Sextante

comissão editorial

UMA EDIÇÃO COM COR

Resultado do trabalho de uma turma majoritariamente negra, a 61ª edição da Sextante é fruto de um senso de comunidade que atravessou alunos, monitores, professores, conselho editorial e fontes. A revista que você lê hoje é efeito da política de cotas. Isso é, afinal, o que acontece quando a produção de conhecimento se desenlaça de antigos vícios interpretativos.

Muitas mãos negras já fizeram parte de outras edições da revista. Diferentes vozes negras tiveram espaço nas reportagens das outras 60 Sextantes. Mas nunca a revista se propôs a transformar o próprio olhar e centralizá-lo na negritude. O tema é desafiador. Enfrenta a norma e as limitações de uma academia guiada pela branquitude. Na capa, Sandra de Deus – a única professora negra do Departamento de Comunicação da UFRGS – é homenageada. Não poderia ser diferente: ela nos mostra, na prática, como é possível um fazer jornalístico que escapa à lógica dominante.

Em uma empreitada ambiciosa como a que nos propusemos, não poderíamos nos contentar com qualquer coisa que não fosse capaz de exprimir a negritude em sua riqueza de multiplicidades, de diferenças e de irregularidades. Da micropolítica dos afetos na cozinha de Zaida à trajetória política improvável do ex-governador Alceu Collares, existe aqui, em cada palavra que escrevemos, um esforço para decolonizar o olhar e a prática jornalística.

Falamos sobre moda, política, educação, gênero, amor e esporte. Celebramos as negritudes contando as histórias de riqueza, poder e criatividade que os livros e escolas não contam. Ouvimos pessoas que o jornalismo nem se esforça para ouvir. Esquece. Nesta edição, esperamos propor uma nova leitura da realidade, com mais cores e tons.

Comissão editorial
editorialsextante@ufrgs.br


professora-editora e estagiário-docente

CELEBRAÇÃO

Para construir uma reportagem, é preciso encontrar um fato, ou temática que tenha interesse social. Além disso, focar em um recorte que torne o relato factível. É impossível falar tudo sobre um tema. E é necessário que o repórter se questione sobre o objetivo que quer alcançar. Só assim poderá planejar a apuração – quem será entrevistado, a quais pesquisas recorrer, que fotografias serão feitas para levar o melhor conteúdo ao leitor.

Nesta edição, tratamos de um tema fundamental: a negritude. E cada texto tem um foco, uma questão a ser respondida. Por que os homens negros são os mais abordados pela polícia? Por que a expectativa de vida de uma mulher negra trans no Brasil é de 28 anos? Por que 90% dos autores de livros publicados no país são brancos? Por que as mães negras de crianças brancas são confundidas com babás, as professoras negras são desvalorizadas e as religiões afro são temidas? E por que tudo isso acontece em um país em que 56% da população se declara preta ou parda?

Existe um motivo para que essas perguntas apareçam todas juntas nesta revista: a diversidade entre os repórteres que a produziram. Uma pesquisa realizada pelo Perfil Racial da Imprensa Brasileira, publicada em 2021, concluiu que a quantidade de jornalistas pretos nas redações brasileiras é três vezes menor do que os autodeclarados brancos. Essa não foi a realidade da redação da Sextante 61. Além de a maioria dos alunos e alunas serem pessoas negras, toda a turma não só considera muito importante falar sobre o racismo como assumiu uma postura antirracista.

É também por isso que não tratamos só dos preconceitos. Falamos do poder da comida, da moda, da educação, das crenças, do samba, dos quilombos, do esporte, da ancestralidade que a cultura negra carrega. Para isso, a revista contou, pela primeira vez, com um conselho editorial, formado por profissionais negros de fora da universidade, que nos ajudou a construir uma edição tão potente. O jornalismo que oferecemos aqui escancara as desigualdades, mas, acima de tudo, celebra a negritude.

Thaís Furtado
thais.furtado@ufrgs.br

Thiago Padilha
thiagopadilha@outlook.com