clima de retomada das atividades presenciais na Universidade e depois de duas edições da revista Sextante em Ensino Remoto Emergencial, decidimos olhar para o passado e perguntar: o que foi esquecido? Falar sobre esquecimento na era da informação, em que todos os acontecimentos são registrados por milhares de pessoas diariamente, é um desafio. Ao passo que tudo é registrado, nada é realmente lembrado e tende a cair no esquecimento. 

Há quem diga que o esquecimento é saudável para o cérebro, pois abre espaço para outras memórias e evita o cansaço. O esquecimento não é só o oposto da lembrança, também é o seu complemento. Afinal, todo ser humano é formado por experiências, pelas lembranças do que viveu, mas também por aquilo que esqueceu, voluntariamente ou não. Como luz e escuridão, a lembrança é o esforço inerente à vida. Lembramos enquanto vivemos. Portanto, se a morte é inevitável, também é o esquecimento.  Esta edição da Sextante um dia será esquecida. Todos nós seremos esquecidos. Independente do sacrifício empregado para lembrar. 

Desde a origem da humanidade na pré-história, nós lutamos contra o esquecimento. A escrita, a fotografia e as belas artes são instrumentos para registrar e relatar o que acontece no mundo e uma tentativa de frear o que é passageiro. O passado glorioso e digno de um filme, o jeans favorito de um jovem rebelde, que agora é pai de família, e um vereador que vira nome de rua e hoje ninguém sabe qual a profissão que tem. O que todos eles têm em comum? O esquecimento. Os repórteres da Sextante são os arautos medievais que viajam centenas de quilômetros e rompem com as limitações geográficas para entregar uma mensagem. Mas, dessa vez, a viagem não é física, é temporal.

Desenvolvemos a 58ª edição da revista Sextante a partir de reportagens que investigam a concepção de esquecimento. As abordagens refletem a ampla perplexidade e as peculiaridades dessa temática, que estão expressas com diligência em 23 reportagens. Seria o esquecimento um direito de todos os cidadãos? Quem são os esquecidos na capital do Rio Grande do Sul? Como lidar com o esquecimento de entes queridos depois da morte e por que esquecemos depois de sofrer um trauma? Essas são apenas algumas questões levantadas por esta edição. Embarque conosco nessa jornada de investigação ao esquecimento.

Comissão editorial
editorialsextante@ufrgs.br


professora-editora

para lembrar

Por qual razão alunos e alunas de Jornalismo, ainda tão jovens, resolveram falar sobre esquecimento nesta edição da Sextante? Algumas vezes, durante este semestre, me fiz essa pergunta. Em quatro anos, um estudante pode se formar em Jornalismo. Para os repórteres da Sextante que conseguiram passar por todas as disciplinas e agora estão chegando ao final do curso, metade dele foi realizado em frente a uma tela, longe dos colegas, sem entrevistar ninguém pessoalmente, sem cheiros, quase sem sons, sem imagens por completo. Foram muitos cafés que não foram compartilhados, muitos sorrisos desfocados, muitas conversas sufocadas. Tudo isso acompanhado de números assombrosos da pandemia, de dor e de perda. A tentação de esquecer o que ocorreu nos últimos anos no Brasil e no mundo é grande, e esse poderia ser um bom motivo para falar de esquecimento.

Mas a impressão que eu tenho é que esta Sextante não busca esquecer, mas sim lembrar. Percorrendo cada uma das reportagens, é possível ver que a principal provocação desses futuros jornalistas foi falar do que não pode ser apagado da memória. Foi contar histórias de pessoas e de lugares que não devem ser esquecidos. Essa parece ter sido a motivação mais forte para construção desta edição.

Esta revista foi feita com os primeiros passos dados nas ruas depois de um longo período de isolamento. Ela ainda traz o medo da aproximação com as fontes, a insegurança do olhar, mas também é marcada pela esperança da retomada. Se esses jovens repórteres já conseguem enxergar um futuro menos sombrio, eles também são capazes de perceber a importância do passado, esse tempo que quase não faz sentido para o jornalismo. Mas, mais do que tudo, eles conseguiram ressignificar o presente. É com este olhar que as reportagens da 58º edição da Sextante chegam até você. Com a dedicação de quem vive e fala sobre o hoje intensamente, sabendo que é possível aprender com o que já passou para que o mundo e o Brasil que ainda estão por vir sejam mais felizes, mais justos e mais doces. E esse é um ótimo motivo para fazer uma revista, enfim, para fazer jornalismo.

Thaís Furtado
thais.furtado@ufrgs.br


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