comissão editorial
PARA NOS ENCONTRAR
“Todos os dias é um vai e vem. A vida se repete na estação. Tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais. Tem gente que vem e quer voltar, tem gente que vai e quer ficar. Tem gente que veio só olhar. Tem gente a sorrir e a chorar. E assim chegar e partir.”
A vida é feita de encontros, desencontros e reencontros. Cada pessoa constrói sua história à sua maneira. Mas essa trama não é tecida isoladamente: cada cumprimento, olhar e momento compartilhado nos transforma. É preciso estar de peito aberto para desapegar das idealizações sobre o outro e aceitar o inesperado à nossa frente. É preciso, a cada encontro, se despedir de uma versão antiga de nós mesmos.
Há 60 edições, repórteres da Sextante contam histórias de encontros e desencontros. Com estranhos, consigo mesmo, com novas ideias. Desta vez, escrevemos sobre famílias, amigos, presente, passado e futuro. Entre o bairro e o mundo, tramas individuais e coletivas, achados e perdidos, desaparecidos que permanecem na memória. Eu, tu, ele/ela/elu, nós, vós, eles/elas/elus. As segundas chances. Aprendemos que até a morte pode levar alguém a se reencontrar com a vida. Ouvimos aqueles que encontram o caminho de suas palavras e aqueles que escutam os percalços alheios.
De início, o tema parecia amplo e as pautas muito distantes entre si. Mas ao lembrar que o trabalho jornalístico é, afinal, o movimento de encontros entre pessoas e histórias, fica fácil enxergar a sensibilidade que este conjunto de 16 reportagens carrega. Como repórteres, temos de deixar de lado ideias prévias sobre cada pauta para abraçarmos o inesperado e descobrirmos quais histórias podemos contar – e se transformar a partir desse encontro é inevitável.
Ao ler o primeiro parágrafo deste texto, pode ser que você tenha cantado a música de Milton Nascimento e Fernando Brant, também conhecida na voz de Maria Rita. Ao ler estas reportagens, pode ser que você lembre de alguém ou até de si mesmo. Ao terminar esta revista, esperamos que descubra um novo encontro, seja ele qual for.
Comissão editorial
editorialsextante@ufrgs.br
professora-editora
Uma edição redonda
Chegamos à edição 60 da Sextante. Isso significa que há 30 anos a revista é construída, semestralmente, por estudantes do curso de Jornalismo e seus professores na UFRGS. A matemática tem uma definição própria para números redondos, mas, popularmente, chamamos assim os números que terminam em zero, como 60 e 30. Essa expressão está ligada à ideia de aproximar quantidades a outras para facilitar a compreensão.
No jornalismo, por exemplo, muitas vezes arredondamos números para simplificar a leitura. No cotidiano, quando uma pessoa está muito equivocada, falamos que ela está redondamente enganada. Isso porque o redondo está relacionado à ideia de completude, de fechamento, como é o formato do zero. A própria contagem do tempo é organizada em décadas, séculos, milênios. Ou seja, é a tentativa da humanidade de ordenar e controlar a noção de tempo, que foi inventada pelo próprio ser humano, mas que está sempre escapando. Já quando um número não é redondo, ganha o nome de quebrado, como se estivesse estragado.
Encontros e desencontros foi o tema escolhido para esta edição. A palavra encontro normalmente remete a um sentido positivo, de felicidade. Um sentido redondo. Já desencontro carrega o peso da incompletude, de algo que não deu certo. Mas nem sempre é assim. Às vezes, um desencontro é o que leva a um novo encontro, ou um rompimento é o que faz com que uma pessoa finalmente se encontre.
Nesses 30 anos, a Sextante passou por muitas mãos e por diferentes cenários políticos, econômicos e acadêmicos do país. Passou por semestres quebrados por greves, falta de verba, intervenção, pandemia. Mas passou também por períodos de avanços bem redondinhos na educação, na ciência, na pesquisa. O que não mudou é que ela foi sempre construída por pessoas que acreditam na importância do jornalismo qualificado.
Esta edição mostra que o jornalismo precisa conviver tanto com o provável, quanto com o improvável. Mostra que os caminhos das pautas vão se bifurcando e os sentidos não são únicos. Afinal, números que terminam com o dígito cinco também podem ser considerados redondos. A equipe de repórteres da Sextante 60 sabe que os desencontros fazem parte da vida e precisam ser contados. Mas, acima de tudo, esta edição comemora um novo encontro com a esperança em um país tão quebrado nos últimos anos. Um planeta e um país novamente redondos.
Thaís Furtado
thais.furtado@ufrgs.br