comissão editorial
NÃO REPARE NA BAGUNÇA
Apesar de a palavra “lar” ter origem nos deuses Lăris, entidades que protegiam as casas e as lareiras dos romanos, o conceito encontra equivalências em diversas culturas, com diferentes origens e grafias.
O conceito não está relacionado apenas com a ideia de moradia, abrigo ou habitação – ainda que essas palavras carreguem sentidos importantes. Quando falamos sobre lar, a conversa também não se limita a algo material, como prédios, casas e edifícios: é falar sobre família ou amigos, sobre segurança, intimidade, conforto, apoio e um lugar que seja apenas nosso. Porém, o termo está aberto a contradições e também pode dizer respeito à insegurança, ausência ou opressão. Foi essa polissemia do tema que o tornou tão atrativo, possibilitando aos repórteres trabalhar o mesmo objeto através de diferentes abordagens.
A aproximação de algumas reportagens com o tema deixou clara, por exemplo, a associação do lar com a figura feminina, evidenciando a centralidade da mulher quando falamos do ambiente doméstico. Embora a temática tenha permitido diferentes visões para serem exploradas, nenhuma das 17 reportagens desta edição teve o foco voltado à realidade das pessoas em situação de rua, uma questão latente e conectada ao debate sobre habitação.
O tema ainda permitia abordar histórias relacionadas às inundações de maio de 2024, que ainda perpassam física e psicologicamente o estado do Rio Grande do Sul. O semestre reduzido que tivemos para desenvolver a revista é uma consequência direta do evento.
No fim, estamos todos à procura de um lar. Seja ele grande ou pequeno, palpável ou metafórico, se já é um desafio preenchê-lo em toda uma revista, que dirá nos caracteres deste editorial. Convidamos os leitores da Sextante a encontrarem, nesta edição, fragmentos do seu lar. Tire seus sapatos, abra o coração e fique à vontade.
Comissão editorial
editorialsextante@ufrgs.br
professoras-editoras
a MORADA DE BOAS HISTÓRIAS
Do que é feito um lar? O acesso à moradia é um direito constitucional, mas toda moradia é um lar? Lar pode ser o corpo violentado por agressões de companheiros e pela omissão do poder público? Pode ser a barriga de uma gestante ou o entorno de um imenso lago? Podemos chamar de lar uma cela de um presídio ou um motorhome? Será possível refazer um lar em outro continente após sofrer perseguição pelo Estado em seu próprio país?
Essas são algumas das perguntas que guiaram a produção das reportagens que você lerá a seguir. Mesmo em um semestre comprimido no tempo, após a enchente histórica de maio de 2024, as duplas de futuros jornalistas encararam o desafio de esmiuçar os sentidos da palavra “lar” sob diferentes enfoques.
A temática une as reportagens, mas não as unifica. Cada uma enquadra o tema a partir de uma perspectiva singular, para recordar Adelmo Genro Filho. O teórico e professor de jornalismo dizia que a forma de conhecimento do jornalismo é cristalizada no singular.
As reportagens da 64ª revista Sextante provam que Adelmo estava certo. “Lar” para Valter Bastos, um dos personagens desta edição, é estar à beira do Guaíba mesmo que ele possa inundar sua casa. Para Creuza Maria Oliveira, limpar lares é um ofício tão digno quanto qualquer outro e merece ser respeitado. Para Pedro Duarte dos Santos, de oito anos, é um enorme retângulo com janelas igualmente grandes pintadas com giz de cera.
Gênero jornalístico sofisticado, a reportagem nasceu no final do século 19 e hoje pode ser considerada o que melhor simboliza a essência da profissão. Nada mais apropriado que finalizar o penúltimo ano do curso de jornalismo com a produção de uma revista impressa e digital, que também podemos chamar, simbolicamente, de lar de boas histórias. Pode entrar, a casa é sua.
Confira aqui a edição impressa da revista!
Thaís Furtado
thais.furtado@ufrgs.br
Gisele Reginato
gisele.reginato@ufrgs.br
Sílvia Lisboa
lisboasilvia@gmail.com